Moradores do Vila da Serra e do Vale do Sereno temem expansão imobiliária

Situados em área das mais nobres da região metropolitana de Belo Horizonte, em plena Serra do Curral, moradores veem-se diante de uma dúvida cruel: a urbanização trará uma vida tranquila ou caótica?

por Frederico Teixeira 03/06/2014 13:58

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.


Geraldo Goulart/Encontro
Com inúmeros empreendimentos de luxo na região, os bairros Vila da Serra e Vale do Sereno, de Nova Lima, na grande BH, geram expectativa de quem vê o sossego acabar e a natureza sumir (foto: Geraldo Goulart/Encontro)

Se os preceitos previstos no final da década de 1970 e início de 80, quando saíram do papel os primeiros projetos para a região, fossem seguidos à risca, a proximidade do paraíso seria praticamente garantida. Ao menos é o que se pode perceber na fala do arquiteto e urbanista Joel Campolina, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Minas Gerais (CAU/MG).

"Fui autor do projeto original do Vila da Serra. O projeto previa, entre outras coisas, a presença de praças para ponto de encontro, a construção de um parque linear e a manutenção de diversas áreas não edificantes. Além disso, próximo às áreas residenciais, estavam previstas construções que tivessem no máximo cinco pavimentos, o que deixaria a região muito mais valorizada. No entanto, as praças não foram feitas e as áreas livres previstas inicialmente estão todas ocupadas. A essência do projeto foi quebrada. É uma pena”, afirma.

De acordo com o arquiteto, algumas medidas já estão sendo tomadas para melhorar o cenário a longo prazo. “Já está em andamento um projeto de mobilidade urbana, envolvendo 36 municípios da região metropolitana de Belo Horizonte, para garantir maior integração entre eles. Também está prevista a criação de novas vias de circulação, evitando-se o grande fluxo para um só ponto. O Rodoanel será outro fator importante, uma vez que servirá a região, sem que os motoristas tenham de passar pelo centro. Ainda há projetos de implantação de transporte de massa, como metrô, BRT e veículos leves sobre trilhos, que podem ligar a região até o Barreiro, além da possibilidade de aproveitar eixos ferroviários utilizados para o transporte de minérios de ferro, mas hoje desativados”, aponta.

Já o arquiteto e urbanista José Eduardo Ferolla, de 66 anos, professor adjunto da Escola de Arquitetura da UFMG, é pessimista em relação ao futuro da região, principalmente no que se refere ao trânsito.  Para ele, o problema já tomou dimensões tão grandes que fica difícil encontrar soluções. “Nem dá para pensar em formas de amenizar a situação, pois já passou da hora, teria de ter sido feito muito antes. Aonde vamos parar eu não sei, mas vamos parar por falta de condições para circular”, prevê.

Rogério Sol/Encontro
Joel Campolina, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Minas Gerais: "A questão não é prejudicar os empreendedores, nem transformá-los em 'vilões'. A missão é assegurar harmonia entre os interesses da sociedade e os do setor imobiliário", afirma (foto: Rogério Sol/Encontro)
Para Ferolla, a falta de planejamento é a principal causa dos transtornos. “As coisas ficam entregues aos anseios de uma classe que quer morar bem, àquilo que as incorporadoras oferecem. A consequência é chegar ao ponto que não tem mais jeito. O que ocorreu, não apenas no Vila da Serra e Vale do Sereno, assim como em toda a BH, agora vem também se agravando pelo uso equivocado da nova política das ‘contrapartidas’.” Ele cita o BH Shopping como principal exemplo, por ter passado por muitas expansões e, para  isso, ter havido, como exigências, obras que não melhoraram tanto a região. “E quais foram as contrapartidas? Dois ridículos túneis que apenas transferiram o problema do trânsito para um pouco mais adiante”, dispara Ferolla. Experiente, o arquiteto afirma que, para se pensar em melhorias, seria necessário primeiro romper com a lógica que impera no Brasil que desvaloriza o transporte coletivo. “Países que pensam com seriedade boas soluções para a mobilidade urbana sabem que não se resolve o problema do trânsito caótico com transporte individual.”

Antônio João de Morais, secretário de Segurança, Trânsito e Transporte Público de Nova Lima, concorda que a região cresceu mais do que o esperado. Ele garante, no entanto, que a prefeitura tem atuado para evitar o agravamento dos problemas. “Como toda cidade histórica, Nova Lima não foi projetada para essa expansão urbana. Com o fluxo crescente de veículos nas vias estreitas do município, o impacto é inevitável, mas já tomamos medidas para melhorar a fluidez no trânsito, como a mudança no sentido de circulação de algumas vias e o reforço nas fiscalizações por parte de agentes de trânsito, Polícia Militar e Guarda Municipal. Temos ainda um projeto, a ser implantado no início de 2014, que transferirá a carga e descarga para o período noturno, evitando que caminhões pesados circulem nos horários de pico. Também vamos adotar um novo itinerário para os ônibus procedentes de bairros mais distantes, com a implantação de uma linha circular no centro”, afirma.

A preocupação do secretário não se limita apenas ao trânsito. “Em relação à segurança, já foram instaladas câmeras nos locais de maior aglomeração de pessoas, com uma central na sede da Guarda Municipal de Nova Lima, que atua com a Polícia Militar. Sobre a questão ambiental, temos insistido nas abordagens educativas, em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente, e no aumento da fiscalização”, completa.

Outra tentativa da Prefeitura de Nova Lima para minimizar os problemas do trânsito no Vila da Serra foi a adoção, em dezembro de 2011, do sistema de estacionamento rotativo na modalidade parquímetro. A ideia era promover a rotatividade das vagas e, assim, facilitar a vida de quem precisa deixar seus carros na região. De início, eram 200 vagas. Hoje, já passam de 600.

Clique para ampliar e ver os cenários possíveis para a região
Enquanto soluções mais efetivas não são colocadas em prática, os moradores continuam enfrentando dificuldades. “Já teve dia em que, ao perceber que o trânsito estava todo parado, tive de estacionar o carro na rua e ir a pé para casa. Depois, esperei o congestionamento passar para buscar o carro. Agora, quem só trabalha na região não pode fazer isso”, afirma a funcionária pública Luciana Maria Costa Lanza, de 38 anos, moradora do Vale do Sereno há cinco.

Luciana também não vê boas perspectivas para um futuro próximo. “Antes, 7h era um horário tranquilo. Hoje, logo cedo, já está tudo congestionado. Para completar, todos esses novos prédios residenciais que estão  sendo lançados têm previsão de quatro ou cinco vagas de garagem. A tendência é só piorar”, lamenta.

Apesar de todos os contratempos, Luciana não pensa em deixar a região. “Quando me mudei para cá não havia praticamente nada de comércio. Não tinha uma padaria, um supermercado. Hoje já existe toda uma infraestrutura. Ainda é um bairro excelente, bem tranquilo”, garante. Resta saber se esse sentimento de tranquilidade ainda vai perdurar nos próximos dez ou 20 anos.

Últimas notícias

Comentários