Se essas paredes falassem...

Residência oficial dos governadores de Minas, Palácio das Mangabeiras é descrito como construção simples e já foi palco de encontros importantes na vida do estado e do país

por Daniel Camargos 13/06/2014 11:37

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Carlos Alberto/Agência Minas/Divulgação
O poder mora lá dentro: o nome pode até ser suntuoso, mas, da fachada ao interior, casa revela arquitetura e decorações simples, porém de bom gosto (foto: Carlos Alberto/Agência Minas/Divulgação)

O Palácio das Mangabeiras não tem a mesma pompa do outro palácio do governo mineiro, o da Liberdade, mas desde sua construção ele se tornou fundamental na história da política de Minas Gerais. Construído durante o governo de Juscelino Kubitschek (1951 até 1955), o local se tornou a residência dos governadores e palco de encontros decisivos. Um dos primeiros hóspedes, e talvez o mais importante, foi o presidente Getúlio Vargas, que, em 12 de agosto de 1954, hospedou-se no palácio para participar da inauguração da usina da Mannesmann (hoje V&M Tubbes), no Barreiro. A data merece a chancela de “especial” devido a um fato que entraria para a história do Brasil: Vargas enfrentava ataques fortes da oposição e poucos dias depois, em 24 de agosto, suicidou-se com um tiro no peito, no Palácio do Catete (RJ), chocando o país.

Em abril de 2014 o governo de Minas passou para o então vice-governador, Alberto Pinto Coelho (PP), que é, portanto, o atual "morador" do Palácio das Mangabeiras. Aliás, como explica o ex-governador Antonio Anastasia (PSDB), que residiu por lá de 2010 a 2014, apesar de ser chamado de palácio, o local é uma residência: “Uma residência confortável, ampla, que teve a sua construção determinada por Juscelino Kubitschek, inicialmente planejada como uma casa de campo. Atribui-se, inclusive, a Oscar Niemeyer a sua planta original”. Anastasia recorda que foi Israel Pinheiro (que governou entre 1966 e 1971) quem fez a mudança definitiva, deixando o Palácio da Liberdade e indo morar no Palácio das Mangabeiras. “A partir de então, é claro, várias modificações foram feitas ao longo dos anos”, pontua.

Anastasia ressalta que o palácio tem um clima mais frio, cerca de 3 a 4 graus na média, do que o centro da cidade. “No passado, o palácio era isolado porque não havia os bairros e as casas ao redor. Hoje, ao contrário, ele está totalmente inserido na malha urbana de nossa capital”, afirma. Ele destaca que a função do chefe do executivo é manter a residência oficial em boas condições, realizar eventos oficiais e receber signatários estrangeiros e nacionais.

O ex-deputado federal Eduardo Azeredo governou Minas Gerais entre 1995 e 1999 e também reforça a simplicidade da construção. “É uma área grande e agradável. A parte residencial, porém, é normal e não tem nada de especial”, lembra Azeredo. O ex-governador salienta que o primeiro andar, com a sala de jantar e de visitas, é o espaço mais amplo. Uma das visitas de que Azeredo recorda foi a de Márcia Kubitschek, filha de Juscelino, o responsável pela construção do palácio: “Ela se lembrou, emocionada, de alguns momentos da infância que passou lá”.

Carlos Alberto/Agência Minas/Divulgação
Sala de encontros: políticos nacionais e internacionais, convidados ilustres, jornalistas, parentes e amigos se revezam nesse que é um dos principais espaços para reuniões da residência oficial do governador (foto: Carlos Alberto/Agência Minas/Divulgação)


Durante sua passagem pelo palácio, Azeredo não se esquece do mal-estar provocado por um de seus cachorros, da raça fila. “Um dia, bem cedo, o chefe do gabinete militar veio me procurar e pedir para que eu prendesse os cachorros. Um deles, o fila, tinha avançado em um segurança e ele teve de se esconder na guarita para se safar”, recorda o ex-governador.

Azeredo tinha dois cães da raça fila e um husky siberiano. Outra saia justa provocada pelos cães se deu quando a então ministra da Administração e Reforma do Estado do governo de Fernando Henrique Cardoso, Cláudia Costin, foi a uma reunião no palácio e um dos cachorros entrou na sala, querendo atenção.

