Editora Encontro
   
   
     





































 
  comportamento
 
| NAYARA MENEZES |
Na cultura do ver e ser visto, blogs e
reality shows transformam anônimos em celebridades do dia para noite e, assim como tudo começa, tudo pode terminar


FAZ PARTE DO
MEU SHOW

 
 

“O espetáculo apresenta-se ao mesmo tempo como a própria sociedade e a realidade como objeto de mera contemplação.” Escrita há exatos 40 anos, a frase do filósofo francês Guy Debord, assim como o título de seu livro A Sociedade do Espetáculo, nunca esteve tão atual. Apesar de se referir a outro contexto econômico e social, alguns trechos da obra parecem retratar com fidelidade a explosão de dois fenômenos mundiais – os blogs e os reality shows. Afinal, guardadas as devidas diferenças, ambos formatos transformam a vida pessoal e o dia-a-dia de anônimos em espetáculo.

E a sociedade parece deleitar-se com a espetacularização da vida real. Para se ter

FAMA
A ex-big brother Iris
Stefanelli: satisfeita com
a fama e popularidade
repentinas

 

 

 

 

 

 

 


DO FOTOLOG PARA A FAMA
Marimoon, a fotologueira
mais famosa do Brasil:
hoje, garota propaganda
e presença no SPFW

 

 

 

 

 

 


IDEAL DE VIDA
O psicólogo João Batista Mendonça: “Assistir
ao outro é uma forma de me projetar num ideal de vida que eu jamais terei”

 

 

 

 

 

 


COMO EMAGRECI
A advogada e blogueira Larissa Bertani: seis mil
acessos por dia em seu blog Meu emagrecimento

 

 

 

 

 

 

 

 


DO BLOGh AO LIVRO
Bruna Surfistinha: tudo começou com um blog e terminou com o lançamento
de dois livros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

uma idéia, segundo dados do Technorati, espécie de contador de blogs, já são mais de 70 milhões de diários virtuais ativos no mundo. Os reality shows, que têm o Big Brother como seu maior representante no Brasil, também apresentam números impressionantes. A última versão do BBB atingiu picos de audiência equi-valentes aos do último capítulo da novela global Páginas da Vida.

O que aguça tanto assim a vontade de acompanhar o cotidiano de pessoas desconhecidas, seja pela tela da televisão ou do computador? E do outro lado, o que leva as pessoas ao desejo de serem vigiadas 24 horas por dia ou a escancarar, em uma página virtual, detalhes de sua rotina? Voyerismo, n a r c i s i s m o , identificação social.

Pode estar nestes conceitos a explicação para a forma de vida contemporânea e para os novos formatos criados e alimentados pela mídia. Dinheiro, fama, populariade. Seriam essas as motivações? O que levaria as pessoas a querer fazer parte do show? A ex-BBB Irislene Stefanelli, mais conhecida por Íris ou Siri, responde. "Sempre ralei muito e via como as pessoas que participavam do Big Brotherconseguiam coisas que eu demoraria minha vida inteira para conseguir." Hoje, mesmo saindo da casa sem o prêmio de um milhão de reais, Íris se diz satisfeita com suas conquistas. Ao ser perguntada se trocaria a fama por um prêmio em dinheiro, ela é enfática. "De jeito nenhum. Tudo que eu consegui , como a construção da minha imagem, é muito mais importante".

O professor da PUC José Márcio Barros, mestre em Antropologia e doutor em Comunicação e Cultura, acredita que o maior fator propulsor realmente não seja o dinheiro, mas sim a possibilidade de promoção. "A vitrine e a oportunidade de aparecer e tirar proveito dos 15 minutos de fama são muito mais visados do que o prêmio em dinheiro". E Íris não é a única que prefere o estrelato à recompensa financeira. No mundo onde a imagem é cada vez mais valorizada, a mineira pode estar fazendo a aposta certa. "A exposição hoje é colocada como valor.

Se antigamente um pintor era reconhecido pela obra, hoje o próprio sujeito apresenta-se como obra", avalia João Batista de Mendonça Filho, coordenador do curso de Psicologia da Universidade Fumec. No entanto, essa fama, denominada pelo jornalista Sérgio Cabral de 'celebritite', pode ser mais fugaz do que imaginam os novos astros. Basta fazer o exercício de tentar lembrar de 10 participantes da história do Big Brother Brasil. Difícil? Não deveria, afinal, já foram exatamente cem jogadores que passaram por ali. De uma centena, nem meia dúzia conseguiu se firmar na mídia ou alçar vôos profissionais mais altos. Estranho? "Apenas reflexo da indústria cultural, onde os produtos são para um consumo rápido, imediato", analisa o doutor em Comunicação José Márcio Barros.

A psicóloga Karen Camargo também acredita que a supervalorização da imagem, sustentada pela mídia e sociedade, reforça o exibicionismo. "Hoje em dia parece ser prazeroso me exibir para o outro, é uma forma de promoção e de auto-afirmação", explica. Segundo a psicóloga, a propagação dos blogssegue a mesma dinâmica. "Qual é a graça de relatar na página virtual todo o meu dia, aonde fui, com quem falei, o que comi, a que horas dormi?" Para Karen, essa é uma maneira que as pessoas têm de se mostrarem interessantes aos olhos do outro.

