Conheça o bairro onde as diferenças se encontram

Travestis, prostitutas, policiais, moradores e frequentadores de duas igrejas esforçam-se para conviver em paz em uma região de alta concentração de motéis no Santa Branca

por Daniel Camargos 14/01/2014 10:32

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Samuel Gê/Encontro
Mantendo a segurança: alguns travestis acreditam que acabam ajudando os moradores. É que, como eles ficam durante a madrugada nas ruas, inibem a ação de ladrões e assaltantes (foto: Samuel Gê/Encontro)
Algumas das definições dos dicionários para a palavra diversidade são: contradição, oposição e variedade. Em Belo Horizonte, o bairro Santa Branca é um lugar que retrata bem o termo, especificamente nos quatro quarteirões formados pelas ruas Teles de Menezes, Antero de Quental, Monte Castelo, Monte Cassino e avenida Montese. Convivem ali dezenas de travestis e garotas de programa, que se prostituem nas ruas; viciados em crack; uma igreja católica e outra evangélica; o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da polícia mineira e centenas de moradores, entre prédios e casas.

Os travestis e as prostitutas estão na região devido à concentração de motéis, que cobram, em média, R$ 20 por hora. Amanda Rodrigues é travesti e faz ponto na esquina da rua Antero de Quental com a avenida Montese há 16 anos. Cobra R$ 50 por 40 minutos de programa e diz fazer o que o cliente pede. “Eu acredito que para o morador a nossa presença aqui é boa, pois inibe os assaltos”, garante Amanda, que é casada e mora na região de Venda Nova. Além de se prostituir, ela faz bicos como auxiliar de escritório e estuda educação física. Amanda é vaidosa e, ao ver sua silhueta retratada no visor da máquina do fotógrafo de Encontro, solta uma frase que arranca gargalhadas de quem está perto. “Arrasei! Fiquei igual a Beyoncé.”

Se os travestis não se importam em conversar, os moradores preferem não se identificar ao falar do convívio com eles. João (nome fictício) tem 18 anos e mora desde criança em um prédio na rua Antero de Quental. Relata que nem os travestis nem as prostitutas costumam “mexer” com os moradores, pois estão ali há tempos e conhecem quem é da região. O problema, segundo João, é mais recente e se concentra na rua Teles de Menezes e na praça da Saudade, frequentada por dependentes químicos, principalmente usuários de crack. “Eles reviram o lixo e tem uma moça que costuma pegar caco de vidro e ameaçar outras pessoas quando está doidona”, lamenta.

A movimentação constante de travestis e funcionários dos motéis rende uma grana extra para o empreiteiro Mauro Lúcio Martins, que estaciona seu carro na Antero de Quental e vende coxinha, croquete e outros salgados. “Venho aqui de segunda a sábado. O movimento é bom e dá para faturar uns R$ 140 por noite”, calcula Mauro.

Cristiane de Jesus, funcionária de um dos motéis, aproveita o intervalo para fazer um lanche e destaca que no trabalho dela “tudo é normal”. Cristiane é brincalhona e, quando perguntada onde mora, diz que é na Zona Sul. Porém, solta uma risada e complementa: “Na Zona Sul de Ribeirão das Neves”. Ela destaca que o essencial para manter o bom humor é não alimentar preconceitos nem julgar o que vê diariamente com moralismo.

Samuel Gê/Encontro
Menos preconceito, mais bom humor: Cristiane de Jesus, funcionária de um dos vários motéis, diz que a chave para encarar bem seu trabalho é não alimentar moralismos e ter uma postura positiva (foto: Samuel Gê/Encontro)


Porém, o bom senso não a salva de alguns apuros. Ela lembra que há poucos meses um homem subiu em uma árvore, tirou a roupa e começou a ameaçar os funcionários do motel com um revólver e uma faca. “Foi uma confusão danada. Eu saí correndo e fui até o Gate. Só que, quando cheguei lá, fui batendo ao portão (eram 3h da madrugada) e um policial saiu apontando uma metralhadora para mim. Expliquei a história e eles vieram aqui e prenderam o sujeito”, lembra.

O tenente-coronel Schubert Siqueira, comandante do Gate na capital, ressalta que o batalhão da rua Antero de Quental não é como os outros. Lá, fica a sede daquela que é considerada a elite da polícia mineira, destinada a ações táticas e especiais. São policiais que usam fardas pretas, armas potentes e têm treinamento especial, como se fosse o Bope do Rio de Janeiro, que ficou famoso mundialmente depois do filme Tropa de Elite.

“Em um momento de necessidade, o cidadão vê que lá tem a placa da polícia e procura, mas a missão do batalhão é outra”, explica o tenente-coronel, que assumiu o comando da unidade em outubro. Apesar de não ser um batalhão destinado a fazer o policiamento do bairro, Siqueira avalia que somente a presença na área já inibe a ação de criminosos. A sede do Gate foi deslocada para o bairro Santa Branca há quatro anos. Antes, ficava na avenida Tereza Cristina, mas devido às recorrentes inundações do ribeirão Arrudas foi transferida.

Observados por policiais, moradores e clientes, os travestis seguem encarando a noite e os riscos da profissão para conseguir realizar seus sonhos. É o caso de Sophia, de 21 anos, que enfrentou uma viagem de três dias de ônibus de Souza, da Paraíba até Belo Horizonte. Desde que tinha 10 anos veste-se como mulher e sonha conseguir juntar dinheiro para implantar próteses de silicone. Sua maior dificuldade em BH é usar roupas curtas para atiçar os clientes. “Estou sentindo muito frio. Lá na Paraíba é muito mais quente”, reclama a travesti. Ossos do ofício.

Samuel Gê/Encontro
Com a ajuda de Deus: evangélicos e católicos desenvolvem ações voltadas para usuários de drogas e pessoas que se prostituem nas proximidades (foto: Samuel Gê/Encontro)
Igrejas tentam amenizar os problemas


Se as arengas entre comunidade, travestis e garotas de programa estão em baixa, muito se deve ao trabalho das duas igrejas da região: a católica Nossa Senhora do Sagrado Coração e a evangélica Despertar da Fé. E os problemas causados pelos usuários de drogas também vem sendo amenizado.

O pastor Adriano Alves, responsável pela Despertar da Fé, coordena, todas as quintas-feiras, trabalhos voltados principalmente para os dependentes químicos. “Servimos almoço para o pessoal e buscamos parcerias com psicólogos, médicos e cabeleireiros, que fazem serviços voluntários”, detalha o pastor, que também ajuda aqueles que querem ir para uma casa de recuperação. “Tem um obreiro na igreja que já foi  dependente químico”, conta satisfeito.  

O coordenador da pastoral social da igreja católica do bairro, Bruno Cardoso, explica que a pastoral tenta fazer uma ponte entre a comunidade e as pessoas que trabalham nas ruas e dependentes químicos e realiza, com certa frequência, um jantar de acolhida. “Damos um sinal de que a porta da igreja está aberta para eles”, afirma Bruno. “Muitos moradores não abrem diálogo e isso é ruim, pois é uma realidade gritante que está debaixo do nosso nariz”, lamenta. Na avaliação do coordenador da pastoral, grande parte das travestis está nas ruas se prostituindo porque é discriminada e não consegue outro tipo de trabalho.

Editoria de Arte
Clique para ampliar o mapa (foto: Editoria de Arte)

Últimas notícias

Comentários