Plano Real completa 20 anos e estabilidade é o grande legado

Ex-ministros avaliam positivamente o controle da inflação, mas criticam a falta de crescimento da economia

30/06/2014 13:33

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André Brant/CB/D.A Press
Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda, cumprimenta o presidente Itamar Franco: dois idealizadores do Plano Real (foto: André Brant/CB/D.A Press)
No dia 1º de julho, a moeda brasileira, o real, faz 20 anos. Ela foi criada, em substituição ao cruzeiro, no governo Itamar Franco, em 1994, com o intuito de resolver a crise inflacionária brasileira, herdada do regime militar. Nessa época, os preços subiam cerca de 3.000% ao ano – hoje a inflação chega a 6%. O Plano Real de fato estabilizou a economia, mas a isso não foi o suficiente para deslanchar o crescimento econômico, como explicam os especialistas.

Os governos de José Sarney e Fernando Collor tentaram, sem sucesso, acabar com a inflação. Ao assumir a presidência, após a queda de Collor, Itamar Franco convidou Fernando Henrique Cardoso para ser ministro da Fazenda com a missão de reorganizar a economia. Ele reuniu um grupo de economistas – coordenado pelo professor de economia Pedro Malan, à época presidente do Banco Central –, que elaborou um plano de ação econômica, publicado no final de 1993.

Malan, que depois foi ministro da Fazenda no governo FHC, explica que a inflação prejudicava especialmente os mais pobres. “A inflação é um imposto que incide sobre o salário, que prejudica fundamentalmente aqueles menos capazes de se defender, que são as pessoas que não tem acesso à indexação [sistema de reajuste de preços com base nos índices oficiais de inflação] e carregam no bolso a sua moeda, que vai sendo comida numa base diária pela inflação”, afirma. “Essa é a razão por que a maioria da população brasileira hoje exige e exigirá de qualquer governo que ele não tenha uma atitude complacente com a inflação”, complementa.

Nova moeda

No início de 1994, a inflação estava em cerca de 40% ao mês. Os preços subiam sem parar – gasolina, alimentos, prestações –, e o cruzeiro valia muito pouco em relação ao dólar. O plano dos economistas foi criar em fevereiro uma espécie de dólar virtual, a URV (Unidade Real de Valor). A roda-viva dos preços continuava corroendo o cruzeiro, mas não atingia a URV. Em julho, a URV foi transformada em real. A nova moeda nascia sem a doença da hiperinflação, valendo o mesmo que o dólar.

Aos poucos, o Brasil chegou à inflação de país desenvolvido: apenas 1,5% em 1998. Mas os juros continuavam de terceiro mundo: o Banco Central jogou a taxa básica nas alturas, desestimulando o consumo e atraindo investidores para equilibrar as contas externas. Inflação baixa e juro alto resultaram em pouco crescimento econômico, sustentado em boa parte pelas exportações.

Daniel Búrigo/CB/D.A Press
(foto: Daniel Búrigo/CB/D.A Press)
O ex-deputado Antonio Palocci, ministro da Fazenda nos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, avalia o real: “O Plano Real foi o mais talentoso plano de estabilização. Ao invés de controlar todos os preços, controlou um só preço, que foi o preço do câmbio. Mas ele foi estendido além do tempo: a paridade cambial não deveria ter sido estendida por tempo tão prolongado.”

O Produto Interno Bruto (PIB), que mede a riqueza produzida no País, crescia quase 6% no lançamento do real. Quatro anos depois, em 1998, a economia brasileira praticamente parou de crescer. A estagnação coincidiu com as crises externas da Ásia e da Rússia, entre 1997 e 1998.

O economista Marcelo Neri, ministro-chefe da secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, acredita que o Brasil aprendeu, com o Plano Real, o valor da estabilidade, mas defende que é preciso avançar em termos de políticas públicas. “A estabilidade é uma condição necessária para o objetivo final, que é a melhoria das condições de vida da população, especialmente dos mais pobres. O real permite pensar o país à frente, mas é preciso desenhar e implementar políticas para que essa condição seja melhor aproveitada.”

(com Agência Câmara)

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