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  cidade
 
| Silvânia Arriel |

De tanto monitorar as ruas de Belo Horizonte, operadores do programa Olho Vivo tratam alguns moradores por apelidos


Olha eu aí

 
 

Dentro e fora das telas. Não de celebridades, mas de gente comum, mais comum que big brother quando começa a ser espiado na TV. No Centro de Operações Militares (Cicop) dá para ver nitidamente todo o centro de Belo Horizonte, Savassi e Barro Preto pelas lentes do Olho Vivo. As 72 câmeras captam os indivíduos, suas ações cotidianas, seus gestos chegam em tempo real aos monitores,

Cidade vigiada

72 câmeras instaladas no centro, Savassi e Barro Preto

8 postos de monitoramento,
com 9 câmeras cada, que
filmam 360 graus

4 equipes. Cada uma trabalha com
9 a 11 funcionários civis, por seis horas. Qualquer atitude suspeita é comunicada ao supervisor e ao despachante (policiais militares),
que aciona a viatura

34% de redução do índice de violência na região


Nas telas

Tatuadores trabalham em plena rua e não usam materiais descartáveis. “Faça tatuagem e ganhe de brinde hepatite, aids”, diz a monitora.

Na vida real
Fábio Firmino de Almeida é um dos que tatuam nas ruas Guaicurus e São Paulo. “Usamos material descartável. Tatuagem é coisa séria”, garante.
Na foto, ele faz desenho de rena no programador de sistemas Diego Santos a 5 reais. “Se tivesse dinheiro faria a definitiva”, explica Diego.



Nas telas

Tarjinha, nome inspirado na saia curta preta que usa todos os dias, sem calcinha. Está grávida, mora no Ribeiro de Abreu. Por quê? “A gente acompanha e vê que ela entra no ônibus de lá”, responde a monitora. Chega à praça
Rio Branco, conhecida como da Rodoviária, entre 17h15 e 17h30.

Na vida real
Andréa Josiane Barbosa Costa, 25 anos, grávida de sete meses. “É menina, vai se chamar Maria Eduarda e, quando ela nascer, vou deixar a rua”, conta. Moradora do Conjunto Ribeiro de Abreu. Passa as noites na praça.

 


Nas telas
Cidade aparece em todos os ângulos: pedestres, vendedores. É possível ver todos os detalhes

Na vida real
Adailton da Silva, vendedor na rua Guaicurus, conhecido lá por Paçoquinha. “Ainda não estou dando autógrafo.” Importa-se de ser vigiado? “Quem não deve não teme. Eles só
me vêem trabalhando.”

 

duplicam as imagens na TV instalada no centro da sala. Só não escutam os diálogos, mas pode-se imaginar. “Se a gente soubesse, fazia leitura labial”, diz a operadora Fabiana (*). É a eterna vigilância da cidade, 24 horas ininterruptas, quase imperceptíveis no corre-corre e ali expostas, como medida de segurança, que dá resultados (redução de 34% dos índices de violência), mas que a gente nem imagina que poderia ser daquele jeito.

Pedestres, carros, comerciantes, num vaivém, expõem a história real, crua, pura, imperfeita da cidade. Sem cortes, edições, com aproximação da imagem em pessoas tidas como suspeitas e as que sobressaem no meio da multidão, tal como é na vida irreal. “Olha o cara de bermuda, camisa laranja, está passando para a sua região”, diz a operadora para a outra, que começa a receber as imagens e vigiar de perto. Os suspeitos, na linguagem deles, são pessoas que andam sem rumo, vão e voltam, nada carregam. “Mas os que agem na subidinha sempre têm bolsa”, acrescenta Eduarda (*). Legendando: subidinha aí significa assalto a usuários quando sobem nos coletivos. Eles, na experiência de mais de dois anos dos operadores, raramente fogem do modelo-padrão: bermuda de náilon, chinelo, camiseta. Nem da região: rua Tupis, com São Paulo, e praça 7. As cenas se reprisam e acabam por definir o perfil em cada local e dia. Venda de crack é na Guaicurus e praça Rio Branco, conhecida como Rodoviária; atentado ao pudor e atos libidinosos, na Raul Soares. No domingo, os assaltos se voltam com maior freqüência para as portas da igreja de São José e na feira de artesanato, na avenida Afonso Pena.

