Uso de animais em pesquisas e teste de produtos divide opiniões

Cientistas explicam que ainda não é possível deixar de testar medicamentos e produtos em bichos, mas protetores criticam essa ideia e dizem que a cobaia deve ser o próprio ser humano

por Da redação com assessoria ALMG 26/06/2014 12:17

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Guilherme Dardanhan/ALMG/Divulgação
Myriam Morato , da Comissão de Ética no Uso de Animais da Funed, acha que ainda não é possível deixar de usar cobaias em pesquisas (foto: Guilherme Dardanhan/ALMG/Divulgação)
Eram quase duas horas da manhã quando cerca de cem ativistas e moradores de São Roque (SP) invadiram a unidade do Instituto Royal na cidade, em outubro do ano passado. Na ocasião, foram recolhidos 178 cães da raça beagle e sete coelhos, em protesto contra o uso dos animais em testes realizados pelo laboratório. Dezenove dias após a invasão, o instituto divulgou o encerramento das atividades no município.

A ação dos defensores dos animais no interior paulista intensificou o debate sobre o uso dos bichos em testes científicos em todo o país. Embora permitidas no Brasil, essas pesquisas têm sido cada vez mais questionadas. O tema, um dos mais polêmicos que envolve a causa animal, já foi discutido, neste semestre, pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), em uma das seis audiências públicas realizadas para abordar assuntos ligados ao bem-estar animal.

Atualmente estão em tramitação na ALMG 33 projetos de lei voltados para a garantia dos direitos dos bichos. Uma dessas proposições, que já recebeu parecer favorável da Comissão de Meio Ambiente, cria o Código Estadual de Proteção dos Animais (Cepa). Trata-se do PL 1.197/11, de autoria do deputado Dalmo Ribeiro Silva (PSDB).

O problema é que as opiniões de especialistas e defensores dos animais são opostas quanto à possibilidade de se abdicar do uso dos bichos em testes científicos. Para o presidente do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), José Mauro Granjeiro, atualmente é impossível abolir o uso em pesquisas voltadas para a produção de medicamentos. "Até o momento, não se pode estabelecer a segurança e o mecanismo de ação de fármacos apenas com modelos in vitro, ou seja, sem animais", explica. O Concea, órgão integrante do Ministério da Ciência e Tecnologia, é responsável por validar e regulamentar experimentos com animais no país.

A ex-coordenadora e atual integrante da Comissão de Ética no Uso de Animais da Fundação Ezequiel Dias (Funed), Myrian Morato Duarte, também defende a pesquisa com os bichos, que, segundo ela, leva ao conhecimento e ao avanço científico. "Infelizmente, ainda não temos nenhum método substitutivo. Não se consegue fazer testes contra doenças mais complexas, como Alzheimer, câncer e aquelas relacionadas ao coração, de modo mais simples, usando apenas o cultivo de células ou por meio de um modelo matemático", argumenta.

Para o presidente do Concea, a participação dos animais em pesquisas é fundamental para não colocar no mercado produtos que possam comprometer a segurança da população. "Esses testes auxiliam a entender, por exemplo, a toxicocinética de medicamentos", afirma. Na opinião de Myrian Morato, são inúmeros os riscos em se abdicar do uso dos bichos. Segundo a integrante da Funed, a pesquisa é feita com o objetivo de "proteger o ser humano".

A Comissão de Ética no Uso de Animais da Funed é responsável por analisar a viabilidade e a necessidade da participação dos bichos em projetos voltados para a produção de medicamentos. Segundo Myrian Morato, já houve projetos que voltaram para o pesquisador, para que pudesse adequá-lo em relação à quantidade de animais requisitados. "São inúmeros problemas que analisamos com cuidado, antes de conceder a aprovação", ressalta.

Arquivo Pessoal
O biólogo Sérgio Greif não concorda com o uso de animais e acha que o próprio ser humano devia ser cobaia de pesquisas (foto: Arquivo Pessoal)
Defensores


O biólogo Sérgio Greif, que, a pedido do Ministério Público, realizou uma vistoria no Instituto Royal após a invasão de ativistas no laboratório, diz ser "totalmente contrário" à experimentação animal, tanto por motivos éticos quanto científicos. "Eticamente não é justificável, porque animais são seres sencientes e, portanto, sujeitos de direito, com interesses particulares. Não há motivos plausíveis para validar o seu uso em laboratórios", diz. Senciência é a capacidade de um animal de sentir prazer e dor, manifestando felicidade e sofrimento.

Sérgio Greif critica o discurso de pesquisadores que dizem que, se um medicamento fosse aprovado sem que fossem feitos testes com animais, o produto poderia causar danos para os humanos. "Essa é mais uma falácia científica comumente utilizada para a defesa da experimentação animal", reclama.

Ele diz que, de todos os medicamentos colocados no mercado anualmente, a maior parte é retirada com menos de um ano de prateleira, embora os mesmos tenham sido testados em animais. "São retirados porque apresentaram efeitos intoleráveis em seres humanos, e que não haviam sido detectados em animais de laboratórios. Medicamentos danificam pessoas atualmente, e a isso chamamos efeitos adversos ou efeitos colaterais", pontua.

Em termos científicos, o biólogo afirma que não é possível extrapolar dados obtidos de uma espécie para outras. "Organismos reagem de forma distinta a diferentes produtos químicos. Seria como tentarmos entender o funcionamento de um Boeing 747 utilizando manuais de instrução de fuscas ou bicicletas", salienta. Para José Mauro Granjeiro, presidente do Concea, ainda que os modelos de testes em animais não sejam perfeitos, não existem outros métodos que permitam, no atual estado do conhecimento, substituir completamente a pesquisa com os bichos.

A coordenadora da ONG Associação Cão Paixão em Defesa dos Animais, Marimar Poblet, também se diz contrária à prática com animais. Ela usa o mesmo argumento de que o corpo é diferente do humano. "Para o medicamento Talidomida, por exemplo, foi feito teste com animais, e não gerou nenhum efeito negativo. Quando usado em humanos, causou um dano imenso", destaca. Para ela, é preciso ir além desse pensamento. "A vida dos animais tem valor intrínseco. Eles têm o direito de viver suas vidas", completa.

Como alternativa ao uso dos bichos em pesquisas, o biólogo Sérgio Greif defende que os testes científicos sejam feitos diretamente em humanos. "Não há nada de errado, desde que os estudos atendam aos critérios éticos que estabelecem a forma correta de utilização das pessoas", afirma. Segundo ele, ao contrário dos animais, seres humanos são, de fato, protegidos por comitês de ética, assim, eles podem ser familiarizados com os propósitos da pesquisa, podem aceitar participar ou não dos testes e podem desistir de sua participação a qualquer momento. "É óbvio que sou contra forçar alguém a participar de pesquisas. Mas as pessoas serão cobaias em alguma etapa, utilizemos animais ou não. E usar os bichos não muda em nada esse fato", pondera.

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