Conheça profissões que atravessam gerações

A tecnologia tem dominado praticamente todas as áreas do mercado de trabalho, mas existem profissionais que resistem à modernidade e tiram de ocupações bem antigas o sustento de suas famílias

por Simone Dutra 06/05/2014 11:09

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.


Eugênio Gurgel
Aprendizados da geração passada: o engraxate Anderson Moreira seguiu os passos do pai nas ruas de BH e conseguiu sustentar os três filhos, que querem fazer faculdade. "Quero que sejam alguém na vida" (foto: Eugênio Gurgel)

Uma volta pelo hipercentro de Belo Horizonte é capaz de revelar algo interessante: profissionais que vivem de ofícios praticamente extintos. Muitos herdaram do pai ou de algum conhecido o aprendizado. São alfaiates, fotógrafos de câmera lambe-lambe, livreiros de sebos, engraxates e ourives, fáceis de encontrar nas ruas e galerias de metrópoles como a nossa.

Francisco Alves, de 61 anos, conhecido como Chico Manco, é fotógrafo lambe-lambe e trabalha há cerca de meio século no parque municipal Américo René Gianetti. Numa época em que celulares tiram fotos perfeitas e câmeras automáticas surpreendem pela facilidade e  pelos efeitos, Francisco e sua câmera podem ser considerados antiquados, mas eles sobrevivem graças àqueles que são atraídos pela curiosidade ou pelo charme do passado. Os fotógrafos lambe-lambes eram bastante procurados por pessoas que saíam para passear em praças ou jardins. Com uma câmera montada dentro de uma caixa escura e em cima de um tripé, eles tiravam as fotos e revelavam na hora. Antes, o papel fotográfico era lambido para que eles soubessem em qual lado a emulsão – que receberia as imagens – estava.

Em 20 minutos (preta e branca) ficava pronta. Hoje, Chico Manco (que também teve de se modernizar) é um dos poucos donos de uma câmera lambe-lambe em BH e trata a relíquia como uma filha. “Ela é minha paixão. Antes de morrer, farei um testamento para deixá-la de herança a um museu”, afirma.

Geraldo Goulart/Encontro
O último dos lambe-lambes: Francisco Alves, o Chico Manco, teve de se modernizar, mas ainda mantém sua antiga câmera companheira de batalha (foto: Geraldo Goulart/Encontro)
Quem também conserva um ofício antigo – graças aos ensinamentos do pai – é o engraxate Anderson Moreira de Araújo, de 39 anos. Há quase três décadas ele se dedica a fazer luzir os sapatos dos clientes. Seu pai, Waldelino Moreira de Araújo, ocupou um banquinho na avenida Afonso Pena por mais de 40 anos. “Trabalho no mesmo lugar que ele. Daqui, meu pai tirou o sustento de sete filhos e eu tiro dos meus três.” Anderson atende a mais de 30 pessoas por dia, entre eles, juízes, desembargadores, advogados, bancários e office-boys.

Numa época em que as pessoas leem livros virtuais com seus iPads e Kindles nos ônibus, ainda tem gente que insiste em vender livros antigos. Lourenço Carrato Côco é dono do Sebo Amadeu, onde 40 mil exemplares estão espremidos em uma pequena loja na rua dos Tamoios, esquina com rua dos Guaranis. O sebo foi aberto por seu falecido pai, Amadeu Rossi, em 1962, e hoje é o mais antigo da capital. Lá é possível encontrar de tudo: de cartilhas de instruções a alta filosofia. “Ser livreiro significa muito mais do que comprar e vender livros. É tornar o desejo de uma pessoa, de achar uma obra literária antiga, realidade”, afirma. Alguns até se emocionam quando acham livros raríssimos.

Mesmo com a resistência desses profissionais, é bem provável que as próximas gerações desconheçam esses ofícios. Os filhos de Anderson nem pensam em seguir o pai. Devem fazer faculdade e ocupar empregos modernos. “Quero mesmo que eles sejam alguém na vida”, revela o engraxate. Daqui a décadas, pode ser que os instrumentos desses trabalhadores sejam encontrados apenas em museus.

Últimas notícias

Comentários