
2007 ficará marcado como
o ano de mudança no setor leiteiro no mundo inteiro. Certamente, o Brasil vai se
posicionar muito bem neste quadro. A cadeia do leite
também terá destaque mundial, assim como a da carne

A gente tem projeto de uma nova fábrica que deverá ser de queijo. A Itambé, como empresa grande, não pode ficar fora deste mercado. Não fabricamos os queijos mais vendidos que são
o prato e o mussarela. Estes
produtos estão nos planos
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Aí, Américo Giannetti, então secretário de Agricultura, resolveu lançar um desafio aos produtores para que eles se unissem em cooperativa e tocassem o empreendimento.
Sessenta anos depois, quem nasceu para atender a população de uma pequena capital, ganhou o mundo e hoje atende à necessidade de povos do Oriente, África, Europa e América. Muito da história da Itambé e da CCPR foi construído por José Pereira Campos Filho que, por 40 anos, comandou a formação da maior cooperativa e uma das maiores empresas de lácteos do Brasil. Mês passado, ele passou o comando para Jacques Gontijo Alves, produtor de Bom Despacho, que diz que aprendeu muito com o antigo comandante. Com esse conhecimento, quer levar adiante a empresa, expandindo o mercado interno, que será sempre o alvo principal, e consolidando a participação externa, aproveitando o que considera o melhor momento do leite no mundo.
ENCONTRO – O que é hoje a cooperativa?
gontijo – A terceira maior empresa no cenário de lácteos do Brasil. A primeira é a Nestlé. A Perdigão, que há alguns anos não atuava no setor, com as várias aquisições que fez recentemente, passou a ter porte maior que o nosso. A Itambé tem plano de investimentos de 350 milhões de reais nos próximos três anos, o que nos permitirá ampliar em 50% nosso parque industrial. O objetivo é nos colocarmos entre as duas maiores empresas de lácteo do Brasil até 2010. Precisamos crescer pois o setor leiteiro está passando por uma fase de muitas mudanças. O ano de 2007 ficará marcado como o ano de mudança no setor leiteiro no mundo inteiro.
ENCONTRO – Quais fatores levaram a estas mudanças?
gontijo – Até então o leite era um produto muito subsidiado na Europa e nos Estados Unidos, que tinham estoques bastante elevados do produto, o que mantinha os preços muito baixos de maneira artificial. Mudanças na Europa, com a integração de novos países na União Européia, aumentou o consumo, reduziram-se os subsídios, a produção diminuiu e os estoques acabaram. O final do estoque é o marco que muda toda a história do leite. A partir daí, houve aumento dos preços. Aconteceu, portanto, mudança profunda e o Brasil, certamente, vai se posicionar muito bem neste quadro.
ENCONTRO – O leite, então, vai se igualar à carne em relação ao mercado internacional?
gontijo – Da mesma forma que somos hoje os melhores e maiores produtores de carne do mundo, a cadeia do leite também terá destaque no cenário mundial. A base produtiva é a mesma: solo, clima, sol. E nós temos que viver esta fase agora. A gente precisa estar preparado para não perder este trem que vai passar, pois as coisas acontecem muito depressa.
ENCONTRO – O senhor fez aí uma analogia entre a carne e o leite. Nossa carne tem o diferencial do chamado “boi verde”, que se alimenta basicamente de capim. E o nosso leite?
gontijo – Não existe este diferencial. O que quis dizer foi que a base produtiva é a mesma. O que o mundo demanda hoje é proteína animal, carne e leite. E nós temos enorme potencial de transformação do vegetal – capim, milho – em proteína animal. Nisto, o Brasil é imbatível.
ENCONTRO – O senhor falou em novos patamares de mercado. O produtor tem acompanhado estas mudanças?
gontijo – O produtor de leite vem evoluindo. Eles adquiriram tanques, o leite fica resfriado nas fazendas e é recolhido pelos caminhões. Foi o final do tradicional latão de leite, e significou outro marco no setor. Naquela época, a Itambé tinha 20 mil produtores, com média de 60 litros/dia. Hoje são oito mil, com média de 500 litros/dia. Este fenômeno vai continuar. O leite tem ganho pequeno por litro, por isso a pessoa precisa ter escala.
ENCONTRO – Qual o papel da Itambé neste processo de mudança do perfil do produtor de leite?
gontijo – A gente estimulou o produtor a modernizar sua atividade, mostrando a ele o que estava acontecendo em outros lugares do mundo. Financiamos, com prazos longos e sem juros, os tanques de esfriamento. Não podemos obrigar o produtor a adotar novas técnicas, mas mostramos a ele as vantagens de participar deste novo modelo de produção.
ENCONTRO – Qual a maior bacia leiteira do estado?
gontijo – Em Minas a maior bacia leiteira é da região de Sete Lagoas, mas o eixo de produção está se deslocando para a região Oeste, no Tri-ângulo e Alto Paranaíba. É para lá que a Itambé está se dirigindo. Já temos duas cooperativas lá, uma fábrica em Uberlândia. O próprio projeto nosso é ampliar esta fábrica de Uberlândia.
ENCONTRO – O leite de saquinho ainda é um produto importante para a Itambé?
gontijo – Ele ainda é importante, mas o longa vida tomou espaço sobre o pasteurizado, por sua praticidade maior. Certamente ele não vai acabar, mas terá consumo menor.
ENCONTRO – Há realmente relação entre o aumento da renda e a mudança de consumo de produtos lácteos?
gontijo – Quando o desemprego se reduz, consome-se mais leite fluido. Quando a renda aumenta, amplia o consumo de iogurtes. É um fenômeno facilmente identificado na análise de pesquisa feita pelo IBGE. Aliás, frango e iogurte viraram símbolo de consumo no Plano Cruzado.