“Savassi e Barro Preto são tranqüilos, a não ser em dias de jogos. Ninguém gosta de trabalhar nestes setores”, conta Fabiana. É a vida como ela é: quer emoção, protagonizar ações que gerem audiência (no caso aí de prevenir ou solucionar crimes). E quando não tem, cria-se ao percorrer a cidade, um dos monitores dá acesso a todas as imagens. “Eu não conhecia a Guaicurus e agora sei tudo o que ocorre lá. Olha o Castelinho (bordel), que a gente acrescenta das bruxas, porque lá a prostituta mais nova tem 70 anos. Agora, no Brilhante só entra mulher nova, bem-vestida”, conta a operadora ao dar um giro com a câmera pela cidade.

Nesta tomada geral se ateve também a pessoas sendo tatuadas em plena rua. “Faça tatuagem e ganha de brinde hepatite, aids”. A propaganda é da monitora, num tom crítico de que as pessoas ainda não são esclarecidas a evitar esse tipo de procedimento. Dali, resolve ir até a praça da Rodoviária conferir se a Tarjinha, nome dado pelos4 monitores porque usa saia bem curta, sem calcinha, estava lá. Não houve erro, a câmera logo focalizou a mulher, que chega por volta das 17h15 e só sai de manhã. “Ela está grávida. Quando não consegue programa, trafica crack”, relata Fabiana. Não escapa das câmeras, mas do flagrante da polícia, porque colocam (não só ela, mas outras pessoas) a pedra na boca e beijam o comprador para repassar a droga.

Decepção para os operadores, que se frustram também quando identificam assaltantes que a polícia leva para a delegacia, mas as vítimas não fazem queixa ou não reconhecem os agressores, mesmo com as filmagens. Aí, eles voltam às ruas, às lentes do Olho Vivo a se destacarem no meio da multidão, antes anônima e hoje vista, filmada, editada, guardada em capítulos diários.

Pular para dentro da tela, percorrer o centro e ver o que é estar do outro lado. Encontrar a Tarjinha, a personagem das filmagens do Olho Vivo e logo saber que é ela mesma, com sua saia preta, tal como nas câmeras. Só que, deste lado, é Andréa Josiane Barbosa Costa, 25 anos, grávida de sete meses, de Maria Eduarda. “Nossa, não sabia que era famosa”, diz. É, nas telas do Olho Vivo, neste show de realidade bruto, imperfeito, que reafirma a frase do escritor Thomas Moore: “A perfeição pertence ao mundo imaginário.”

A imperfeição mora de cá, nas ruas Guaicurus, São Paulo, onde tatuadores fazem seus desenhos em braços, pernas, costas dos clientes, ao ar livre e poluído, com equipamentos que à primeira vista parecem impróprios. “Só uso material descartável”, assegura Fábio Firmino de Almeida. Há clientes, não passa muito tempo sem que alguém pergunte o preço ou queira se submeter à agulha.

É espionado, como os outros 2,1 milhões de moradores que, porventura, vão ao hipercentro de Belo Horizonte, trabalham por lá, e os forasteiros. “Até esqueço que há câmeras por aí. Mas quem não deve não teme. Eles só me vêem trabalhando”, afirma Adailton da Silva, vendedor na rua Guaicurus, o Paçoquinha.

As câmeras estão por toda a região a coibir a violência, com resultados positivos, que estimularam o seu alargamento de visão para outros locais. O Olho Vivo já está nas regiões norte e oeste de Belo Horizonte e também em Betim. É o Grande Irmão (Big Brother, no original), do livro 1984, de George Orwell, que vigia todo mundo e ninguém sabe quem é, onde está. Aqui, se sabe, mas esquece. Eles não.

   
   
 
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