Um mineiro em Gaza

Entenda o conflito entre israelenses e palestinos a partir do ponto de vista de um jornalista belo-horizontino, que está trabalhando nessa região há um ano

por Cláudio Cunha 25/08/2014 11:20

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Arquivo Pessoal
Richard Furst (esq.) com um casal árabe, na região de Gaza: "Falar em paz, aqui, só em relação à que se tem dentro de casa" (foto: Arquivo Pessoal)
Poucos são os repórteres que conseguem a realização profissional cobrindo um conflito internacional, como o que está ocorrendo na Faixa de Gaza, no Oriente Médio, entre Israel e o grupo extremista palestino Hamas. Uma guerra que a cada dia ganha proporções difíceis de se explicar, devido a sua complexidade histórica e às paixões por aquela terra. Entrelaçadas pela política e pela religião; controvertidas em suas convicções; apresentando-se, não raramente, de forma extrema e violenta, aos olhos do mundo.

Um lugar marcado não somente por suas belezas naturais e sua secular história, mas também por sangue e lágrimas de ambos os lados, numa disputa pelo direito de viver, numa terra que parece ter esquecido o significado da palavra paz. Este é o conflito entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza. Uma pequena faixa territorial entre Israel e o Egito, na costa oriental do Mar Mediterrâneo. Seu tamanho é equivalente à cidade de Belo Horizonte, com cerca de 1,5 milhão de habitantes, distribuídos numa área de 365 km². E é lá que se encontra, em meio a foguetes, bombas e atentados à vida, o repórter Richard Gabriel Furst, 27 anos, natural da capital mineira, com formação jornalística pela Universidade Católica de Minas Gerais e crítica cultural pela Universidade Católica do Chile.

Após viajar por quase todos os países de língua hispânica da América do Sul, e, mais tarde, pela Europa Central, o que ajudou muito sua carreira profissional, Richard ganhou uma oportunidade única, junto à coordenação dos jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007, para ser o responsável pelos visitantes de língua latino-americana, no evento. Esta experiência despertou sua ambição e interesse em se relacionar com culturas diferentes. Daí surgiu uma vontade muito forte de se enveredar pelos países do Oriente Médio e suas tradições.

Apaixonado confesso pela arquitetura religiosa da cidade de Sabará, em Minas Gerais, onde passou boa parte de sua infância, vivendo entre igrejas e ruas antigas, Richard Furst vivenciou, como poucos de sua infância, as lendas e histórias contadas pelos mais velhos sobre a cultura litúrgica dos antigos templos católicos da cidade histórica que fica na região metropolitana de Belo Horizonte.

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Para se ter uma noção da quantidade de foguetes lançados pelo grupo Hamas contra Israel, existem vários "cemitérios" com carcaças (foto: Arquivo Pessoal)


Oriente Médio

Uma das maiores dificuldades em se adaptar à cultura oriental, além da língua, de acordo com o jornalista mineiro, foi a necessidade de se organizar para trabalhar aos domingos. Isso por que, para os árabes e judeus, o primeiro dia útil da semana começa no domingo, como a nossa segunda-feira. Diferentemente do Brasil e demais países ocidentais, em que o final de semana se situa entre sexta e segunda. Lá, o último dia útil é a quinta-feira, já que sexta e o sábado são considerados de descanso. Por serem religiões sabáticas, o sétimo dia da semana é considerado sagrado.

A religião é uma vertente social muito forte e arraigada na cultura de judeus e árabes. Ela está presente em quase todas as práticas e assuntos do dia a dia de muitas cidades, incluindo uma prática político-religiosa, que às vezes pode ser levada ao extremo por grupos de judeus ultra-ortodoxos: shabat, ou dia de "cessar o trabalho", em hebraico. Nesse momento, as pessoas deixam de lado tudo que "prende" o homem ao mundo terreno. Como explica Richard Furst, se você for pego usando o celular ou qualquer outro aparelho eletrônico, como um rádio de pilhas, está sujeito a ser repreendido por desrespeito aos preceitos e dogmas religiosos. E alguns casos são passíveis de punição pelas autoridades policiais. Há lugares mais tolerantes com estrangeiros, mas o repórter não se descuida, e conta que chega até a tirar o relógio de pulso quando circulando por algum bairro mais ortodoxo.

