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  atualidade
 
| Christian Catão |
| fotos eugênio gurgel |

Apesar de todo o drama da epidemia de dengue vivido pela população do Rio de Janeiro, ainda é assustador o número de pessoas que parecem viver em outro planeta


Como Pode?

 
 

Os moradores de casas e prédios das regiões mais nobres de Belo Horizonte são os que mais dificultam a entrada dos agentes que detectam os criadouros do mosquito da dengue.

A constatação é da prefeitura da capital, por meio da Secretaria Municipal de Saúde. Uma das regiões mais problemáticas é a nordeste,

Flagrante do descaso: ferro-velho interditado por fiscal da
prefeitura no bairro Cachoeirinha, região nordeste da capital

 

 

 

 

 

 


Fiscal encontra água parada dentro de garrafa em ferro-velho do Santa Cruz, uma das regiões mais atingidas pela
epidemia em BH

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Larvas do mosquito foram encontradas no quintal da casa de Maria Terezinha:
“Não tinha quem limpasse”

 

 

 

 

 

 


A médica Valéria Radicchi: em apenas meia hora, dez pessoas atendidas com sintomas da doença no Centro de Saúde Gentil Gomes. Abaixo, morador do Santa Cruz despeja lixo nas ruas

 

 

 

 

 


Casos notificados de dengue em Belo Horizonte: 3.476
Casos confirmados de dengue: 1.360
Casos com complicações: 5 Dados por regionais

 

mais especificamente nos bairros Caiçara e Caiçara Adelaide. “Muitos moradores não recebem os agentes porque têm medo de assaltos e roubos”, diz o agente de zoonose Tarcísio Eustáquio Costa. De acordo com ele, o problema também é crítico nas áreas mais violentas da cidade. “Se o morador não nos deixa entrar, nosso trabalho está todo perdido.

Uma só casa pode infectar um bairro inteiro”, alerta. Segundo ele, a rotina dos agentes de zoonose é recheada de dificuldades. Além de muitas vezes os moradores se recusarem a recebê-los, cerca de 40% dos imóveis da região nordeste, por exemplo, são de casas fechadas, em que é possível entrar somente em mobilizações especiais com a participação da Polícia Militar, Vigilância Sanitária e chaveiros.

A dificuldade na prevenção é um dos fatores para o aumento dos casos da dengue em Minas Gerais. Em apenas uma semana, o número de notificações por dengue no estado aumentou quase 30%, de acordo com o relatório divulgado no dia 7 de abril pela Secretaria Estadual de Saúde (SES). Até o fim de março, data do último levantamento do trimestre, 7.302 ocorrências haviam sido registradas. Mas, no dia 31, as notificações passaram para 9.385. Do total deste ano, a maioria – 2.207 – ocorreu em Belo Horizonte. Com isso, o estado passa a ocupar o segundo lugar em notificações em todo o país. Minas Gerais permanece atrás apenas do Rio de Janeiro, que tem mais de 50 mil casos, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Apesar disso, autoridades afirmam que os números ainda não são motivo para desespero. “A situação está dentro da normalidade para esta época do ano. No mesmo período de 2007 eram mais de 18 mil notificações, quase o triplo”, destaca o consultor de Vigilância Ambiental da Secretaria de Estado de Saúde (SES), Francisco Lemos. “Não vivemos uma epidemia, mas estamos mantendo o alerta porque temos vetor e circulação do vírus 3, com muitas pessoas suscetíveis ainda”, diz.

Mas, parece que muita gente ainda não se deu conta disso. Em Belo Horizonte, moradores do bairro Santa Cruz são os mais prejudicados pela doença: lá já foram confirmados quase mil casos, ou seja, 71% dos registros de dengue na capital mineira. A Encontro acompanhou algumas visitas de fiscais na região e presenciou situações preocupantes. Dois imóveis que funcionam como ferros-velhos abrigavam as larvas do mosquito. Eles foram interditados. Os proprietários já haviam sido advertidos no fim de fevereiro. Além do fechamento, os donos dos dois estabelecimentos foram multados em mais de 3,7 mil reais. Outros 21 lotes foram notificados e os donos terão que pagar 800 reais pela limpeza feita pela prefeitura. O mutirão mobilizou cerca de 300 homens, que recolheram móveis velhos, pneus, garrafas, latas, vasos e outros objetos. Na casa da aposentada Cleusa Moreira Fernandes, 67 anos, o entulho e mato do quintal foram removidos. Larvas do mosquito foram encontradas em um recipiente com água suja parada. “Não tinha quem limpasse”, afirmou.

