Uma vida pelo futebol

Prestes a ser reformado, campo do Pastoril reúne histórias de homens simples que doaram boa parte do seu tempo (e do seu dinheiro) para manter a bola rolando dentro das quatro linhas

por Frederico Teixeira 08/01/2014 14:06

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Preencha todos os campos.
Pedro Nicoli/Encontro
Amizades feitas no gramado: antigos jogadores do futebol amador recordam-se de uma época em que a paixão em defender o próprio bairro era maior que o interesse por dinheiro ou outros incentivos (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
À beira do gramado, o treinador gesticula, faz careta e esbraveja para chamar a atenção do ponta-direita de sua equipe, que prende demais a bola. Como não pode mais tirá-lo, pois já havia feito todas as substituições, resolve improvisar. Chama o lateral do time adversário e faz um pedido inusitado. “Ô, lateral! Dá uma pancada nesse ponta meu aí. Quem sabe assim ele solta a bola!” Essa é só uma das várias histórias folclóricas passadas no estádio Carlos Antônio Breguncci, mais conhecido como campo do Pastoril, no Dom Cabral. Inaugurado em 26 de abril de 1987, ele passará por uma verdadeira transformação.

Aprovada no Orçamento Participativo de 2010, a reforma desse campo de futebol amador deve, finalmente, sair do papel, ainda neste ano. Estão previstas no projeto a instalação de arquibancadas, a construção de novos vestiários e a revitalização das cabines de rádio. Entretanto, a principal mudança ficará mesmo dentro das quatro linhas: a adoção de um gramado sintético, algo inédito para um campo amador em Belo Horizonte. A história desse local, lembrada com emoção pelos antigos boleiros da região Noroeste, confunde-se com a do técnico que protagonizou a anedota contada no começo deste texto, o já falecido Sebastião Martins Rufino: o Careca.

Pedro Nicoli/Encontro
Toda doação era bem vinda: Rogério Augusto Pereira, o Chinês, recorda-se da época em que Careca saía pedindo doações para comprar lanches e acessórios para o time (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
Careca foi o fundador do Pastoril Futebol Clube, equipe amadora que, durante anos, fez a alegria do bairro Dom Cabral. O time acabou morrendo, como seu criador, mas, graças ao genro de Careca, a tradição dos peladeiros continuou viva.

Incoformado em ver sua região sem uma equipe, João Pereira dos Santos, o João Baiano, que era zagueiro do time do seu sogro criou, em 10 de outubro de 2001, o Januarense, que disputa nas categorias infantil juvenil e amador. O nome é uma homenagem à sua  cidade natal, Januária, na Bahia.  Quando o assunto é futebol, uma das referências, é claro, é o falecido sogro. “O Careca era um cara muito humilde e batalhador. Apesar de não poder pagar do próprio bolso, sempre providenciava um lanche após os jogos ”, relembra.

Assim como acontecia com Careca, hoje João é um verdadeiro faz-tudo: além de dirigente, joga, faz as vezes de roupeiro – às segundas-feiras lava seis jogos de uniformes – e ainda ataca de zelador do estádio. Apesar do sufoco, diz que vale a pena e só lamenta algumas mudanças. “O mal do futebol de hoje é o dinheiro. Aqui não pago cachê, cada um traz sua chuteira e só dou o lanche, que consigo pagar graças a uma ajuda do dono do açougue. Só que tem time amador por aí que paga até R$ 2 mil para cada jogador. Aí eu te pergunto: quem é que vai deixar de ir para um time desses para jogar no meu de graça?”

Com essas mudanças, reservar um pouco de tempo para o saudosismo cai como um remédio. O motorista Rogério Augusto Pereira, o Chinês, que foi meio-campo do Pastoril, também enaltece os esforços do lendário Careca. “Era um cara muito batalhador. Ele mesmo carregava material, lavava uniforme, cuidava do campo. Era diretor, roupeiro, presidente, técnico... Era o maior sacrifício”, conta.

O auxiliar administrativo Dalmir Roberto Reis, camisa 10 do Pastoril, só tem boas lembranças. “Quase todo mês a gente ia jogar fora. Viajávamos na base da raça, às vezes sem um tostão no bolso. O Careca era quem salvava: pagava um sanduíche de mortadela e um refrigerante”, conta.

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Saco vazio não para: segundo Dalmir Roberto Reis, a única refeição em dias de viagens era um sanduíche de mortadela e um refrigerante. (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
Outra cria do time do Dom Cabral era Luiz Alberto, o Neném. Habilidoso, chegou a treinar na escolinha do Cruzeiro, ao lado do volante Douglas e do atacante Edu Lima. “Acabei saindo porque meu pai, que era atleticano, não gostava da ideia. Muita gente brinca que só não virei profissional por causa disso”, afirma, sorrindo. A partir daí, dedicou-se apenas ao Pastoril.

Dalmir também destaca esse espírito. “A turma era muito unida, tinha muita amizade. Como a maioria dos jogadores era da região, o time serviu até para diminuir certa rixa que existia entre os moradores daqui com os do bairro João Pinheiro. Acabou unindo o pessoal”, garante. Lembranças de uma época em que o futebol era mais puro e bonito de se ver.

O maior rival

Além da disputa de vários campeonatos, todos os jogadores do Pastoril guardam na memória os duelos com o Sicob, time do João Pinheiro, bairro vizinho. “Era um clássico como Cruzeiro x Atlético. De vez em quando saía uma brigaiada.... E era sempre muito equilíbrio: 1 a 0; 1 a 1”, conta João Baiano

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