Uma volta pela rua do prazer

Um passeio pela rua Guaicurus pode revelar um comércio que coloca à disposição da clientela os mais variados produtos. O leque de opções vai de alimentos, brinquedos, papelaria a até mesmo prazer

por Daniel Camargos 05/03/2014 09:33

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Cláudio Cunha
O chamado "baixo meretrício" de Belo Horizonte vai além do sexo, e reserva histórias como a da famosa personagem Hilda Furacão, do livro de Roberto Drummond (foto: Cláudio Cunha)
Um homem passa vendendo goiabas vermelhas em um carrinho de mão. Três por R$ 5. Na loja de brinquedos, uma boneca mequetrefe custa R$ 30. Ao lado, no Hotel Brilhante, por R$ 20 pode-se ter 15 minutos de sexo com uma das milhares de mulheres que fazem programas nos quartinhos exíguos com lençóis baratos dos hotéis da rua Guaicurus, no conhecido “Baixo Centro” de Belo Horizonte.

Nos últimos 70 anos, a Guaicurus tornou-se sinônimo de meretrício barato para os moradores da cidade. Os hotéis são uma artimanha para fazer da prostituição algo tolerado pela lei. As moças alugam os quartos pagando uma diária de R$ 70 e fazem o que bem entendem dentro deles. A reportagem de Encontro percorreu a rua e visitou dois hotéis em uma segunda-feira ao meio-dia. O entra e sai (ou sobe e desce, como costumam chamar por causa das escadarias para se chegar aos quartos) era frenético na porta do Brilhante e do Novo Hotel (antigo Maravilhoso). Fica fácil perceber que parte da população masculina da cidade aproveita a hora do almoço para “relaxar” por alguns minutos. É o fast- -food do prazer.

Os corredores dos hotéis são espaços democráticos. Por eles circulam jovens – alguns até aparentam ter menos que os 18 anos, idade que a placa na entrada adverte ser a mínima –, idosos, brancos, negros, ricos, pobres, magros e gordos. Enquanto os homens andam para lá e para cá olhando pelas portas abertas, as moças se exibem.

Son Salvador/EM/D.A Press
(foto: Son Salvador/EM/D.A Press)
Flor é uma delas, e fica em pé encostada no batente da porta. Vestida apenas com calcinha e sutiã, ela não é magra. Os comentários dos frequentadores do hotel a encaixam numa categoria de mulheres ligeiramente acima do peso e que conservam o charme. “Ela é gordelícia”, comentam. Já Mariana, morena jambo, é magra e se exibe para os clientes deitada de bruços na cama, balançando os dois pezinhos e dedilhando o telefone celular. Algumas são mais ousadas e na tentativa de conquistar a clientela ficam nuas, com as pernas abertas e um olhar perdido no teto caiado do quartinho. As diferenças entre elas não são apenas estéticas. Flor cobra R$ 25 e Mariana, R$ 20. Outras mulheres chegam a R$ 30.

A Associação das Prostitutas de Minas Gerais (Aspromig) estima que 15 mil pessoas sobem as escadas dos “hotéis” por dia. O número parece exagerado, mas a presidente da Aspromig, Cida Vieira, lança um desafio. “Se não acredita, fica sentado na rua contando”, brinca Cida, que é prostituta e trabalha na rua, na avenida Afonso Pena. Ela estima que cerca de 4 mil profissionais do sexo trabalhem todos os dias em BH.

A Aspromig funciona há três anos e é sediada na rua Guaicurus, em um estacionamento entre o Hotel Brilhante e o Novo Hotel. O Novo Hotel é o antigo Maravilhoso, local de trabalho de Hilda Furacão, personagem do romance de mesmo nome de Roberto Drummond. O livro – e depois a minisérie da TV Globo baseada na obra – serviram para mitificar ainda mais a rua. Muitos garantem que Hilda existiu de fato, outros atestam que não passa de lenda. Na dúvida, ficamos com um trecho escrito por Drummond.

“Todas as noites, menos às segundas-feiras, quando tomava destino ignorado, como diziam, uma fila começava na rua Guaicurus, subia as escadas do Maravilhoso Hotel, chegava ao terceiro andar, espremia-se pelo corredor e parava na porta do mitológico quarto 304, o dos fundos, gêmeo com o quarto 303; era lá que Hilda Furacão fazia a loucura dos homens. Já no corredor sentia-se o cheiro adocicado do perfume preferido por Hilda Furacão: o Muguet Du Bonheur. Foi criada a Noite dos Coronéis às sextas-feiras, reservada só para eles, que vinham do interior com seus charutos feitos de notas de mil, e foi tanto o sucesso que uma segunda Noite dos Coronéis, aos sábados, também foi lançada.”

Num legítimo golpe de antimarketing, não há mais os quartos 303 e 304 no que foi o Maravilhoso. Apesar de ter três pavimentos, os quartos do Novo Hotel estão no segundo e terceiro andares, sendo que a numeração é na casa dos 100 no segundo e do 200 no terceiro. Mas nem é preciso de propaganda. O movimento realmente não para das 8h às 23h. Cida calcula que, nos bons dias, cada menina chega a faturar R$ 500, o que em um mês pode representar até R$ 15 mil. “O trabalho  é duro. A maioria fica 15 dias e volta para casa, em alguma cidade do interior ou de outro estado”, explica a presidente da Aspromig.

Mas nem só de prostituição vive a Guaicurus. Nos 550 metros entre os quatro quarteirões cortados pelas ruas São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia, estão bares, salões de beleza, estacionamentos, igrejas evangélicas e lojas de atacado e brinquedos. A excentricidade dos inferninhos é bem disfarçada por prédios opacos, alguns de fachada velha e deteriorada, que se fundem ao restante do comércio na rua.

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