Vida por trás do hábito

Irmãs idealizaram e construíram convento que é palco de histórias marcadas pela dedicação ao próximo. Hoje, o local abriga idosas com problemas de saúde

por Marina Alves 10/02/2014 18:42

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Samuel Gê/Encontro
Tradição mantida: aos 88 anos, a irmã Betânia Pereira de Castro conta que, mesmo sem obrigação de usá-lo, só tira o hábito na hora de dormir (foto: Samuel Gê/Encontro)
“Ô irmã, me dá uma bênção!” Essa frase é ouvida com frequência por Débora Corrêa, de 78 anos. Ela chama a atenção das pessoas quando sai às ruas da capital vestida com seu hábito, que varia nas cores branca, marrom e cinza. O pedido é atendido com o maior carinho. O uso do traje deixou de ser obrigatório, mas algumas freiras mais tradicionais mantêm a indumentária. “Fiquei um tempo na África e não usava, mas agora faço questão. Tenho aqueles para todo dia e alguns melhores para certas ocasiões”, conta, com um sorriso no rosto. A irmã Betânia Pereira de Castro, de 88 anos, que usa o hábito desde os 21, diz que só o tira para dormir. “Nunca fiquei sem ele. Quando entrei para a congregação, todos usavam o santo hábito – como era chamado –, que é a consagração a Deus. Quem me vê sabe que sou consagrada a Deus, vivo para louvar e cantar a Ele”, explica. As duas fazem parte do convento da Congregação das Irmãs Clarissas Franciscanas, no Caiçaras, que hoje funciona como a casa de irmãs idosas que necessitam de cuidados especiais devido à causa da saúde debilitada. Irmã Débora é a coordenadora do convento.

Atualmente, 52 mulheres fazem parte do convento, das quais cerca de 20 estão acamadas. Elas são atendidas por uma equipe de vários profissionais, como médicos, enfermeiras, fisioterapeutas e dentistas. Antes o convento era um local destinado apenas ao cumprimento de votos de pobreza, obediência e de castidade, de moças católicas que se dedicaram a fazer o bem ao próximo. Hoje, além desses votos, também é ponto de retiros anuais, encontros e celebrações.

Para se consolidar na capital, a congregação enfrentou obstáculos, como conseguir um terreno – as irmãs vieram de um noviciado em Diamantina, que precisava de caras reformas – e até alimentos. Irmã Carmem Rodrigues, de 75 anos, conta como as freiras decidiram vir para Belo Horizonte. “As irmãs perceberam que era melhor abrir uma casa aqui, onde elas sempre precisavam vir e tinham de se hospedar em outras congregações”. Elas descobriram uma fazendinha à venda e compraram o terreno no início da década de 1940. Em 1949, 18 moças já haviam iniciado o noviciado.

O desafio maior estava por vir. Sem renda, as irmãs precisavam pagar as prestações do terreno, acabar de construir a casa e mantê-la. Irmã Carmem conta que frutas e verduras saíam do quintal e a carne era doada. O restante era conseguido pedindo esmola. As famílias das moças ajudavam como podiam, e médicos e dentistas atendiam de graça.

O que aliviou um pouco a situação foi a abertura de uma escola em salas no subsolo do convento. Irmã Ilca Colho, de 73 anos, explica que muitas freiras faziam um teste para se tornarem aptas pelo Estado a dar aulas e algumas ganhavam um pequeno salário, usado nas necessidades da congregação. A escola foi crescendo e se transformou no Colégio Franciscano Sagrada Família – Rede Clarissas Franciscanas, hoje referência para a cidade no bairro.

Samuel Gê/Encontro
Da esquerda para a direita, as Irmãs Luíza, Carmem e Ilca: a vida dedicada aos mais necessitados e a devoção a Jesus Cristo continuam as mesmas, mas elas ficaram mais, digamos, modernas (foto: Samuel Gê/Encontro)
Muita coisa mudou daquela época para os dias de hoje, em que há liberdade para sair, ir ao cinema, à praia. “Acordávamos às 4h45, tínhamos uma hora de reza e um rápido café para sair para as tarefas às 6h”, conta irmã Carmem. Cada uma assumia uma função, limpar a casa, cuidar do jardim, pedir esmola, dar aula. “Nós nos reuníamos para o almoço, e tinha o recreio comunitário, em que conversávamos, cantávamos e fazíamos trabalho manual, como a gola do hábito que ficava debaixo do pescoço. Só as irmãs mais velhas tinham um repouso à tarde. Depois tinha reza às 17h. Mais atividades, jantar e outra reza”, conta. Também havia hora de dormir, às 21h.  Preocupação com o cansaço? Nem tanto. “Era para economizar luz. Ai de quem não apagasse as luzes, porque o dinheiro era contadíssimo”, lembra irmã Carmem, aos risos.  

E em 1972, por opção das irmãs, o convento deixou de receber novas moças para formação e se aproximou mais das comunidades carentes. “Criamos pequenas casas, nos lugares mais pobres, onde ao mesmo tempo que elas recebiam educação religiosa tinham contato com os pobres”, conta irmã Carmem. Nesse mesmo ano o hábito deixou de ser obrigatório no Brasil. “Tirei o hábito quando vim ser diretora aqui. Cheguei em casa sem o hábito e disse para minha mãe que ia ficar com roupa comum. Ela me disse que gostava porque eu parecia uma santa”, recorda a irmã Luiza Maria Andrade, de 78 anos.

Mas nem era preciso o hábito para ser reconhecida como freira. Irmã Ilca lembra que, quando foi estudar geografia na UFMG, sem o hábito, foi logo identificada. O professor a chamou dizendo “Entra, irmã”. Bem-humorada, ela brinca com a situação. “Será que temos cara de água benta?”.


Clarissas franciscanas e seus costumes

  • As freiras tinham um estilo de vida mais fechado, precisavam cumprir horários para todas as tarefas. Quando estavam em formação, ficavam um ano sem conversar entre si, podendo falar apenas com as superioras

  • Hoje as irmãs podem morar em grupo em residências e combinar os horários das orações. Mas não podem viver com suas famílias

  • Elas também podem frequentar cinemas, teatros, praias e costumam ir a esses lugares na companhia de outras irmãs

  • Antigamente, as pessoas ironizavam as freiras vestidas com hábito, diziam que o ônibus ia bater quando elas entravam

  • Elas não são obrigadas a usar o hábito e podem usar saias e calças

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