Seleção inglesa volta a Minas, 64 anos após célebre derrota para os americanos

Mais de seis décadas após o vexame de perder para o time dos Estados Unidos no último mundial da Fifa no Brasil, britânicos retornam ao estado, onde ajudaram a fundar o segundo time mais antigo, o Villa Nova

por Agência Minas 05/05/2014 11:49

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Marcos Michelin/EM/D.A Press
Além do famoso jogo contra os americanos em 1950, os ingleses deixaram também sua marca na cidade de Nova Lima: o segundo clube mais antigo de Minas, em atividade, o Villa Nova (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)
A relação entre ingleses e mineiros no futebol vai além do histórico calendário da Copa do Mundo de 1950. Antes daquele mundial, a exploração mineradora pelos ingleses em Nova Lima, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, possibilitou o surgimento de um time de futebol, o Villa Nova Atlético Clube, formado por trabalhadores das minas. Além disso, um dos principais jogadores brasileiros da história da Liga Inglesa (Premier League), um dos torneios mais disputados do mundo, é o mineiro de Lagoa da Prata, Gilberto Silva, que defendeu por seis anos o Arsenal, famoso time de Londres. Ele é um dos 10 embaixadores de Belo Horizonte para grandes eventos, título concedido pela PBH.

No dia 24 de junho deste ano, a seleção da Inglaterra entra em campo em Belo Horizonte, no Mineirão, para o confronto com a Costa Rica pela Copa do Mundo. Sessenta e quatro anos depois, os britânicos retornam à cidade onde realizaram um dos jogos mais comentados da história. Em 1950, o time inglês foi derrotado pelos Estados Unidos por 1 a 0, resultado considerado talvez a maior zebra das copas, no estádio Independência.

Para o volante Gilberto Silva, que defendeu o Arsenal por seis anos – período em que conquistou quatro títulos ingleses –, a relação entre a Inglaterra e Brasil é de muito respeito. "Fui muito bem recebido quando morei na terra da rainha. É claro que, no início, tinha uma dificuldade com relação à língua, mas todos foram sempre muito solidários. O britânico parece ser mais distante, mas na verdade eles também são muito receptivos. E, o melhor, eles adoram o carisma, a disposição e a amizade dos brasileiros", destaca o jogador mineiro.

Quem endossa esse coro é o londrino Anthony Phillip Redmond. Há 30 anos no Brasil, o morador de Belo Horizonte também enaltece o bom relacionamento entre ingleses e brasileiros. "Aqui em BH as pessoas se cumprimentam, conversam, dão bom dia. Isso é muito parecido com a Inglaterra. Lá tem fama de ser um país frio, mas não é. As pessoas conversam e se olham", conta.

Minas e os ingleses

Apesar do jogo da Inglaterra na Copa de 1950, em Belo Horizonte, ter entrado para a história, as relações dos mineiros com os britânicos começaram bem antes. Em 28 de junho de 1908, um grupo de operários da Saint John Del Rey Mining Company Limited fundou o Villa, o segundo clube mais antigo do estado em atividade, superado pelo Atlético, fundado em 25 de março do mesmo ano. Na ocasião, Nova Lima ainda se chamava Villa Nova de Lima. Daí a origem do nome do time. Para simbolizar o clube, nascido sob o signo anglo-saxão, foram escolhidas as cores vermelha e branca, as mesmas que compõem a bandeira da Inglaterra. Como mascote, o leão, símbolo da monarquia britânica.

A Saint John Del Rey Mining Company Limited era responsável pelo emprego dos atletas do Villa em sua mina. A empresa mantinha uma norma que foi fundamental para a estruturação do clube: todo funcionário da empresa contribuía de modo compulsório para a agremiação alvirrubra e tornava-se sócio. Isso gerava uma fonte segura de receita mensal e garantia a manutenção de um time forte e competitivo. Em contrapartida, os contribuintes podiam entrar gratuitamente no estádio Castor Cifuentes, hábito que era comum também entre outros clubes na época.

O jornalista Wagner Augusto Álvares de Freitas, torcedor e historiador do Villa Nova, conta que a influência inglesa nos anos iniciais do time era bastante forte. “Não se tratava apenas de um estímulo corporativo com vistas a proporcionar uma boa opção de lazer aos trabalhadores da mineração, para que se mantivessem motivados no ambiente insalubre das lavras. A Saint John Del Rey Mining Company Limited passou a administrar o clube alguns anos após a fundação, como se o mesmo fosse um apêndice da empresa”, comenta. “Essa dedicação ao Villa Nova fez com que a agremiação fosse a pioneira em Minas Gerais na adoção do profissionalismo. No entanto, a partir da década de 1920, os ingleses foram se afastando dos cargos diretivos, que passaram a ser monopólio dos brasileiros. Atualmente, não há nenhum sócio inglês nos quadros da agremiação” afirma Freitas.

Apesar da ausência de representantes da Inglaterra no clube nos dias de hoje, os britânicos deixaram seu legado para o Villa. “Uma das heranças deixadas pelos ingleses é o terreno no bairro Bonfim, onde hoje está construído o Estádio Municipal Castor Cifuentes, que pertencia à mineradora na época da fundação do clube”.

Lazer

A vida noturna de Belo Horizonte também tem pontos em comum com a noite de Londres. A moda mais recente na capital mineira são os pubs, bares fechados típicos nas ilhas britânicas, perfeitos para fugir do frio. Desde 2010, pelo menos nove casas do gênero foram abertas na região centro-sul da capital.

Apaixonado por futebol, o londrino Anthony, torcedor do Queens Park Rangers e do Atlético Mineiro, destaca a semelhança dos pubs, mas prefere enaltecer os botecos mineiros. “Tem boteco perto da minha casa (região da Pampulha) que é muito pequeno, mas lá vão coronéis, arquitetos, empresários, professores, enfim, todo tipo de pessoa. O bar nivela todo mundo, ninguém é melhor que ninguém e isso é muito legal", comentou.

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