Contos de arrepiar no cemitério da Paz, em Belo Horizonte

Funcionários do maior da capital revelam histórias de deixar os cabelos em pé. Já teve galo que "ressuscitou" e loira que procurava criança para sacrifício

por Daniel Camargos 31/03/2014 10:38

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Celso Santa Rosa/Ascom PBH/Divulgação
Vozes são ouvidas após o cemitério fechar. Casos estranhos como esse são comuns entre funcionários e visitantes do local (foto: Celso Santa Rosa/Ascom PBH/Divulgação)
Em seus 46 anos de existência, mais de 200 mil corpos foram enterrados no primeiro cemitério- parque de Belo Horizonte e que permanece sendo o maior de todos: o Cemitério da Paz, no bairro Caiçaras.  Além dos restos mortais de milhares de belo-horizontinos que repousam na área de 289 mil m² entre as avenidas Carlos Luz, Américo Vespúcio e rua José Benedito, há histórias macabras e que assustam usuários e frequentadores.

As narrativas estão nas gavetas da memória, em regiões que nem os funcionários mais antigos gostam de remexer. Seja por medo, seja por respeito e seja até por receio de se tornarem chacotas, ninguém fala de peito aberto. Mas aos poucos, conversando e com a promessa de terem a identidade preservada, os funcionários se soltam e deixam escapar algumas histórias.

Uma delas envolve as encruzilhadas do cemitério, que são palcos corriqueiros de despachos. Diariamente, os funcionários recolhem frangos, galinhas e galos sacrificados em trabalhos com fins espirituais. Certa vez, relata um experiente funcionário, os trabalhadores da limpeza recolheram um galo que jazia em um prato ao lado de farofa e uma garrafa de cachaça e colocaram na caçamba do caminhão que recolhe o lixo. Para surpresa de todos, o galo “ressuscitou” e pulou da caçamba.

“Ninguém entendeu nada. O galo parecia morto, com um talho imenso no pescoço. Mas acho que não acertaram a artéria e o bicho não havia morrido”, lembra o funcionário. Após a “ressurreição”, o galo seguiu ciscando pelo cemitério, até um morador de rua matá-lo definitivamente para preparar um ensopado.

Aliás, um guarda municipal que faz a ronda no cemitério há sete anos já se habituou às macumbas. Só estranhou quando encontrou 28 frangos sacrificados e perfilados em uma das encruzilhadas. “Quem faz a festa são os cachorros que andam por aqui. Eles comem a farofa e os pedaços do frango”, destaca o guarda.

Já a cachaça encontra freguesia certa nos andarilhos, que, indiferentes aos aspectos espirituais envolvidos, confiscam a pinga e se embriagam sem dor na consciência ou medo de um castigo provocado por forças maiores.

Quem conta uma história tenebrosa que se passou no cemitério e garante que não havia provado da caninha é um funcionário com décadas de serviços prestados ao Cemitério da Paz e, claro, prefere o anonimato.

Editoria de Arte
(foto: Editoria de Arte)
O episódio ocorreu no mês de outubro, quando já havia passado das 19h e o acesso ao cemitério fica limitado. O funcionário relata ter visto um clarão, próximo ao Cruzeiro, que fica distante da portaria principal. Ele acionou os seguranças e foi conferir o que havia acontecido. Chegando ao local, perguntou: “Quem está aí?”. Escutou como resposta a evasiva: “Somos nós”.

Eram duas pessoas, com vozes femininas, vestidas com capas pretas e cobertas por capuzes. À época, o cemitério não era iluminado como é hoje e as duas moças foram embora sem reclamar. Porém, dias depois, no Dia de Finados (2 de novembro), o funcionário soube por um colega que havia alguém procurando por ele. Respondeu que não poderia atender, pois estava atolado de trabalho. “É uma loira maravilhosa”, detalhou o colega. Diante do argumento incisivo, parou o que estava fazendo e foi conferir.

“Era realmente linda. Uma loira alta com um vestido de oncinha”, ele relembra. O assombroso foi a conversa da sedutora moça. “Ela disse que estava no cemitério fazendo um trabalho quando foi interrompida por mim alguns dias atrás. Disse que se eu quisesse poderia ajudá-la arranjando alguma criança para ela sacrificar. Fiquei branco. Tenho certeza de que vi foi o demônio”, diz, ainda com ar apavorado, o funcionário.

Apesar dos relatos, a mística do cemitério da Paz é eclipsada pelo vizinho Bonfim – o pioneiro da capital mineira e distante apenas 2,5 quilômetros. Por ser um cemitério-parque, no cemitério do Caiçaras não há sepulturas suntuosas com esculturas nas lápides, como ocorre no vizinho. Tampouco lendas famosas que estão entranhadas no imaginário da cidade, como a famosa história da loira do Bonfim.

A lápide padrão do cemitério da Paz mede 60 x 32 cm. “As famílias insistem em colocar enfeites diferentes, mas não pode”, alerta o funcionário Cláudio Vicente Costa, que já foi gerente de lá.  Costa explica que começará, nos próximos dias, a ampliação do número de velórios, passando dos atuais seis para 12. Também será construída uma nova capela, restaurando as edificações que foram os dois primeiros velórios e hoje estão inutilizadas.

Outro guarda municipal que faz a proteção do cemitério da Paz há sete anos diz que sua função é tomar conta dos vivos frequentadores do espaço e que estes são os maiores causadores de problemas. No período que trabalha no local, não levou grandes sustos, mas se lembra de histórias em que foi preciso intervir para evitar confusão.

Uma delas foi quando uma senhora, de 72 anos, veio do interior do Paraná para participar do velório e enterro de uma irmã. “Ela começou a se sentir mal, o pessoal fez massagem cardíaca, mas não adiantou. A senhora morreu ali, deitada no banco”, recorda o guarda. A família ficou revoltada e foi preciso que o guarda e seus colegas interviessem para evitar uma tragédia ainda maior.

Na época do Curral Del Rei

Quando Belo Horizonte ainda era o arraial do Curral Del Rei, os mortos eram enterrados na igreja matriz da Boa Viagem. Com a construção da futura capital, a comissão responsável pelas obras criou um cemitério provisório, na esquina das ruas São Paulo e Tamoios. Porém, já em 1895, o cemitério do Bonfim começou a ser construído, sendo inaugurado em 1897, poucos meses antes da inauguração da capital, em dezembro daquele ano. Já o Cemitério da Paz foi construído exatos 70 anos depois, no estilo cemitério-parque.

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