ENCONTRO – Até bem pouco tempo, produtores de leite fizeram campanha para que o produto fosse inserido na merenda escolar, como forma de aumentar a sua venda e estimular a produção.
gontijo – Alguns estados fizeram isto, como São Paulo, e também a prefeitura da capital paulista tem este programa que, por sinal, é o maior do país. Lá se distribui o leite em pó para alunos que não faltam à aula. Seria uma boa medida incentivar o consumo numa faixa menor de idade. O leite é muito saudável, mas infelizmente, não temos muitos programas deste tipo. Nosso mercado teria como absorver esta demanda. Nos Estados Unidos, o leite fornecido nas escolas é o maior mercado de leite do país.
ENCONTRO – Nas exportações a Itambé está em que posicionamento?
gontijo – Fizemos a metade das exportações brasileiras no ano passado, com 140 milhões de dólares e, neste ano, só no primeiro trimestre, já atingimos 60 milhões. O Brasil ficou autosuficiente, produz mais do que consome e, por isso, o caminho natural é o exterior.
ENCONTRO – Num mercado assim, não há mais espaço para o velho caminhão, fazendo as rotas de leite no interior.
gontijo – É, infelizmente, em função de custo e qualidade, este modelo acabou. Hoje, o que acontece: o leite é ordenhado entre 6h e 8h da manhã e colocado dentro do tanque. Às 9h, já está a quatro graus, aí ele mantém todas as suas boas qualidades. No tempo do latão recolhido pelo caminhão, o leite era ordenhado no mesmo horário e ficava na temperatura ambiente, na porteira das fazendas, até meio-dia, 13h, só chegando nos postos de resfriamento no período da tarde. Aí, as bactérias que o produto tem proliferavam, fazendo com que o leite perdesse qualidade.
ENCONTRO – O preço do leite hoje remunera o produtor?
gontijo – Remunera o produtor eficiente. A Itambé, ao longo dos anos, vem fazendo trabalho junto aos produtores para que eles se tornem mais eficientes. Nossos produtores mais eficientes produzem o leite na faixa de 60 centavos o litro. Como recebem 80 centavos, têm boa margem. Mas ainda existe um trabalho a ser feito, pois alguns produtores têm custo mais elevado. Nosso objetivo é ter todos os produtores eficientes. Vamos chegar lá.
ENCONTRO – Que posição a Itambé ocupa no mercado brasileiro?
gontijo – Somos líderes nacionais na venda de manteiga, requeijão e doce de leite e o segundo em leite condensado, leite em pó e creme de leite. Em Minas, lideramos o mercado destes produtos com os quais somos os segundos no Brasil. A Perdigão, que comprou recentemente a Cotochés, é a segunda de Minas, enquanto a Itambé ocupa o terceiro lugar no geral.
ENCONTRO – A produção de leite de Minas é capaz de sustentar o crescimento da Itambé em busca da liderança nacional de mercado?
gontijo – A Itambé atua em Minas e Goiás que respondem por 50% da produção nacional. Existe muito leite aqui para sustentar nosso crescimento. Minas ainda, infelizmente, exporta grande quantidade de leite in natura, o que é ruim, pois a industrialização é feita em outros estados. O ideal seria agregar valor aqui. É o que a nossa empresa faz. Somos o maior comprador de leite em Minas. Mas o mercado é muito pulverizado. Existem em Minas mais de mil laticínios ativos, com registro na Inspecção Federal. A maior parte trabalha com queijo.
ENCONTRO – A Itambé pensa em investir mais em queijo?
gontijo – A gente tem projeto de uma nova fábrica que deverá ser de queijo, a principal forma de consumir leite. Do leite produzido no mundo, 40% vão para a produção de queijo. A Itambé, como uma empresa grande, não pode ficar fora deste mercado. Temos uma produção pequena. Não fabricamos os queijos mais vendidos, que são o queijo prato e a mussarela, mas, certamente, estes produtos estarão no projeto da nova unidade até 2010.
ENCONTRO – Qual o patrimônio da Itambé?
gontijo – No balanço temos líquido de 300 milhões de reais e ativos próximos a um bilhão. No ano passado o faturamento foi de 1,75 bilhão, com crescimento de 28% em relação a 2006. Industrializamos 3,6 milhões de litros de leite/dia. Em 2008 deveremos chegar muito próximo de 1,3 bilhão de litros. Aí estamos chegando ao nosso limite de produção. Por isso, já estamos realizando alguns investimentos para aumento da capacidade.
ENCONTRO – Esta produção vai para o mercado interno ou externo?
gontijo – Para os dois. Apesar de existir espaço para crescimento das vendas externas, pretendemos ficar na faixa dos 25%, pois não queremos abrir mão do mercado interno. Lá fora, a gente coloca mais leite em pó, queijo e leite condensado, que são os possíveis de exportar. Não existe comércio externo de refrigerados.
ENCONTRO – O senhor falou numa nova fábrica, mas não revelou em que local ela será instalada. Pelo caminho que a produção vem fazendo, ela deverá ficar no Triângulo ou no Alto Paranaíba...
gontijo – O projeto da nova fábrica é para a produção de 100 toneladas/dia de queijo, com a utilização de um milhão de litros por dia. Isto significa que terá que operar próximo a uma bacia leiteira grande. Aí pode ser nas duas regiões citadas ou, quem sabe, em outro estado. A área do leite no Brasil está crescendo muito.
ENCONTRO – O senhor é produtor...
gontijo – Sou. Produzo dois mil e quinhentos litros por dia.
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