O desafio é manter a casa em ordem

Dois anos depois das reformas que deixaram a Savassi ainda mais charmosa e movimentada, moradores e comerciantes pedem mais atenção para que investimentos não se percam

por Luciane Evans 04/06/2014 16:43

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Cláudio Cunha
Praça Diogo Vasconcelos repaginada: ela ficou mais bonita, mas traços de vandalismo já podem ser notados (foto: Cláudio Cunha)

Champs-Elysées, em Paris. Montecarlo, em Mônaco. West Side, em Manhatan. Leblon, no Rio de Janeiro. Esses bairros são famosos por concentrar o que há de melhor quando o assunto é moda, cultura, música, arquitetura e gastronomia. Atraem visitantes do mundo inteiro. Em Belo Horizonte, se há algum lugar que chega perto desse status, esse lugar é a Savassi. Ali pode-se encontrar agitação noturna e diurna, pontos turísticos, boas opções para morar e se hospedar, lugares agradáveis para passear e lojas sofisticadas de diversos segmentos. A região, sempre tida como um ponto de encontro da elite da capital, ficou ainda mais charmosa, mais glamurosa, depois da última – e polêmica – reforma, finalizada há dois anos. Mas será que as intervenções, que se arrastaram por um ano e dois meses, de 2011 a 2012, e custaram R$ 11,8 milhões, agradaram a moradores, frequentadores, empresários e comerciantes? Será que foram suficientes para manter a Savassi com o charme que sempre teve ao longo do tempo?

Samuel Gê/Encontro
Rubens de Oliveira Batista, dono da Livraria Status, no quarteirão fechado da rua Pernambuco: aluguel três vezes mais caro e preocupação constante com a ação de vândalos. "Algumas cadeiras giratórias instaladas no nosso quarteirão foram arrancadas" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Há quem afirme que o projeto inicial ficou pela metade, já que as melhorias foram restritas à praça Diogo Vasconcelos e aos quatro quarteirões das ruas Pernambuco e Antônio de Albuquerque, bem distante do projeto inicial (veja arte). “Foram feitos 50% da proposta”, calcula a arquiteta Edwiges Leal, dona da B&L Arquitetura – empresa que venceu a licitação feita pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), em 2008,  para a reforma na Savassi. Segundo ela, a empresa tinha como proposta inicial fazer modificações em outras ruas. “A ideia era alargar o calçamento, colocar mais lixeiras e bancos em vias como a Fernandes Tourinho, por exemplo. Daria mais qualidade de vida ao local”, diz. Na época, o projeto total ficaria em R$ 18 milhões, mas a PBH  alegou falta de recursos. O que mais incomoda a  arquiteta, no entanto,  é falta de manutenção do lugar. “Há lixos nos canteiros, algumas câmeras de segurança não funcionam e há vandalismo”, lamenta. Segundo o comandante Helbert Figueró, do 1º  Batalhão de Polícia Militar (PM), responsável pela Savassi, realmente há câmeras com defeitos, mas elas já estão em processos de reparo. “Não divulgamos quantas são nem onde estão essas defeituosas. São poucas, mas, em breve, estarão em pleno funcionamento”, garante.

A opinião de um dos porta-vozes mais conhecidos do bairro não destoa muito da arquiteta. O italiano Alessandro Runcini, presidente da Associação de Moradores e Amigos da Savassi e diretor da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL)/Savassi, que mora há 18 anos na região, utiliza uma expressão de sua terra natal para descrever a situação. “São joias e dores”, define. Ele elogia as mudanças, mas enumera novos problemas. “As ruas estão mais iluminadas e há espaços para pedestres. Aqui sempre foi a  sala de espera de BH e continua sendo.”  Já sobre as dores… “Houve um aumento absurdo nos valores dos aluguéis e muitos lojistas se mudaram dali.”  Alessandro estima que, pelo menos, 20 comerciantes tiveram esse destino. Com muitos aluguéis acima de R$ 30 mil, ele conta que há locatário que não consegue inquilinos. A Savassi ficou mais bonita, mas também mais cara.

O exemplo mais emblemático disso pode ser o de Fábio Soares Campos, de 62 anos, 19 anos passados na Savassi comandando o famoso Café Travessa, que ficava no quarteirão fechado da rua Pernambuco. Fábio abandonou o espaço depois das obras. “Foi uma grande tristeza”, diz, lembrando que, no período das intervenções, seu movimento caiu 90%. “Ao final, o locatário pediu valores exorbitantes. Cerca de 40% a mais do que já pagava. Eu disse ‘tchau’ para a Savassi e fechei as portas”, lamenta.  Ele destaca que sua filha é dona da Livraria Mineiriana, na rua Paraíba, e até hoje não tem o movimento que tinha antes da reforma. “Acabou o glamour”, critica.

