Assédio no transporte público aterroriza as mulheres

Conheça a parafilia: distúrbio psicológico que leva homens a sentirem prazer em relar ou assediar mulheres dentro de ônibus e vagões do metrô

por Daniela Costa 10/04/2014 15:39

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YouPix/Reprodução
Cena de vídeo mostra ação de "encoxador" em ônibus de São Paulo. Os grupos criados por esses assediadores no Facebook foram deletados (foto: YouPix/Reprodução)
A rotina da recepcionista Aline de Paula, 21 anos, não é diferente da maioria das mulheres na capital mineira. Às sete horas da manhã ela já está no ponto de ônibus, no bairro Glória, de onde segue até o Castelo, local de seu trabalho. No trajeto, precisa pegar outra lotação – não existe transporte direto entre esses dois bairros. No entanto, não é a peregrinação nos ônibus que a incomoda, mas sim, o desrespeito de alguns usuários. "Além do caos que é o transporte público, sempre lotado, ainda temos de lidar com o assédio ostensivo de alguns homens. É revoltante", desabafa.

Esse assédio a que ela se refere se chama "parafilia" – perversão sexual caracterizada pela procura de excitação através de situações que fogem aos padrões considerados sadios –, e é mais comum do que se imagina. O problema assombra as mulheres principalmente no transporte público. "Quando percebo que tem algum homem tentando se roçar em mim, ou me tocar de alguma forma, procuro outro lugar para ficar. O problema se agrava quando o ônibus está cheio, e não consigo nem me mexer”, diz Aline.

Rogério Sol/Encontro
Aline de Paula, recepcionista, usuária de transporte coletivo: "Temos de lidar com o assédio ostensivo de alguns homens. É revoltante" (foto: Rogério Sol/Encontro)
A prática é tão comum, que alguns adeptos da parafilia chegam a filmar suas ações para divulgar em sites e comunidades nas principais redes sociais. Os grupos conhecidos como "encoxadores" chegam a ter mais de 12 mil participantes, e também englobam as "encoxatrizes" – mulheres que praticam o mesmo ato, ou gostam de ser assediadas. Alguns discutem o assunto em fóruns e dão depoimentos sem qualquer pudor.

A certeza da impunidade é tão grande, que grupos chegam a marcar os chamados "rolezinhos da encoxada". "Algumas espécies de parafilia são crimes, entre elas a pedofilia e o estupro. No entanto, a denominada ‘encoxada’, por si só, não tem sanção punitiva como crime em nossa legislação penal, e é tida no máximo como contravenção penal", explica o advogado Arthur Bernardes S. Junior, do Grupo GV. O curioso é que esse assédio se transforma em crime quando associado a outro tipo de contravenção, ou seja, quanto há a perturbação do sossêgo e tranquilidade da vítima. Neste caso é gerada multa e prisão temporária. "Portanto, acreditamos que seja necessário não apenas elevar o ato à categoria de crime, mas também tornar efetiva sua punição, já que pesquisas apontam que a certeza da impunidade é que encoraja os autores", diz o advogado.

A consultora imobiliária Cristina Piva, 52 anos, sentiu a agressão na pele quando morava em São Paulo. "Tomava o metrô da estação Santo André à estação da Luz, e sempre acontecia algum episódio desagradável. Para me proteger, passei a levar uma agulha na bolsa. Era só algum espertalhão me encostar, que tomava uma picada", lembra.

Facebook/Cristina Piva/Reprodução
A consultora imobiliária Cristina Piva, também sofria com a parafilia, em São Paulo: "Era só algum espertalhão me encostar, que tomava uma picada" (foto: Facebook/Cristina Piva/Reprodução)
O mundo das parafilias, porém, vai além do transporte público, e abrange transtornos sexuais variados. "Afeta indivíduos que não são capazes de ter relações sexuais sem realizar algum fetiche. Criam uma dependência de determinados atos, o que gera uma distorção dos padrões tidos como normais pela sociedade", explica o psicólogo Gilberto Frank Diniz Araújo. Segundo ele, a prática pode ser considerada uma doença, à medida que o sujeito não respeita a individualidade e, principalmente, a vontade do outro, causando mal estar e impondo a sua vontade. "Sob o olhar psíquico, esse indivíduo pode ser considerado doente, quando passa a limitar seu prazer a determinada prática perversa".

O que é importante saber, e que está ausente entre os praticantes da parafilia, é conseguir diferenciar o certo e o errado, ou seja, não deixar que seu prazer seja vinculado à invasão da privacidade alheia. “As fantasias devem servir ao indivíduo, e não o contrário. Se isso acontecer é porque algo está errado”, completa o psicólogo.

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