Conheça a arte da falcoaria, que é muito praticada em Minas Gerais

Além de um esporte curioso, a prática de treinar e comandar aves de rapina tem um uso importante: prevenção de acidentes em aeroportos

por João Paulo Martins 10/04/2014 10:24

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Júlio de Freitas/BH Hawking Club/Divulgação
A arte da falcoaria ganha cada vez mais adeptos em Minas Gerais (foto: Júlio de Freitas/BH Hawking Club/Divulgação)
Originalmente um esporte praticado por representantes da nobreza na Europa, no período medieval (entre os séculos V e XV), e por senhores feudais no Japão, a falcoaria – arte de criar e treinar falcões e outras aves de rapina – também pode ser encontrada, hoje, no Brasil. Um dos principais centros de criação e de prática com esse tipo de ave é o estado de Minas Gerais.

Com 17 anos de atuação, a Associação Brasileira de Falcoeiros e Preservação de Aves de Rapina (ABFPAR), começou no Rio de Janeiro, a partir da iniciativa de três ambientalistas: o mineiro Guilherme Fernandes Queiroz e os cariocas Jorge Sales Lisboa e Leo Tatsuji Fukui. No início, eles não tinham nenhuma ave para realização de treinamentos ou mesmo praticar comandos. Apenas em 2002, Leo Tatsuji Fukui montou o primeiro criadouro de aves de rapina no país. Hoje, existem três empresas que fornecem animais para os falcoeiros (praticantes da falcoaria): uma fica no Rio de Janeiro e as outras em Minas, em Uberlândia e em Patrocínio – que também fica no Triângulo Mineiro e é a maior do Brasil, com capacidade para criar 16 espécies de aves para comercialização. Uma quarta empresa está sendo montada no Rio Grande do Sul, mas ainda não funciona comercialmente.

“Minas é um polo da falcoaria no país. Por isso pensamos em criar uma associação regional. No início era um clube sem compromisso, mas foi crescendo e chegamos a ter 46 associados, de todas as partes do país”, diz João Paulo Diogo Santos, diretor-técnico da ABFPAR e presidente da BH Hawking Club, fundada em 2011, e que, agora, é restrita a mineiros – conta com 25 membros apenas em Belo Horizonte. Para quem quer começar na área, ele indica a espécie gavião asa-de-telha, que corresponde a 70% dos animais usadas pela falcoaria mundial. "Ela é muito dócil e de fácil treinamento".

Júlio de Freitas/BH Hawking Club/Divulgação
João Paulo Santos, do BH Hawking Club, com sua espécie preferida, o falcão de coleira (foto: Júlio de Freitas/BH Hawking Club/Divulgação)
Além de ser um hobby e de ter uso prático, especialmente para espantar aves urbanas em aeroportos e em empresas que precisam de ambiente limpo – por exemplo, a siderúrgica Belgo Bekaert faz uso da falcoaria –, os falcoeiros também gostam de levar a paixão por esses animais para outras pessoas. “A gente mantém um trabalho voluntário em escolas, para levar a educação ambiental às crianças”, explica João Paulo. O BH Hawking possui ainda uma parceria com o Ibama, para cuidar e recuperar aves de rapina, que foram apreendidas pelo órgão federal, e que precisam ser reintroduzidas na natureza.

Maior criadouro

A partir do interesse por animais selvagens e de um curso de aves de rapina, oferecido por um inglês, em 1986, Carlos Alberto Leão passou, então, a trabalhar com a falcoaria. Em 1997, após uma parceria com a polícia militar florestal em Patrocínio, a paixão pelas aves ficou tão forte que, no ano seguinte, criou o Centro de Reprodução de Falconiformes e Falcoaria (Cerefalco). “Sou técnico agrícola, mas minha paixão por esses animais está no sangue mesmo”, explica.

Hoje, o Cerefalco cria 16 espécies de aves de rapina para comercialização e quatro para preservação ambiental. “Eu atendo apenas aos falcoeiros, já que essas aves não são consideradas animais de estimação”, diz. O assunto está tão em moda, que o Cerefalco já está trabalhando para exportar sua criação para a Espanha. Falcoeiros espanhóis passaram quinze dias em Patrocínio para selecionar as espécies que querem levar para a Europa.

“Sou o único no Brasil que cria harpia”, conta o diretor do Cerefalco, que lembra ainda, que suas aves chegaram a participar de vários documentários nacionais e internacionais, como Amazônia: Planeta Verde, dirigido pelo cineasta francês Thierry Ragobert. “Nossas harpias são as únicas que voam livremente”, completa.

Cerefalco/Divulgação
Carlos Alberto Leão e a maior ave de rapina criada pelo Cerefalco: a harpia (foto: Cerefalco/Divulgação)
Segurança nos ares


Não é segredo para ninguém que alguns aeroportos no Brasil sofrem com o problema das aves que invadem suas pistas e mesmo seus espaços aéreos. Espécies como garças, urubus, pombos e gaivotas desconhecem os riscos de voar próximo às grandes “aves de metal”. Além de ser fatal para os animais, uma colisão com uma ave de grande porte pode gerar avarias em aviões e helicópteros, e, ainda pior, levar a graves acidentes.

Existem várias soluções sustentáveis para manter os aeroportos livres dessas espécies que insistem em voar próximo das aeronaves. Uma delas é a falcoaria. De acordo com a Infraero, os terminais de Confins, Pampulha, Galeão (Rio de Janeiro), Vitória (Espírito Santo) e Porto Alegre (Rio Grande do Sul), já utilizam aves de rapina para espantar as “intrusas”.

Através do programa Gestão do Perigo da Fauna Aeroportuária, a Infraero usa três espécies de aves de rapina nos aeroportos mineiros. São dois falcões – o quiri-quiri e o falcão-de-coleira –, e um gavião, o asa-de-telha.

Dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, o Cenipa, mostram que, em 2014, já foram registrados nove avistamentos de aves próximas à pista do terminal da Pampulha, além de uma colisão com aeronave. Em Confins, foram duas colisões apenas este ano. Vale lembrar que esses números não refletem totalmente a realidade, já que sua divulgação pelos pilotos e funcionários dos aeroportos é voluntária. Além disso, as colisões não significam, necessariamente, acidentes aéreos.

Quem quiser conhecer mais sobre a falcoaria:

O quê: Encontro Mineiro de Falcoaria 2014
Onde: Pousada das Cores
Endereço: rua José de Almeida Matias 380, Cocais, Minas Gerais
Data: 18 a 21/4
Reservas: (31) 3837-9186
Informações: (31) 9393-6913

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