Pode-se dizer que o preço dos imóveis acompanhou o aumento do potencial turístico. A Savassi ficou, sim, mais movimentada e acabou atraindo parte da população de rua também. O empresário e morador Gilberto Vespúcio, diretor da GW Administração de Condomínios, empresa que está há 24 anos por aquelas bandas, continua otimista, mas chama a atenção para os “novos vizinhos”. “Ficou mais gostoso andar por aqui, principalmente aos sábados de manhã, mas o número de moradores em situação de rua aumentou”, completa.

Segundo a PM, é sabido que alguns desses moradores de rua têm precedentes criminais. Eles foram atraídos devido ao aumento da concentração de pessoas depois das obras. Tomam banho nas fontes, lavam roupas e pedem esmolas durante o dia e a noite. Há relatos de moradores que reclamam de pequenos furtos e ameaças feitas por flanelinhas, que agem como se fossem donos de algumas ruas e exigem pagamento adiantado dos motoristas.

Paulo Márcio/Encontro
Edwiges Leal, arquiteta e uma dos proprietários da B&L Arquitetura, empresa que executou as obras: "Foram feitos 50% da proposta. A ideia era alargar o calçamento, pôr mais lixeiras e bancos em vias como a Fernandes Tourinho" (foto: Paulo Márcio/Encontro)
A situação levou o aposentado Geraldo Borges de Moura, de 74 anos, a tomar uma atitude drástica. Síndico de um prédio na Cristóvão Colombo, ele conta que há um ano colocou grades ao redor, devido às tentativas de assalto na garagem do edifício. “Hoje, há ladrões que nos assaltam, moradores de rua dormindo nos quarteirões fechados e ameaçando pedestres. Uma vizinha, outro dia, não conseguiu entrar na garagem porque homens a cercavam, pediam dinheiro e a ameaçavam. Tudo isso tira a valorização que tivemos”, diz, com tristeza, sem deixar de acrescentar que o bairro é a sua paixão. “Está mais bonito, mas estamos à mercê de bandidos.”

A sensação é a mesma para o empresário Rubens de Oliveira Batista. Dono da Livraria Status, no quarteirão fechado da rua Pernambuco, há 40 anos no mesmo ponto. Ele conta que paga, atualmente, um aluguel três vezes mais alto do que pagava. “Depois das 21h, morador não pode mais sair de casa. Há marginais que traficam e são perigosos. Muitos inibem clientes, fazem sexo na rua e não respeitam ninguém. As cadeiras giratórias instaladas no nosso quarteirão foram arrancadas, antes havia oito, hoje são três. Vivemos em uma tensão que pode explodir a qualquer momento”, desabafa.

Apesar de todas as denúncias, o comandante do 1º Batalhão da Polícia Militar, Helbert Figueró, diz que não há motivo concreto para a  sensação de insegurança dali. “Os índices e registros de criminalidade não apontam essa realidade”, garante. Ele acrescenta que essa é uma sensação que pode ter a ver com a presença dos moradores em situações de rua. Ainda segundo ele, a 4ª Companhia, responsável pela Savassi,  conta hoje com efetivo de 117 militares e viaturas que fazem o patrulhamento 24 horas.

Samuel Gê/Encontro
Alessandro Runcini, presidente da Associação de Moradores e Amigos da Savassi e diretor da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL)/Savassi: "Aqui sempre foi a sala de espera de BH e continua sendo, mas houve um aumento absurdo nos valores dos aluguéis e muitos lojistas deixaram a região" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Em nota, a Secretaria Municipal de Políticas Sociais informa que são oferecidos abrigos e repúblicas para a população de rua, além de assistência social, atendimento médico e refeições gratuitas nos restaurantes populares. Ainda de acordo com a nota, a Regional Centro-Sul vem realizando ações de gestão do espaço público envolvendo a presença de pessoas em situação de rua, na região comercial da Savassi.

Enquanto reclamações dividem espaço com elogios, alguns moradores se unem e elaboram projetos para dar mais fôlego à Savassi. É o caso, por exemplo, do dentista Nelson Galizzi, que mora há 12 anos no bairro. Há dez anos, ele criou o Via Albuquerque, com o objetivo de transformar a rua Antônio de Albuquerque, entre o Minas Tênis Clube e a praça Diogo Vasconcelos, em uma espécie de Oscar Freire de BH.  “São quatro quarteirões, que vão oferecer mais qualidade de vida aos moradores, lojistas  e frequentadores”, comenta Nelson.

Aos poucos, segundo ele, lojistas e vizinhos estão participando da iniciativa. “Precisamos agora de empresas privadas para abraçar a causa”, diz, destacando que as reformas trouxeram um novo rumo. “Agora, temos de ir em frente e viver um tempo de excelência, o que vai depender de estratégias de envolver pessoas e atrair o público.” Como bons exemplos, ele cita os projetos de Feira de Flores, aos sábados, e o de apresentações de música clássica.

Fato é que a Savassi ,que chega a ser comparada a bairros chiques até mesmo de fora do Brasil, com suas fontes, quarteirões fechados e apresentações de jazz na praça, traz uma lição e um desafio que já não são novidade para ninguém: mais difícil que tornar belo é manter belo.

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