Equipe da UFMG vai à Antártica estudar sítio arqueológico

Liderada pelo professor Andrés Zarankin, a expedição chega a enfrentar frio de -40ºC para estudar traços de civilizações que passaram pelo continente congelado

por Bárbara Pansardi - Cedecom UFMG 10/01/2014 10:45

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Arquivo Projeto Paisagens em Branco/Divulgação
Acampamento formado na Península Byers durante a expedição realizada em 2012: pouco conforto e restrições alimentares (foto: Arquivo Projeto Paisagens em Branco/Divulgação)

Você já imaginou passar seus verões na Antártica, onde as temperaturas raramente excedem 3°C? O professor Andrés Zarankin, chefe do Departamento de Antropologia e Arqueologia da UFMG e coordenador do Laboratório de Estudos Antárticos em Ciências Humanas, já contabiliza mais de onze expedições ao continente, e as pesquisas são realizadas sempre na estação mais quente do ano, quando se torna viável sair a campo.

No inverno antártico, as temperaturas chegam a -40ºC. Além disso, devido à inclinação da Terra, a incidência solar na região é baixa, prolongando os períodos de escuridão. Para os arqueólogos interessados em realizar escavações nos sítios mais bem conservados e isolados do continente, a única opção é mesmo trocar o verão de clima tropical e o conforto das cidades por temperaturas gélidas e acampamentos.

A equipe liderada pelo professor da UFMG volta ao continente gelado após um ano de ausência – em 2013 não houve expedições devido ao incêndio que atingiu a base científica brasileira e afetou a logística dos estudos na região. Os  cinco pesquisadores partem de Punta Arenas, no Chile, rumo à Antártica para dar prosseguimento às pesquisas sobre história da ocupação local.

Andrés Zarankin explica que, devido a suas características particulares de isolamento e temperatura, o "continente gelado" foi o último grande espaço a ser ocupado pelo ser humano. É também o único continente que nunca foi habitado por populações autóctones.

A partir do final do século XVIII e início do século XIX, o continente passou a ser sazonalmente ocupado por caçadores de companhias internacionais (majoritariamente americanas e britânicas), enviados para caçar animais e abastecer o mercado de determinadas matérias-primas – óleo de baleia e de elefante marinho para iluminação ou produção de farmacêuticos e peles de foca para a confecção de roupas, por exemplo.

"A história tem trabalhado a Antártica a partir de documentos escritos, mas sobre esses grupos foqueiros não existem muitos documentos. Afinal, a maioria desses caçadores não sabia ler ou escrever. Contudo, existe o que denominamos de cultura material, os restos físicos produzidos pela atividade humana a partir dos quais é possível conhecer a vida cotidiana desses grupos", afirma o professor Zarankin.

Vestígios materiais

Na atual expedição, cujo regresso está previsto para 26 de fevereiro, o objetivo é escavar o sítio foqueiro melhor conservado dentre os identificados até então. Ele está localizado em Punta Elefante, pequena península na Ilha Livingston, que fica a aproximadamente 120 quilômetros ao norte da parte mais setentrional do continente antártico.

"A grande vantagem do sítio em questão é que ele se encontra praticamente intacto. O que esperamos é encontrar um contexto arqueológico primário que nos ajude a compreender a organização espacial, in situ, dos objetos, o que possibilitará realizar um estudo muito mais detalhado de como eram as estruturas de acampamento, permitindo aprimorar interpretações que já vínhamos trabalhando", expõe Zarankin.

Gerusa Radicchi, mestranda do departamento de Antropologia e Arqueologia e uma das pesquisadoras da expedição, faz uma descrição do acervo do sítio: "Lá, existem materiais orgânicos bastante perecíveis em condições muito bem preservadas, algo que normalmente não encontramos. Além de ossos que formavam a estrutura dos acampamentos, encontramos madeira – desde fragmentos até objetos como colheres e botões –, vestígios de peças de vestuário –, grande número de sapatos, inteiros ou com partes faltantes –, metais com liga de ferro ou chumbo, restos alimentares ósseos e peles de animais, que eram provavelmente abatidos e processados nos acampamentos, algo altamente perecível".

Todos esses elementos aportam indícios que permitem estudar desde como eram os hábitos alimentares, o acesso ao consumo, o corpo, moda, lazer e outras questões simbólicas e ideológicas.

Freezer natural

Uma das características da Antártica é que ela funciona como um grande freezer, ou seja, conserva materiais, principalmente associados com orgânicos, que em qualquer outro lugar do mundo estariam desaparecidos em 10 ou 20  anos.

Mas essa particularidade, aliada dos arqueólogos por conservar a cultura material, traz desafios. Em primeiro lugar, ainda em campo, é preciso desenvolver métodos e técnicas para escavar em ambientes tão frios. Às vezes o chão está congelado e isso dificulta a investigação; é preciso deixar que o piso derreta para prosseguir com os trabalhos. Ademais, a exposição ao frio, ao vento e ao gelo faz com que os materiais fiquem muito frágeis, de modo que o próprio processo de escavação ou a mudança de temperatura podem deteriorá-los.

Uma vez extraídos os objetos dos sítios, há um primeiro processo de limpeza e acondicionamento ainda na Antártica. Depois, esse material fica armazenado no interior de uma câmara refrigerada num barco da Marinha e só chega definitivamente ao Brasil por volta do mês de abril. É preciso buscá-lo o mais rápido possível e acondicioná-lo em geladeiras, conferindo cuidados específicos."Se não há uma conservação adequada, o material pode se perder. Daí a fundamental importância dos trabalhos de conservação”, explica Zarankin.

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