Morando há um ano em Israel, na cidade de Jerusalém, sua trajetória profissional no Oriente Médio teve início em junho de 2013, com a aprovação de um projeto ligado à Universidade do Cairo, no qual ensinaria cultura brasileira para crianças e adolescentes árabes no Egito. Mas, devido aos problemas internos no país, e pelos conflitos na região, ficou apenas um mês na capital egípcia. E a situação já sinalizava o que estava por cruzar o seu caminho: prédios destruídos, pessoas mortas e feridas pelas ruas e avenidas. Numa clara indicação de que ele já se encontrava em meio a um conflito histórico internacional.

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Uma cena comum nas cidades palestinas em Gaza: prédios residenciais completamente destruídos por mísseis israelenses (foto: Arquivo Pessoal)


Gaza

Com trânsito livre entre Israel e Palestina, por ser um jornalista estrangeiro, Richard Furst – que fala inglês, espanhol, um pouco de alemão e está iniciando o hebraico e o árabe – não escapa dos intermináveis interrogatórios nos chamados checkpoints (pontos de checagem) do serviço de vigilância do exército israelense. Isso acontece principalemente quando precisa reportar algo do lado "não-judeu".

"É sempre tenso", diz Furst. Ele possui dois passaportes, o que é uma raridade, para poder transitar pelas fronteiras no Oriente Médio sem ser impedido. Como explica, existe um controle rígido das autoridades israelenses nas pessoas que fazem incursões em países não "amigos", na região, como Líbano, Emirados Árabes, Iraque e a Síria. Eles proíbem a entrada de quem visitou esses países. "É um fato extraordinário possuir dois passaportes. Não é para qualquer pessoa, e não quer dizer que eu seja especial. Mas é uma necessidade, que, no meu caso, é profissional", afirma.

Richard conta que andar pelas ruas das cidades em conflito revela aos seus olhos um cenário triste e apreensivo da população, devido á possibilidade de um ataque iminente. Sejam foguetes lançados pelo grupo radical Hamas, sejam com mísseis guiados a laser, disparados por Israel, para contra-atacar e proteger seus cidadãos.

Embora as pessoas procurem seguir suas rotinas de vida, elas quase não ouvem músicas ou expressam alegria em suas conversas. O turismo cultural e histórico deu lugar ao "jornalístico", com profissionais vindos de várias partes do mundo em busca de notícias sobre o conflito. O assunto nas rodas de discussões em mercados, bares e ruas é quase que obrigatoriamente política, religião e guerra. "Em Gaza, na parte leste, o que se vê é um quadro parecido com o de uma enchente que assola uma parte do Brasil: as pessoas ficam arrasadas por perderem seus pertences, e ainda pior, sabem que pode acontecer novamente, a qualquer momento, incessantemente. Não há um tempo de recuperação. É um ciclo vicioso e constante", lamenta Richard.

Na cidade de Beit Lahiya, ao norte da Faixa de Gaza, o cheiro de cadáveres em putrefação e pólvora, misturados ao lixo e aos destroços dos prédios, é muito forte e chocante como explica o jornalista mineiro. Além disso, ele ainda conta que existe racionamento de energia elétrica e escassez de água – a pouca que se tem vem do mar, e não é de boa qualidade.

Só nas três últimas semanas, antes da trégua entre o Hamas e as autoridades israelenses, o chamado "domo de ferro", sofisticado sistema de defesa de Israel – que utiliza foguetes guiados por laser para interceptar ataques ao espaço aéreo judeu –, destruiu mais de três mil projéteis. Embora três cidadãos israelenses tenham morrido, o governo considera o sistema seguro, como diz Furst. Em média, o "domo de ferro" tem um percentual de acerto que chega a 85%, sendo ativado somente quando se detecta alguma ameaça em localidades povoadas.

Porém, uma das principais ameaças, e que é muito temida pelo governo de Israel, são os foguetes de longo alcance e os militantes radicais. Estes, podem estar infiltrados em meio à população das cidades israelenses. Mesmo que não existam notícias recentes de homens-bombas, como ocorria nos anos 1990, o perigo e o medo são sempre uma constante na vida das pessoas, principalmente no Líbano, país vizinho visitado por Furst há um mês.

