Território da paz

Mangabeiras abriga, de forma harmoniosa, a única mesquita islâmica de Minas Gerais, com cultos às sextas-feiras, e a praça Estado de Israel, onde judeus realizam celebrações anuais

por Natália Chagas 03/02/2014 15:09

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Divulgação
(foto: Divulgação)
Se o bairro Mangabeiras tivesse uma trilha sonora, seria certamente composta de world music ou, em bom português, música do mundo. Cunhado  em 1960, esse termo musical comporta a diversidade cultural do planeta e pretende que referências dialoguem, se respeitem e se misturem. É  exatamente o que ocorre no Mangabeiras. Ali, a única mesquita islâmica de Minas Gerais, onde mulçumanos realizam cultos semanais, convive de  forma pacífica com a praça Estado de Israel, local onde os judeus fazem celebrações anuais. Judeus e mulçumanos já travaram guerras históricas no  Oriente Médio (como a Guerra dos Seis Dias, em 1967) e ainda hoje vivem em conflito – haja vista as atuais bombas e ameaças trocadas entre  isreaelenses e palestinos. Mas, no Mangabeiras, a palavra de ordem é “paz”.

“Escolhemos este país para morar e, especificamente, este bairro, por ser um local tranquilo, longe de qualquer animosidade ou violência. As pessoas  aqui se respeitam, como manda o islã. Há tolerância e paz. Acho que a água do Brasil levou qualquer diferença que poderia existir entre os povos”, diz  o sheik Mokhtar, marroquino e guia religioso da mesquita há 20 anos. Ele encontrou em Belo Horizonte muitos motivos para ficar, após ter passado por  outros estados. “Eu tinha terminado meus estudos teológicos na Universidade Islâmica, em Riyadh, e vim para o Brasil. Morei em São Paulo e até no  Xuí, mas encontrei nesta cidade a calma, o sossego e a hospitalidade de que precisava. Especialmente neste bairro, onde não há comércio, onde a  natureza é tão presente, onde existe o silêncio, a calma e uma receptividade que só encontrei aqui”, diz o guia, que reside no interior da mesquita,  localizada na rua João Camilo Oliveira Torres, 20, com sua família. Sobre a relação com os seguidores de outras crenças, o sheik ainda esclarece:  “Deus não quer nenhuma imposição. O islamismo é uma religião que tem crescido, mas a força não pode ser usada para formar seguidores. Cada  homem tem o poder de escolher os mandamentos que quer seguir. As desavenças e a intolerância são resultado da ignorância que, infelizmente,  ainda existe no mundo todo”.

Construída por um casal de libaneses, ex-proprietário da extinta rede de lojas Nova Brasília, a mesquita foi inaugurada em 1991 e recebe diariamente  adeptos do islamismo de várias partes do mundo, especialmente às sextas-feiras, quando acontece o culto. Africanos, libaneses, indianos, brasileiros,  paquistaneses e marroquinos são alguns dos povos que fazem parte dos 6% da população residente no estado de Minas Gerais que seguem o  islamismo, de acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Pedro Nicoli/Encontro
Culto na mesquita do Mangabeiras, a única de Minas Gerais: praticantes do islã ouvem, descalços e de joelhos, orações e cânticos proferidos pelo líder espiritual do templo. O silêncio e a tranquilidade são essenciais e, depois das preces, eles participam de uma pequena confraternização (foto: Pedro Nicoli/Encontro)


Imad Kobaissi é filho de libaneses e frequentador da mesquita. Morador da Pampulha, vai toda semana para orar e encontrar os amigos. Sua postura  respeitosa diante do templo é repetida quando o assunto é a diversidade religiosa. “Convivemos aqui com pessoas de muitos países e que seguem o  islã, mas convivemos também com pessoas de outras religiões. A desavença existe, mas é muito mais política do que outra coisa. O islã prega o  amor e o respeito. Jamais deixaria de ter uma amizade por causa de uma crença diferente da minha”, esclarece. Hassan Kobeissi, libanês, há 20 anos  no Brasil, também muçulmano, concorda com o amigo. “Convivo com judeus e com outras religiões. Tenho amigos judeus e clientes também. Nós  todos nos respeitamos, como manda a religião. Por aqui não existe radicalismo.”

O islã também atraiu a norte-americana Vera Perez, que mora no bairro São João Batista, região de Venda Nova. “Conhecia pouco o islã e, quando  entendi seus mandamentos, me converti. Abracei essa religião. Frequento a mesquista há um ano e três meses e aqui encontrei o que buscava”, diz.  “Fico feliz pelo fato de a mesquita ser no Mangabeiras. Posso praticar minha fé num lugar tranquilo e cheio de paz.”

O culto na mesquita é, por si, um ato de paz. De um aparelho de som modesto ecoa um cântico sofrido, quase um lamento. São trechos do Alcorão, o  livro sagrado do islamismo, recitados por uma voz afinada e emocionante. Os seguidores da doutrina chegam devagar e, um a um, vão descalçando  os sapatos para pisar no chão azul acarpetado da mesquita. O clima é respeitoso e calmo. Mulheres não participam, permanecem no andar de cima.

