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| Blima Bracher |

O TOC (transtorno obsessivo compulsivo) tem cura. O primeiro passo é saber identificar a doença


Reféns da Mente

 
 

Ela começou batendo na madeira três vezes para isolar pensamentos ruins. A mania virou obsessão. Daí ao inferno foi um pulo.

Mariana* passava as noites rezando e tinha que isolar na madeira todas as vezes que um pensamento ruim invadisse a cabeça. Resultado: a professora passava a noite acordada repetindo preces até a exaustão. Assim foi até deixar o trabalho, pois não conseguia acordar no dia seguinte.

 

 

 

 

 

 

 


Depois de perder um anel quando criança, Jéssica* tornou-se obcecada por eles e acredita que sem esses acessórios fica exposta a acidentes

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Luciana Vendramini: “Cheguei a ficar mais de um dia num espaço de 2 m2 indo e vindo, as pessoas passavam me olhando, os porteiros
trocavam de turno e eu lá, naquele ritual ridículo”

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Obcecada por limpeza, Flor* vivia numa prisão imposta pela própria mente

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Para Claudinho* o ritual de bater com a ponta dos dedos em objetos aos pares, como chinelos e sapatos, pode evitar a perda de familiares e entes queridos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Obcecada por ­pensamentos de ­contaminação e nojo, Teca* desenvolveu ritual para lavar panos de prato que dura dois dias. Também guarda mais
de 100 panos que nunca usou

 


Pequenas manias ou tiques nervosos podem acabar virando transtorno obsessivo compulsivo (TOC): um problema classificado entre os transtornos de ansiedade assim como as fobias e o pânico. “O indivíduo é acometido por pensamentos obsessivos desagradáveis que não consegue controlar e que geram ansiedade. Numa tentativa de aliviá-la, o paciente recorre às compulsões, que são atos motores ou mentais, que ele mesmo cria e se impõe, para neutralizar esses pensamentos obsessivos”, explica o médico psiquiatra Maurício Viotti, professor da Faculdade de Medicina da UFMG. De acordo com Cristiana Pittella de Mattos, psicanalista da Escola Brasileira de Psicanálise, o TOC seria “uma redução do que conhecemos em psicanálise como neurose obsessiva, desde 1896, com Freud.”

O transtorno cria uma espécie de curto-circuito na cabeça da pessoa que sofre muito com a doença: os impulsos surgem na consciência e uma das formas de eliminar o pensamento é a compulsão por atitudes repetitivas. Racionalmente, a pessoa sabe que aquela repetição é ridícula e absurda, mas o pensamento obsessivo fica martelando na cabeça até que ela cumpra a ordem para neutralizá-lo. Dessa forma a pessoa torna-se refém da própria mente.

Claudinho*, de 37 anos, sabe bem o que é virar escravo dos pensamentos. Obcecado com o medo de perder alguém da família, criou rituais imaginários para evitar que qualquer coisa de ruim aconteça. Maníaco por simetria, quando pensa no pior, corre para bater quatro vezes em qualquer objeto. Bate nos chinelos, na parede, nos talheres, sempre com a ponta dos dedos. Gasta horas por dia cumprindo a ordem imaginária. “Sofro muito com isso, mas não consigo me libertar”, confessa.

As compulsões podem ter ligação lógica com a obsessão, como é o caso de quem lava repetidamente as mãos por medo de contaminação, ou podem não obedecer a lógica alguma. “Tive um paciente que elaborava mentalmente as frases de trás para frente para aliviar o pensamento obsessivo de que uma mancha em sua pele podia se transformar em câncer maligno”, lembra Maurício Viotti.

O problema é mais comum do que se imagina. De acordo com pesquisas realizadas nos Estados Unidos, o TOC atinge de 3% a 3,5% da população mundial e nada tem a ver com loucura, podendo acometer pessoas brilhantes como o cineasta Wood Allen e o cantor Roberto Carlos (ver quadro). A atriz Luciana Vendramini achou que estivesse enlouquecendo quando apresentou os primeiros sintomas. “A doença estilhaçou meu trabalho, minha vida pessoal, foi um tsunâmi de tristezas e frustrações”. Durante seis anos, ela ficou afastada de tudo por causa do agravamento dos sintomas. “Em 97, me deparei com esta surpresa da mente humana: o TOC. Estava na janela do meu apartamento no Rio, e comecei a contar os táxis que passavam na rua. Só depois de terminada a contagem, imposta por minha mente, ia me deitar. Quando me dei conta, perdia umas quatro horas do meu dia cumprindo rituais dos quais eu era refém”.

