Bioquerosene é o novo 'petróleo' mineiro

Minas Gerais está na frente dos demais estados brasileiros quando se fala em pesquisa e produção de biocombustíveis a partir de vegetais

por Fernanda Nazaré e Marinella Castro 25/06/2014 17:59

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Carlos Alberto/Imprensa MG/Divulgação
No início de junho, um voo especial partiu de Confins para Brasília, abastecido com biodiesel produzido em Minas (foto: Carlos Alberto/Imprensa MG/Divulgação)

Voar em uma aeronave abastecida com óleo de milho já é possível. Foi o que executivos, secretários de governo e jornalistas conferiram de perto ao embarcarem no primeiro avião a sair do aeroporto internacional Tancredo Neves, em Confins (MG) usando combustível ecologicamente correto. Durante o evento, realizado no início de junho, a empresa aérea Gol anunciou a realização de 200 voos em aeronaves abastecidas com 4% de óleo de milho, na forma de bioquerosene. Para tanto, foram adquiridas 69 toneladas de óleo de uma refinaria em Pasadena, nos Estados Unidos, e devem gerar 2 milhões de litros de combustível. A empresa investiu quase R$ 1 milhão nesse processo. Isso mostra que o setor industrial tem interesse em consumir o produto sustentável.

O mercado mundial de aviação deve demandar, até 2050, 125 bilhões de litros de bioquerosene por ano, segundo dados da  Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata – sigla em inglês). Ela quer substituir 50% do querosene utilizado pelo setor de aviação em energia limpa nas próximas quatro décadas. Estima-se que os aviões sejam responsáveis por 2% das emissões de dióxido de carbono (CO²) em todo o mundo.

De olho nesse comércio em potencial, e se inspirando no case bem sucedido da produção de etanol (da cana-de-açúcar) no país, o governo de Minas lançou o Programa Mineiro de Desenvolvimento da Cadeia de Valor de Bioquerosene para Aviação em março deste ano. De acordo com o subsecretário de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, Luiz Antônio Athayde Vasconcelos, o mercado mundial para esse combustível sustentável nos próximos anos deve chegar a U$ 140 bilhões. "É uma nova fronteira que temos que buscar, para fazer com o bioqueronese o mesmo que foi feito com o etanol", afirma.

Heitor Antonio/Encontro Digital
(foto: Heitor Antonio/Encontro Digital)


É possível encontrar exemplos de empresas que, tal qual a Gol, já estão se aventurando no mundo do biocombustível. Na cidade de Barbacena, região central de Minas, a Fusermann Refinaria Nacional de Petróleo Vegetal já exporta óleos nobres para Europa e Ásia, mas seu foco está mais direcionado aos combustíveis sustentáveis. Em 2011, a empresa produziu óleo a partir do pinhão-manso cultivado pela agricultura familiar. O produto foi enviado para os Estados Unidos e transformado em bioqueresone. E, no mesmo ano, a TAM realizou um voo experimental de um Airbus A320 abastecido com o novo produto.

Entusiasta dessa planta como uma das principais promessas na geração de energia limpa para a aviação, Nagashi Tominaga, diretor da agroindústria Biojan, no norte de Minas, e pesquisador do pinhão-manso, diz que foi dada a partida para se ter um mercado sustentável: "Até 2017, a Iata deseja substituir 10% do combustível usado na aviação por bioquerosene produzido com óleo de pinhão-manso". Segundo Tominaga, para se chegar a esse propósito, seriam precisos 28 milhões de hectares dessa espécie plantada em todo mundo, com produtividade de mil litros de óleo por hectare, a cada ano.

As universidades federais no estado também entraram na corrida para desenvolver um biocombustível com o uso de plantas nativas, ou que já estão adaptadas ao clima brasileiro. De acordo com o coordenador do programa de pós-graduação em biocombustíveis da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e da Universidade Federal de Uberlância, Alexandre Soares, Minas Gerais ainda não tem uma biomassa definida. As opções de plantas são muitas, e as mais cogitadas são a macaúba, pinhão-manso e camelina. "Há muitas possibilidades, e estamos em fase de testes", diz o especialista.

Incentivo

Para aumentar a demanda, o governo anunciou a isenção de ICMS (Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços) para as companhias aéreas que utilizarem a futura produção de bioquerosene do estado. Hoje, em Minas Gerais, a alíquota do imposto sobre o combustível da aviação gira em torno de 11%, representando 40% do custo de toda a operação das empresas. O custo do litro de querosene tradicional é de R$ 2,50, e a mesma quantidade de biocombustível sai por R$ 7,50.

Cláudio Cunha
Alex Brasil, diretor da Biominas, criou a usina móvel de biodiesel, para que as próprias empresas pudessem produzir seus combustíveis (foto: Cláudio Cunha)
Por ter pouca produção no país, e em fase embrionária no estado, o custo do bioquerosene para as companhias aéreas ainda não é viável. "Se nós fizermos com que o biocombustível tenha o mesmo preço do querosene, o salto será quântico. Porque um pé de macaúba, por exemplo, pode virar um 'poço de petróleo'", diz o subsecretário Luiz Antônio Athayde Vasconcelos.

Para as empresas aéreas, o consumidor ainda deve esperar para que as passagens se tornem acessíveis. Segundo o diretor de controle de operações da Gol, Pedro Scoza, o bioquerosene custa, no mínimo, três vezes mais para a empresa do que o combustível fóssil. "Para o consumidor, a redução no custo das passagens pode aparecer a partir de 2020, quando é esperada a equivalência do preço do combustível ecologicamente correto com o derivado do petróleo", explica.

Pequenas e médias empresas

Por enquanto, a estrela em ascensão no setor é o óleo de cozinha. No Brasil, cerca de 2,3 bilhões de litros do produto são descartados, todos os anos, no meio ambiente. A reciclagem atinge apenas 5% – mas poderia chegar a 100%, como querem os pesquisadores da área.

Pensando nisso, a Biominas, empresa de biotecnologia instalada em Itaúna, cidade da região central de Minas, está investindo em um novo nicho de mercado. Ela constroi usinas de pequeno porte para empresas e organizações interessadas em gerar sua própria energia limpa.

O autor da ideia é o engenheiro e diretor da empresa, Alex Brasil. Para fugir das grandes usinas e das oscilações de preços da soja, a Biominas decidiu  investir na construção de pequenas instalações. "O que muitos ainda não sabem é que as empresas podem fabricar biodiesel para consumo próprio", diz Brasil. Segundo ele, a única exigência burocrática é que a produção de até 30 mil litros/mês deve ser informada à Agência Nacional de Petróleo.

Em outra aposta já ganha, a Biominas patenteou a primeira usina móvel de biodiesel do mundo. Montada sobre a estrutura de um caminhão, o equipamento é capaz de produzir biocombustível para organizações que ainda não montaram sua própria indústria, além de ser utilizado em campanhas educativas.

Editoria de Arte
(foto: Editoria de Arte)

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