Voltados para Meca, todos escutam as palavras do sheik. Em árabe, o guia fala por vários minutos em tom suave e frases longas, como um canto,  olhando cada um nos olhos. Os adeptos se sentam, numa posição que reflete humildade e devoção. E, em meio ao clima respeitoso e calmo, as  citações do sheik ficam ainda mais musicais. Todos se juntam, ficam de pé, e logo se ajoelham novamente. Repetem esse movimento algumas vezes  e se levantam uma última vez para o fim da cerimônia austera e serena, que dura cerca de uma hora. Há uma pequena reunião após o culto. Nesse  momento, todos conversam, riem e se juntam para o café da tarde.

Pedro Nicoli/Encontro
Descoberta da fé: a norte-americana Vera Perez mudou-se para o Brasil, converteu-se ao islamismo e frequenta a mesquita no Mangabeiras (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
A alguns quarteirões dali está a praça de Israel. Inaugurada em 1981, a praça, ou monumento Estrela de Davi, é um símbolo da cultura judaica em Belo  Horizonte. Construída na gestão do prefeito Maurício Campos (1979-1982), foi idealizada pelo escultor austríaco Franz Weissmann, que morou em  Belo Horizonte na década de 1950 e deu aulas na Escola Guignard. “A praça relembra Israel, tão longe geograficamente do Brasil, mas tão presente na  vida do povo por ser palco e protagonista da narrativa da Bíblia, livro sagrado dos judeus e cristãos”, explica Jaime Aronis, diretor da Federação Israelita  de Minas Gerais (Fisemg). Jacques Levy, presidente do Instituto Histórico Israelita Mineiro, confirma sua importância para o povo judeu. “A praça de  Israel é nossa ligação com o passado. Ela é um símbolo da nossa nação no Brasil.”

Neste espaço é realizada a Festa de Israel, entre os meses de abril e maio, dependendo do calendário lunar, que faz com que a data varie ano a ano.  Nessa festa é comemorada a independência do Estado de Israel, único Estado judeu no mundo e que, após 2 mil anos de exílio, em 1948, com a  decisão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), definiu a partilha da Palestina em dois estados: judeu e palestino, como  explica Aronis. “Em 14 de maio de 1948 foi declarada a independência do Estado de Israel, dentro das fronteiras definidas pela ONU. E o objetivo dessa  comemoração na praça é levar ao povo mineiro a contribuição desses 65 anos de existência do Estado de Israel para a humanidade e mostrar a  cultura judaica israelense nas áreas de culinária, dança, música e teatro. O evento reúne uma média de 6 mil a 7 mil pessoas. Chegam a Belo  Horizonte muitos visitantes e autoridades de outras cidades e estados para participar da festa”.

Um dos pilares da educação judaica, segundo ele, é aprender a conviver com as diferenças. “Quando ensinamos nossas tradições e festas às  crianças, o maior objetivo é aprender com o passado para vivermos melhor no futuro. Como a história do povo judeu é marcada por diversas tragédias  de ódio e perseguição, não podemos permitir que isso ocorra nos dias de hoje, com nenhum outro povo ou religião. É importante trabalharmos para  um mundo sem preconceitos e totalmente afastado da discriminação de qualquer tipo.

João Carlos Diniz/Divulgação
Festa judaica anual realizada na praça Estado de Israel, também localizada no bairro Mangabeiras: espaço idealizado por artista austríaco que lecionou na Escola Guignard, é considerado, pelos líderes judeus de BH, como a "ligação" com o passado e com o país do Oriente Médio (foto: João Carlos Diniz/Divulgação)


De acordo com o diretor do Fisemg, ainda hoje no Oriente Médio, em muitos países, há uma grande influência da religião no Estado, o que levaria,  entre outros motivos, a atitudes de intolerância e radicalismo. “Reger um país em função da religião não assegura ao cidadão nenhum direito de  discordância ou escolhas. Ou ele segue a religião do país ou enfrenta as consequências. Felizmente, aqui temos uma liberdade religiosa defendida  inclusive na Constituição, o que torna o Brasil um país onde podemos exercer o livre-arbítrio sem qualquer imposição.”

Leon Menache, grego nascido em Atenas, segue o judaísmo e frequenta a sinagoga. “Sou brasileiro, judeu, nascido na Grécia, cuja primeira língua foi o  espanhol. As origens da minha família estão na Inquisição espanhola e vivo num ambiente cristão. Não existem animosidades no Brasil que justifiquem  a exclusão deste ou daquele grupo étnico ou religioso do convívio comunitário. Este país pode se orgulhar de ser, desde suas origens, uma sociedade  que cultiva a diversidade cultural, a tolerância, a paz e o respeito a todas as nacionalidades. Tenho um grande amigo druso (membro de uma seita  religiosa) de origem síria. Já comi muito quibe na casa dele! E o bairro Mangabeiras comporta vários templos de todos os credos”, diz.

De acordo com ele, sendo o Brasil um país com muitos imigrantes, Belo Horizonte, como outras grandes cidades, registra um número importante de  descendentes de judeus e árabes vindos do Oriente Médio desde o início da formação da cidade. “Imigrados judeus e árabes cristãos sempre  conviveram muito bem no solo brasileiro, tornando-se um símbolo internacional de harmonia entre ambos os povos. Esperamos que, com os árabes  muçulmanos, persista sempre esse ambiente de fraternidade, como convém à cultura da paz do povo brasileiro, nutrindo o respeito mútuo para o bem  da nação brasileira, servindo como exemplo para o mundo, particularmente para o Oriente Médio”, conclui.

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