Um dia no quartel

Recrutamos um jornalista para passar um dia inteiro no 12° Batalhão de Infantaria do Exército e conhecer a rotina dos militares

por Marcelo Almeida 17/03/2014 11:23

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Samuel Gê/Encontro
O repórter Marcelo Almeida bate continência em frente ao quartel: cotidiano retratado (foto: Samuel Gê/Encontro)
Um toque de corneta de 20 segundos sinaliza o começo dos trabalhos no 12º Batalhão de Infantaria do Exército, no Barro Preto, em Belo Horizonte. São exatamente 7h40 e seis recrutas enfileirados no portão principal da rua Timbiras recebem ordens de oficiais para executar uma coreografia de pernas e braços, todos tendo em mãos um fuzil. Tudo para recepcionar o coronel Alexandre José dos Santos, que comanda o batalhão. Trinta minutos depois, mais de 450 jovens soldados e outros militares – cabos, sargentos e oficiais – estão formados em pelotões para as primeiras instruções do dia no pátio principal. A reportagem de Encontro acompanhou cada detalhe do dia, da apresentação da tropa aos exercícios físicos, do treinamento de tiro à capacitação em montanha. O 12º BI é um dos quatro batalhões do Exército no Brasil autorizado a ministrar o curso capaz de qualificar militares para transposição de obstáculos naturais, e a rotina é de tirar o fôlego.

Às 8h, com os uniformes extremamente limpos, cabelos curtos e botas impecáveis, os homens marcham sincronizados. O comandante revisa a tropa. Esse é um dos momentos preferidos do soldado Breno Alexsander Timóteo, que segue a carreira do pai. “Tenho orgulho de dizer que estou aqui por vontade própria”, explica. Pode-se dizer que atualmente quem está no Exército foi por vontade própria, pela falta de outro trabalho ou pela admiração pelo serviço militar.

Depois da marcha é hora do treino físico. Não sem antes ser executado o hino do Clube Atlético Mineiro. E não é uma piada. O comandante Alexandre é torcedor do Galo e, quando ele vence, é comum ouvir a banda tocando o hino para fechar a solenidade inicial.

Cláudio Cunha
Fôlego de sobra: há 21 anos, o cabo José Luiz Cardoso repete cinco toques diferentes de corneta para alertar os colegas de batalhão (foto: Cláudio Cunha)
Hora de ir para um campo onde os recrutas rastejam, saltam muros, sobem em cordas e se equilibram em muros, cumprindo 22 etapas em até seis minutos. Enquanto isso, outros soldados correm até 10 km fora do batalhão.

O quartel funciona como uma empresa com vários departamentos. Atividades cívicas, físicas e militares fazem parte da rotina. Durante os exercícios de guerra, os militares aprendem a teoria sobre o manuseio de armas e técnicas de sobrevivência. Ainda assim, a prática de guerra é intensa. Com luvas, mosquetões, fita, corda e capacete, a equipe de montanhismo realiza demonstrações de rapel. O cabo Luiz Paulo Pantaleão encara a prática como um esporte. “A diferença do montanhismo militar é que você transpõe obstáculos com objetivo de avançar com a tropa para combate, carregando mochilas e armamentos.”

Longe dos treinamentos de campo está o sargento Paulo Quaresma. Há 25 anos é dele a responsabilidade pelo “rancho”. São mais de 400 refeições servidas na hora do almoço e não é fácil agradar a todos. “Não há só mineiros no batalhão e é preciso cuidado com temperos e combinações”, ensina. O prato do dia, frango à espanhola, foi provado e aprovado por nosso repórter.

Há um toque feminino no Exército. As sargentos Agatha Ameno e Denise Silva, únicas mulheres no 12º BI , prestaram concurso e foram selecionadas para trabalhar como enfermeiras por um período de sete anos. “No início gerava constrangimento, mas a gente vai se adaptando”, revela a sargento Agatha Ameno. As duas já foram alvo de preconceito no quartel, mas reconhecem que o Exército está mudando.

Reprodução/Cláudio Cunha
Preparados para o combate: desde o início do século passado, o Exército já ocupava uma imensa área no bairro e treinava recrutas para uma possível guerra (foto: Reprodução/Cláudio Cunha)
O batalhão do Exército no Barro Preto já enviou tropas conhecidas como “boinas azuis” para servir na Força de Paz da ONU no conflito entre Israel e o Egito, em 1956, e para Angola, em 1996. Em novembro de 2012, 2,3 mil militares do Exército saíram do Brasil para prestar serviços no Haiti, sendo 20 deles do Barro Preto. Este é o terceiro pelotão que saiu de Belo Horizonte. Em 2010, o comandante Alexandre dos Santos ficou soterrado por seis horas após o terremoto que abalou o país, até ser resgatado por militares bolivianos. “Parecia que eu estava nascendo novamente”, recorda.

Depois do almoço, o cabo José Luiz Cardoso toca sua corneta e todos voltam às atividades. Ele faz isso há 21 anos e se gaba de ter fôlego de sobra para mais de cinco toques diferentes por dia. “Não vou abusar e passar a fumar, mas levo uma vida normal”, conclui.

Numa guerra, o Batalhão de Infantaria forma a tropa de frente. Seus soldados são os responsáveis pelo combate a pé, em qualquer terreno e sob qualquer condição meteorológica. Há também infantaria paraquedista, blindada, de selva, motorizada e de montanha. No Barro Preto, os soldados não treinam tiro de fuzil, principal arma de um recruta. Apenas alguns soldados, cabos e todos os sargentos e oficiais podem usar uma pistola. A mais comum é a 9 mm.

O sol inicia sua despedida e o dia se encerra com mais um toque de corneta. A maioria dos militares vai para casa após o expediente. Só aqueles que vão ficar em serviço dormem no batalhão. À noite, em suas camas, muitos jovens sonham com um futuro mais promissor e em fazer parte do quadro de heróis que já passaram pelo 12º Batalhão de Infantaria.



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