Mas a pior fase da doença ainda es-tava por vir. Luciana começou perdendo uma hora e meia no banho, até chegar a ficar dez horas no chuveiro. “Jamais experimentei tamanha impotência na vida. Cheguei a ficar 24 horas em rituais, e para piorar tinha os famosos pensamentos intrusivos”, confessa. Ela tentou esconder o problema da família, mas acabou perdendo totalmente o controle de sua vida. “Ficava exausta, passava o dia cansada, de tanto que levantava e deitava na cama, isso levava em média de cinco a seis horas todo dia. Tive várias crises horríveis, dormia na garagem do prédio, por não conseguir subir o elevador e fechar o ritual de manias. Fiquei 11 dias sem comer, beber e ir ao banheiro, de tanta exaustão que era levantar da cama”, lembra.

Mas o que levaria uma pessoa a apresentar a doença? “Os principais fatores predisponentes seriam os genéticos, mas dificuldades, perdas, luto, estresse ou traumas na infância podem contribuir para a manifestação do transtorno”, explica Viotti. Foi o que aconteceu com Jéssica*. Quando criança, era louca por um anel da irmã mais velha. Ele era prateado com uma pedra rosada. “Um dia peguei o anel escondido e acabei perdendo-o.” Quarenta anos se passaram e a fixação por anéis continua. “Tenho pensamentos recorrentes com acidentes e morte. Para evitá-los, tenho que esfregar um anel. Uma vez viajei sem este amuleto e suava frio, via o ônibus caindo e em todas as paradas procurava um anel, até conseguir comprar um.” Hoje Jéssica* tem mais de 30 anéis, todos prateados com pedras rosadas.

Uma mania deixa de ser normal e pode ser diagnosticada como TOC quando a intensidade das manifestações atinge um ponto em que o indivíduo sofre com elas ou tem prejuízos em suas atividades habituais, gastando uma hora ou mais por dia cumprindo rituais. “A intensidade de um sintoma pode impedir realmente a pessoa de exercer sua rotina ou a leva a ter que segui-la à risca sem nenhuma modificação”, complementa Cristiana de Mattos. Teca* sabe bem o que é isso.

A aposentada gasta dois dias só4 para lavar panos de prato. “Troco a água com sabão em pó três vezes, passo horas esfregando e só depois enxáguo. Ponho o pano de prato no varal, mas se alguém encostar a mão tenho que repetir todo o ritual de lavagem.” Isso sem contar que Teca* possui mais de 100 panos de pratos guardados. “Tenho pensamentos obsessivos de nojo e só me livro deles lavando os panos”, confessa.

O tratamento é fundamental, pois, com o passar do tempo, a pessoa com TOC vai mudando de obsessão, tendo novos tipos de preocupação, num efeito bola de neve. É claro que a opção de tratamento dependerá de cada caso e da gravidade do quadro. Luciana Vendramini precisou conjugar métodos. “Tomava remédio controlado e fazia terapia num processo longo de recuperação”.

Segundo Viotti, o recurso mais utilizado atualmente é o medicamentoso, em que se empregam antidepressivos que aumentam o neurotransmissor serotonina. “São usados também os ansiolíticos, que atuam de imediato. Em seguida e, de preferência associadas aos medicamentos, vêm as psicoterapias.”

Já de acordo com Cristiana de Mattos é preciso estar atento com o aumento desenfreado das ofertas de práticas que se associam ao tratamento desse problema. “Como as que tentam medicalizar o corpo e silenciá-lo, adequando-o à norma estabelecida; as que tentam conduzir a psicanálise em direção a uma psicoterapia; ou as práticas fundamentadas sobre técnicas cognitivo-comportamentais, cujo tratamento preconizado são estritamente reeducativos. São ofertas que acabam transformando o sujeito em vítima. As manias e comportamentos são como textos a serem lidos. Só assim se pode dar sentido particular ao que se apresenta como enigmático, no mal-estar de cada um.” Dessa forma, diz Cristiana, é preciso ser cuidadoso. Muitas vezes a compulsão, ritual, pode estar estabilizando uma realidade para o sujeito e ao ser retirada pode acarretar devastação.