Os blogueiros, por sua vez, juram não ser essa a finalidade de escrever um diário virtual. A estudante de moda Mariana de Souza, 24 anos, criou, em 2003, seu fotolog, onde disponibiliza suas fotos. Hoje, Mariana virou Marimoon, a fotologueira mais conhecida do Brasil. O fotolog rendeu à garota contrato publicitário com a Melissa, com direito a fotos em revistas e aparição no São Paulo Fashion Week. "Tinha a idéia de divulgar meu trabalho, mas jamais imaginei esse resultado". Se por um lado existe o indivíduo que mostra, de outro está aquele que quer ver. Para a psicóloga Karen Camargo, o que atrai os olhares é a possibilidade de desvendar o proibido. "O conceito de privacidade evoca algo que deveria ser preservado, escondido. Por isso, a exposição dessa privacidade atiça o olhar pela fechadura", analisa.

O psicólogo João Batista de Mendonça Filho atribui ao voyerismo o interesse das pessoas por esses formatos. "As pessoas estão tão individualistas que o voyerismo – ver o outro sem ser percebido e sem assumir responsabilidade – ganha uma enorme força." Além disso, o psicólogo diz que a alta audiência dos reality showspode ser entendida pela possibilidade de se projetar num mundo 'cor-de-rosa'. "Assistir ao outro é um modo de me imaginar num ideal de vida que eu jamais poderei ter", avalia.

Já para José Márcio Barros, a sensação de fazer parte do showé a fórmula do sucesso dos reality shows. "Numa televisão tão passiva, a oportunidade de se sentir participante do jogo e de interferir no resultado é incrivelmente atrativa". No caso dos blogsa identificação com o público é um dos segredos para atrair os internautas. A constatação é da professora Fabiana Komessu, que se tornou doutora em Lingüística ao defender a tese Entre o público e o privado: um jogo enunciativo na constituição do escrevente de blogs da internet. A pesquisadora analisou 53 blogsselecionados e uma das conclusões foi que aqueles que recebem maior número de visitantes são "os que têm temática específica, são voltados a um público delimitado e trazem os traços de intimidade de forma mais diluída", revela. E parece mesmo ter sido esse o segredo do sucesso do blog Meu Emagrecimento, criado pela advogada Larissa Bertani. Após inúmeras tentativas de emagrecimento, a advogada criou seu próprio método. Passou a anotar tudo o que comia para controlar a quantidade de calorias.

"Então pensei: por que não fazer um relato num blog?" Assim Larissa deu início ao Meu Emagrecimento, que hoje recebe média de seis mil acessos por dia. A técnica, que a princípio era uma espécie de auto-ajuda, acabou transformando-se em uma "coletividade- ajuda", denomina Larissa. Dos 99kg iniciais que tinha quando começou a escrever o diário virtual, a blogueira já perdeu 43 e está a apenas quatro quilos da meta. Ela diz que os amigos virtuais foram essenciais no processo. "Me sentia motivada a mostrar resultados positivos". A relação criada entre Larissa e os visitantes de seu blog ilustram outro ponto ressaltado por Fabiana Komessu: a importância de um interlocutor presente e interessado. "Enquanto o diário íntimo tradicional representava a busca do próprio indivíduo, no blog essa busca passa a ser pelo outro", compara. Durante a pesquisa alguns blogs saíram do ar e a justificativa quase sempre era a mesma. "Os escreventes anunciavam que, como não estavam obtendo respostas e comentários, acabariam com o blog".

Com certeza toda e qualquer exibição só faz sentido a partir do momento em que existe alguém interessado no objeto exibido. Esse processo, de mão dupla, atrai número cada dia maior de protagonistas, sejam para verem ou serem vistos. Blogueiros como Marimoon, Bruna Surfistinha e tantos outros tornam-se celebridades da noite para o dia. Ex-BBBs como Grazi Massafera, Jean Willys e Iris Stefanelli curtem, como podem, a popularidade instantânea, já que Na Sociedade do Espetáculo, os 15 minutos de fama nunca foram tão almejados e recompensados como nos dias de hoje.

O que será da flor de Íris?

O jeito simples de menina do interior cativou muitos brasileiros, que torceram por Íris Stefanelli no último BBB. Em entrevista exclusiva para a Encontro, ela fala sobre seus dias de estrela e diz estar com os pés no chão.

ENCONTRO – Como foi sair da casa e ser tratada como celebridade?
IRIS – Para mim a melhor recompensa está sendo ser bem recebida na minha cidade, reconhecida nas ruas e ter o carinho das pessoas.
ENCONTRO – Você tem medo de que essa popularidade seja passageira?
IRIS – Não. Sei que tenho que manter os pés no chão, mas alguns BBBs sempre se destacam e aproveitam a oportunidade. Quero fazer um curso de teatro e batalhar muito para ser um desses.
ENCONTRO – E se não desse certo, voltaria a ser sacoleira?
IRIS – Claro. Nunca tive medo do trabalho. A única coisa na vida que me assusta é ficar doente um dia e não poder mais trabalhar.
ENCONTRO – A pressão dos fãs e da mídia não pode atrapalhar o romance com o Alemão?
IRIS – O Brasil inteiro está torcendo para ficarmos juntos. Como está muito recente não dá para saber se essa intervenção incomodará, mas acredito que não.

   
   
 
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