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A tensão é uma constante em Israel, e o medo de um ataque terrorista pode ser visto em pequenas ações e construções: abrigo antibombas em um ponto de ônibus (foto: Arquivo Pessoal)


Tensão

A população israelense evita se aproximar ou ficar perto de pessoas suspeitas de serem terroristas, ou seja, estariam portando bombas em seus corpos. Ainda sob a égide do medo e do estado de tensão, Richard relata que existe uma cultura alarmista nas escolas e mesmo entre as famílias, que ensinam aos filhos como se portarem em relação ao "rival". Por exemplo, os pais mostram quais palavras ou frases devem ser evitadas em público, pois são expressões que podem desencadear acaloradas discussões e levar a desentendimentos sérios. E hábitos do cotidiano, como usar o kipá judaico (espécie de gorro que corbe a cabeça), em território árabe, seria impensável e muito perigoso.

 A rotina desses povos parece ser sempre o de alerta constante, principalmente entre os militares, numa espécie de cultura bélica de vigilância. Não se percebe um relaxamento, um descanso natural, mesmo em momentos de lazer. Nas cidades próximas a Gaza, é comum ver jovens soldados israelenses portando fuzis de combate em bares, praças e mesmo em algumas sinagogas, quando permitido.

Embora muitos palestinos não aprovem a vertente radical de alguns grupos milicianos, como as alas extremistas do Hamas, antes da guerra, eles se identificavam com as propostas desse grupo. Tudo mudou após os últimos embates mais sangrentos, quando o apoio parece ter dividido a opinião dos civis. Como explica Richard Furst, a população palestina acredita que, se Israel tem seu exército, eles também teriam o direito de ter o seu braço armado, como forma de defesa.

O repórter mineiro não acredita, a curto prazo, numa paz duradoura. Ao contrário: o que se percebe é um ódio muito forte, de origem histórica, entre árabes e judeus, principalmente entre os ultra-nacionalistas. Do ponto de vista dos palestinos, por exemplo, que não reconhecem o estado judeu, para não pronunciar o nome de Israel, se referem a a seus habitantes como sionistas – em referência ao monte Sião, onde teria sido construído o templo de Salomão. "Falar em paz, aqui, só em relação à que se tem dentro de casa, pois a serenidade coletiva é muito difícil. Ela demanda um processo muito lento. Se em dois mil anos não se chegou à paz, quem sabe em dois mil dias?", diz Furst.

Divulgação
Míssil israelense atinge alvo numa cidade palestina na região de Gaza (foto: Divulgação)


Personagem

Dentre seus entrevistados, Richard Furst destaca a história de um brasileiro, Natan Galcovicz, que mora em Jerusalém desde de 1985, e possui uma história de perda irreparável e, ao mesmo tempo, de superação. Sua filha de 22 anos morreu após ser atingida, em casa, que fica na parte sul de Israel, por um foguete palestino lançado da Faixa de Gaza.

Embora Galcovicz não guarde rancor dos palestinos, pela perda da filha, ele culpa o governo do Hamas, e defende o fim do grupo armado, como conta o jornalista mineiro. Após esse trágico acontecimento, Natan inaugurou um restaurante brasileiro em homenagem à filha. Ele continua morando no mesmo local, nos kibutz – espécie de colônia agrícola judaica.

Curiosamente, numa dessas comunidades, do lado israelense, conhecida como Brohaim, vivem cerca de 250 famílias brasileiras, que foram para lá na década de 1970. Do lado palestino, mais precisamente na Cisjordânia, há uma outra com cerca de 300 brasileiros, originários, em sua maioria, de São Paulo, Pará e Rio de Janeiro. Existem pouquíssimos mineiros residindo nessas colônias, relata o repórter.

Richard Furst tem publicado suas reportagens em diversos veículos do Brasil, da América Latina e em outros países, de forma independente, para veículos como SBT Brasil, Rádio Itatiaia, Estado de São Paulo, UOL, CBN, BBC, Buenos Aires Herald e Rádio França Internacional. E em meio a esse universo de informações, ele percebe o desinteresse da mídia brasileira em manter correspondentes no Oriente Médio, que vê como uma importante oportunidade de trabalho.

Veja abaixo um vídeo feito por Richard para o SBT Brasil:

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