O ex-deputado também se lembra de que algumas estruturas do palácio tiveram de ser adaptadas quando se mudou para lá. “Eu tinha filhos pequenos, e antes quem morava lá era o Hélio Garcia, que vivia sozinho”, destaca. Quando assumiu, Azeredo morou por dois meses na casa dele, no bairro vizinho Comiteco, enquanto as modificações não ficavam prontas. O deputado federal diz sentir uma “lembrança positiva”, pois, além de viver com a família na casa, teve reuniões importantes com integrantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), da Organização das Nações Unidas (ONU) e, é claro, com seu correligionário, o então presidente Fernando Henrique Cardoso.

“Os almoços mais importantes eram realizados no Palácio da Liberdade. Foi lá que recebi o imperador do Japão e o presidente de Portugal”, recorda Azeredo. Outra visita decisiva para a economia mineira também teve o Palácio das Mangabeiras como palco. “A decisão de instalar a fábrica da Iveco (Grupo Fiat) em Sete Lagoas foi tomada em um jantar. Havia uma pressão imensa para que a fábrica fosse instalada no Paraná, mas conseguimos trazer para Minas”, destaca o ex-governador.

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Ambiente espaçoso, mas caloroso: decoração interna valoriza pisos e revestimentos de madeira, que, mesmo em grandes áreas com poucos objetos, proporcionam um clima acolhedor (foto: Carlos Alberto/Agência Minas/Divulgação)


Outro morador do palácio, o ex-governador Francelino Pereira (DEM), que governou o estado entre 1979 e 1983, lembra que o Palácio da Liberdade estava em reforma, ameaçando desabar, e, por isso, ele foi com a família para o Mangabeiras. Francelino também classifica a construção como um prédio comum, onde morou por quatro anos com a esposa e os filhos.  Destaca a quadra de peteca em que praticava o esporte e recorda as festas que promoveu para a sua turma da Faculdade de Direito da UFMG, que se formou em 1949.

 “Quando JK construiu o Palácio das Mangabeiras, a oposição, da qual eu fazia parte, fez uma campanha contrária muito grande, pois achávamos que era um luxo”, recorda Francelino, que faz um mea-culpa: “Quando assumi o governo, vi que era um prédio normal, comum e sem nada de extraordinário”.  Francelino faz questão de lembrar um artigo que escreveu para a revista da Academia Mineira de Letras contando a história da vida de JK. “Eu concluo o artigo dizendo que ele foi um dos melhores homens públicos que o Brasil já teve”, afirma.

Porém, a grande lembrança de Francelino não está propriamente no palácio, mas bem próxima, na Praça Israel Pinheiro, que recebeu a visita do papa João Paulo II, em julho de 1980 – visita que, aliás, mudou o nome da praça para praça do Papa.

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Acervo restaurado: no início do ano, mais de mil livros da biblioteca, entre eles obras raras, receberam os cuidados de funcionários da Biblioteca Pública Estadual Luís de Bessa e do Arquivo Público Mineiro (foto: Carlos Alberto/Agência Minas/Divulgação)


A simplicidade do palácio teve seu ápice durante o governo de Itamar Franco (entre 1999 e 2003). Itamar anunciou que encontrou o caixa do estado vazio e que comprou com dinheiro próprio lençóis e fronhas para se mudar para o Palácio das Mangabeiras. Dias depois de comprar o enxoval, Itamar anunciou a moratória e declarou:  “Por absoluta falta de dinheiro, deixaremos de cumprir o acordo financeiro feito pelo governo anterior”. O “governo anterior” era o de Azeredo, que havia assinado com o presidente Fernando Henrique Cardoso o acordo para a rolagem da dívida pública mineira.

Já o Palácio da Liberdade, primeira sede do governo em Belo Horizonte, não funciona mais como endereço principal do poder desde 2010, quando as atividades foram transferidas para a Cidade Administrativa. O palácio é aberto à visitação do público, que pode conhecer os belos painéis que retratam a Revolução Francesa, lustres e cristais da Boêmia, um piano de cauda da famosa marca alemã Bechstein, as escadarias belgas, os móveis da Letônia e a decoração estilo Luís XV.

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Onde come um, comem muitos: Itamar Franco, Aécio Neves e Eduardo Azeredo foram alguns dos políticos que costumavam encher a mesa de jantar, para 20 pessoas, durante encontros formais e informais (foto: Carlos Alberto/Agência Minas/Divulgação)

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