Há 23 anos freqüentando as reuniões dos Neuróticos Anônimos (N.A.), Flor* se livrou, sem a ajuda de remédios, de um TOC relacionado à limpeza. “Passava o dia inteiro limpando a casa, chegava a deitar no chão em busca de poeira. Sofria demais e causava o sofrimento dos meus filhos, que não podiam tirar nada do lugar. Gastei anos da minha vida só limpando a casa, sem tempo de passear com a família”, diz. A cura, a dona de casa atribui às reuniões em grupo. “Não tinha força sozinha, sabia que estava neurótica, mas não conseguia me livrar daquilo. O N.A. me tirou daquela prisão.”

No Cinema

:: Melhor Impossível: Quem assistiu ao filme certamente se lembra das estranhas manias do personagem Melvin Udall, interpretado por Jack Nicholson, entre outras: lavar as mãos após tocar pessoas e objetos ou abrir e fechar as trancas repetidamente. Ao sair à rua, Udall anda em linha reta e evita ao máximo o contato com as pessoas. Caso típico de compulsão por limpeza e obsessão por contaminação.

:: Monk: No seriado norte-americano, Adrian Monk, interpretado por Tony Shalhoub, é um fantástico detetive, com capacidade lógica brilhante. Mas paralelamente desenvolve vários tipos de obsessões e compulsões (por germes, altura, multidão e até por leite). A série mostra também sua dependência do psiquiatra.

:: Dormindo com o inimigo: No filme, Julia Roberts interpreta uma dona de casa acuada com as compulsões e manias do marido, obcecado por simetria e organização. Ela passa horas alinhando toalhas no banheiro e potes de mantimentos na cozinha, para não desagradá-lo e provocar sua fúria.

Famosos

:: Roberto Carlos: o rei da jovem guarda achava que algo de ruim aconteceria se usasse roupas escuras como marrom ou preto. Cinco anos após ter o mal diagnosticado, continua não usando essas cores, mas já se controla diante de quem esteja de preto ou marrom

:: Jô Soares: declarou em seu programa que os quadros que possui em casa têm que estar levemente tombados para a direita

:: Wood Allen: o cineasta tem assumida obsessão por limpeza e remédios, além de pavor por lugares fechados

TOC a TOC

Obsessões são pensamentos ou idéias, impulsos, imagens ou cenas, que invadem a consciência contra a vontade da pessoa, de forma repetitiva e persistente.

As mais comuns envolvem os seguintes temas:

:: Agressão: preocupação em ferir ou insultar os outros ou a si mesmo

:: Contaminação: doenças, sujeira, germes, pó

:: Morte: situações de perda dos parentes, imagens de acidentes e catástrofes

:: Conteúdo sexual: pensamentos obscenos como fazer sexo com pessoas ou em situações impróprias

:: Armazenagem e poupança: colecionar, guardar objetos, dificuldade de se desfazer de papéis e roupas inúteis

:: Religião: blasfêmias, pecado, culpa pela noção de certo/errado

:: Simetria: exatidão ou alinhamento

:: Diversas: inversão de palavras, contagem de números, sons

Compulsões são comportamentos repetitivos ou atos mentais que a pessoa cria e executa para neutralizar psicologicamente os pensamentos obsessivos.

:: Limpeza/lavagem: mãos, corpo, banho, toalhas, limpeza da casa, não tocar objetos

::  Verificação ou controle: fechaduras, portas, janelas, gás, torneiras, chuveiros

:: Repetições: sair/entrar; palavras, números, parágrafos, páginas, gestos, leitura, escrita

:: Contagens: objetos, carros, janelas, portas l Ordem/arranjos/seqüências, simetria ou alinhamento

:: Acumular/colecionar: empilhar jornais velhos, colecionar objetos inúteis

:: Compulsões diversas: fazer o sinal da cruz, rituais mentais, fazer listas, tocar, bater de leve na madeira, tocar objetos, olhar

   
   
 
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