No Centro de Saúde Gentil Gomes o reflexo da falta de conscientização dos moradores. Em apenas meia hora, 10 pessoas foram atendidas com sintomas da dengue. Dados divulgados pelos próprios funcionários, mostravam que, das 7h às 16h, cerca de 150 pacientes foram assistidos com fortes indícios da doença. Os médicos estimavam que cerca de 90% eram de casos positivos. Uma médica do posto, que pediu para não ser identificada, lembrou que cerca de 10% das pessoas que procuram o local são crianças menores de 14 anos. Esta realidade do Gentil Gomes, apenas um exemplo entre tantos outros centros de saúde, é mais do que conhecida. Afinal, está sendo retratada no Rio de Janeiro nas últimas semanas pela mídia, ocupando boa parte do noticiário. E as causas de tudo isso estão por aí, a olhos vistos, no meio das ruas, nos entulhos de ferros-velhos, nos cantos das casas. Só cego para não enxergar a gravidade da situação.

A dengue em Minas Gerais

225,50 é a quantidade de casos notificados em Minas Gerais para cada 100 mil habitantes em 2007 – 18.529 casos registrados de janeiro a março

47,50 quantidade de casos notificados em Minas Gerais para cada 100 mil habitantes nos três primeiros meses de 2008 – 9.385 casos de janeiro a março – redução de aproxinadamente 50%

20 municípios concentraram 62,4% dos casos notificados em Minas em 2007

2 mortes por dengue ocorreram em MG, em 2008 – 91,04 é a quantidade de casos notificados em Belo Horizonte para cada 100 mil habitantes em 2008

1 agente é disponibilizado pelo estado para cada grupo de 800 a 1.000 imóveis

3.760 casos foram notificados

A Doença

A dengue é uma virose causada pela picada do Aedes aegypti, o mesmo transmissor da febre amarela. A doença tem diversos espectros clínicos, sendo as formas mais conhecidas a clássica e a hemorrágica, que é menos freqüente, porém pode ser fatal.

Com chuva, as chances de o mosquito da dengue se reproduzir aumentam. Por isso, o cuidado contra a doença deve se iniciar dentro de casa, a partir de precauções domésticas.

A prevenção se faz com o combate ao mosquito e às suas larvas, por isso é fundamental eliminar focos de risco que podem se transformar em criadouros do transmissor, evitando deixar água parada em pratos sob vasos de plantas, em garrafas, latas ou pneus velhos jogados nos quintais e terrenos baldios.

É importante também manter as caixas- d'água, poços e cisternas tampados, pois o mosquito prefere águas limpas. Além disso, uma limpeza periódica na caixa- d'água também é importante, não só para combater a dengue, como para evitar outras viroses que podem ser causadas pela ingestão de água contaminada.

A participação ativa de toda a sociedade é importante, porém, o engajamento deve ser permanente, e não apenas nos momentos de crise. Deve-se destacar, ainda, a importância da mídia na mobilização da sociedade.

Sintomas e tratamento

A dengue apresenta sintomas em 3 a 15 dias após a contaminação. Para o tipo clássico da doença, o doente apresenta dores de cabeça, febre elevada, dores musculares e nas articulações e manchas avermelhadas pelo corpo. Podem ocorrer, ainda, sangramentos nas gengivas e no nariz. A dengue hemorrágica, que na maioria das vezes ocorre em uma segunda contaminação, apresenta os mesmos sintomas, porém com maior gravidade.

Ao apresentar estes sinais, é importante que o paciente evite medicamentos à base de ácido acetilsalicílico, pois aumenta o risco de sangramento. A dengue não tem tratamento específico, devendo o doente ficar em repouso, ingerir bastante líquido e tomar os medicamentos receitados pelo médico, geralmente remédios para baixar a febre e diminuir a dor.

   
   
 
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