Dom Helder Câmara: ele enfrentou a ditadura com fé e palavra

Conheça a história do religioso brasileiro que foi contra o autoritarismo e viajou pelo mundo para discutir e expor o regime militar aos estudantes universitários

por João Paulo Martins 31/03/2014 13:57

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Cor Filmes/Divulgação
Dom Helder Câmara pregou sua crença nas minorias e discutiu o autoritarismo da ditadura militar com estudantes de diversas universidades pelo mundo (foto: Cor Filmes/Divulgação)
Enquanto o país iniciava seu mais controverso e sombrio período da história, naquele fatídico 31 de março de 1964, uma voz que vinha de Pernambuco, do alto escalão da igreja católica, se fez ouvir pelos quatro cantos do mundo: a do arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Pessoa Câmara. Enquanto estudantes, trabalhadores e profissionais da imprensa, no Brasil, enfrentaram a ditadura militar com armas e sangue, o religioso, natural de Fortaleza, usou as palavras e a fé na juventude para confrontar o autoritarismo.

“Se dou pão aos pobres, todos me chamam de santo. Se mostro por que os pobres não têm pão, me chamam de comunista e subversivo”, costumava dizer Dom Helder, que teve diversos pensamentos associados a movimentos partidários. Como um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, ele ajudou a dar visibilidade, organização e estrutura à instituição, que teve importante papel de enfrentamento durante a ditadura militar brasileira. “Todo o agir de Dom Helder tinha por trás um valor maior, que era a promoção da dignidade humana. Num cenário político controverso, ele defendeu a cidadania”, explica Adenilson Ferreira de Souza, ex-jesuíta e doutorando em Ciências Políticas na UFMG. Seu objeto de estudo, claro, é o religioso brasileiro, um dos principais nomes do país, quando se fala em direitos humanos no século XX.

Com a restrição do espaço político brasileiro após a implantação do Ato Institucional nº 5, o AI-5, em 1968, Dom Helder, por incomodar muito os militares, é considerado pelos agentes do governo um ‘morto-vivo’. Os meios de comunicação não podiam falar sobre ele, nem publicar nada que mencionasse seu nome. O arcebispo estava proibido até de frequentar as universidades do país. Nesse momento, ele se volta para o exterior. “Como não podia circular pelo âmbito acadêmico no Brasil, entre os estudantes, de quem tanto gostava, tomou a sábia decisão de viajar pelo mundo, para discutir com jovens de grandes universidades, especialmente em Paris, Alemanha, Estados Unidos, Canadá e Itália”, diz Adenilson Souza.

Para Dom Helder, os cidadãos menos favorecidos deviam se unir, formando o que chamava de “minorias abraâmicas”, com clara referência bíblica a Abraão, e que tem como preceito a ideia de que em qualquer conjunto de pessoas, ao menos duas são sedentas por justiça e paz. “Ele apostava muito na juventude como engrenagem primordial da sociedade, e na força dos grupos abraâmicos, capazes de pensar soluções e enfrentar as arbitrariedades, com uma força parecida com a da bomba atômica”, completa o doutorando da UFMG.

Foram tantas viagens ao exterior, que o próprio papa Paulo VI, que era amigo de Dom Helder, solicitou que o arcebispo diminuísse o número de palestras internacionais. “O sumo pontífice alegou que o representante da cristandade era o papa e não o colega brasileiro”. Sua forte atuação para divulgar a repressão política no Brasil lhe rendeu nada menos que quatro indicações ao prêmio Nobel da paz – nenhum outro brasileiro teve tantas indicações. Além disso, recebeu o prêmio Martin Luther King, nos Estados Unidos, e se tornou doutor honoris causa em 32 universidades nacionais e estrangeiras.

Com tamanho reconhecimento, não é à toa que a Companhia de Jesus, ao criar, em 1998, uma escola de direito em Belo Horizonte, a chamou de Escola Superior Dom Helder Câmara. Como consta no site da instituição, no texto que trata de sua fundação, o ideal da escola “é dar continuidade à prática ético-social, através de atividades de promoção humana, de defesa dos direitos fundamentais, de construção feliz e esperançosa da cultura da paz e da justiça”.

O pensamento humanitário de Dom Helder Câmara, tão divulgado mundo afora, é reconhecido também pelas autoridades eclesiásticas. “Ele deixou um legado de coragem, de proximidade e de ajuda aos pobres e sofredores. Seu exemplo ensina que todo cristão deve se comprometer com o exercício da cidadania, buscando sempre o bem comum”, diz Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo metropolitano de Belo Horizonte. Ele lembra também que, além de advogado do povo, o arcebispo de Olinda e Recife também era um exímio poeta.

Se Dom Helder Câmara estivesse vivo – faleceu em 1999 –, ele teria apoiado as manifestações populares, que se espalharam pelas ruas do país em 2013, e que são demonstrações práticas de sua ideia de minoria abraâmica. Isso é o que o ex-jesuíta Adenilson Souza também acredita: “A sua utopia, de aposta nas minorias, permanece viva. Os grupos organizados, em todas as regiões do mundo, são capazes de gerar uma força de pressão moral sem precedentes”.

A trajetória do religioso brasileiro no período da ditadura militar não foi tranquila, e, além de enfrentar o poder instituído, também teve de ouvir duras críticas de pensadores e escritores da época, como Nélson Rodrigues e Gilberto Freyre. Eles achavam que o arcebispo estaria deixando de lado a religião e partindo para uma atuação voltada à propaganda política, e, neste caso, a do comunismo. A resposta de Dom Helder a todos que lhe combatiam era simples, porém humana: “Com todo respeito que merecem os santos, não sou homem de autoflagelações. Não há penitência melhor do que aquelas que Deus coloca em nosso caminho".

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