Alunos do Colégio Arnaldo relatam choque de realidade ao visitar o Jequitinhonha

O projeto que leva alunos do ensino médio a trocar experiências com famílias da região mais pobre de Minas Gerais se transforma numa verdadeira lição de vida

por Fernanda Nazaré 11/09/2014 10:10

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Gabriela Simões/Arquivo Pessoal
Ao se deparar com crianças e adultos que vivem uma realidade muito distante, alunos do Colégio Arnaldo se emocionam e dizem ter alterado suas percepções da vida (foto: Gabriela Simões/Arquivo Pessoal)
"Eles nos olhavam como se fôssemos de outro planeta", essa foi a primeira imagem que o estudante do 3ª ano do ensino médio Caio Augusto Macedo, de 17 anos, teve ao encontrar famílias humildes na cidade de Palmópolis, antigo distrito de Rio do Prado, na região do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. O povoado com cerca de 6 mil habitantes, que fica a 780 km de Belo Horizonte, recebeu dezenas de alunos do Colégio Arnaldo, que viajaram até a região mineira para doar cestas básicas e ministrar oficinas, como parte do projeto Viver o Vale.

Participando pela segunda vez da excursão solidária, Caio Macedo diz ter vivido uma experiência transformadora. "É uma mistura de sensações: a de dever cumprido; e a de olhar diferente para tudo que você tem, como um quarto quentinho, e até mesmo por ter uma geladeira em casa. Voltamos com um amadurecimento muito maior na bagagem". De acordo com o estudante, o estranhamento que surge num primeiro momento, ao se deparar com uma realidade tão diferente da sua, desaparece logo quando se inicia uma conversa. Momento no qual se constata que todos ali têm sonhos em comum, mesmo com vidas tão distintas. Boa parte das famílias de Palmópolis sobrevive por meio da agricultura e o atendimento médico é escasso, por estarem numa região tão afastada dos grandes centros urbanos.

A ex- aluna do Arnaldo e atual estudante de cinema, Yara Torres, de 18 anos, embarcou em sua quarta viagem ao Vale do Jequitinhonha. Desta vez, como monitora na oficia de documentário. A universitária decidiu unir o útil ao agradável: registrou toda a viagem como parte de um trabalho da faculdade, e pôde eternizar a experiência que a marcou tanto durante os anos em que frequentou o ensino médio do colégio católico. Ela ainda se lembra da família que ajudou em sua primeira viagem: "Conheci uma menina de 18 anos que já tinha um filho de 5. O marido estava preso por assassinato e o pai havia falecido há poucos meses. A mãe estava desempregada e a garota é que sustentava a família, trabalhando como faxineira. Na casa de três cômodos, a geladeira era usada como guarda-roupas e a água vinha de um barril. Entregar a cesta básica foi como presentear a jovem mãe com uma barra de ouro: seus olhos brilharam.  Até hoje me lembro de sua expressão de felicidade".

Gabriela Simões/Arquivo Pessoal
A estudante Gabriela Simões, 16 anos, aprendeu uma lição com o choque de realidade: "A maior lição que tirei dessa experiência é dar amor, sem olhar a quem" (foto: Gabriela Simões/Arquivo Pessoal)


Rompendo valores

Acompanhando os alunos nas viagens há oito anos, Ana Paula Silveira, agente de pastoral do Colégio Arnaldo, se recorda de depoimentos emocionantes. Dentre eles, chama a atenção o relato de um aluno que já tinha viajado para vários países, mas ao retornar do Vale do Jequitinhonha, disse ter vivido a melhor experiência de sua vida. "Certa vez, um pai que me contou que depois da experiência com as famílias humildes, o filho passou a não desperdiçar mais comida em casa", lembra.

Presenciar a dura realidade de quem tenta "sobreviver" e que considera "luxo" comer carne no almoço, faz com que jovens de classe média de uma metrópole como Belo Horizonte repensem valores e princípios. Uma das tarefas feitas pelos estudantes nas viagens, e que mais lhes emociona, é cozinhar para famílias carentes. É o caso de Gabriela Simões, de 16 anos, que cursa o 1º ano do ensino médio. Ela preparou um almoço para uma mãe solteira e suas filhas. "As meninas ficaram do meu lado, pulando de alegria, e perguntando se poderiam ficar com a comida que estava preparando. A maior lição que tirei dessa experiência é dar amor, sem olhar a quem", conta.

Segundo a coordenadora Ana Paula Silveira, os alunos revelam suas emoções vividas nesses quatro dias de choque cultural durante as rodas de conversas organizadas no colégio. "Reunimos toda a equipe para falar sobre as vivências, e muitos choram, inclusive chegam a soluçar. É aí que morrem seus antigos valores, e passam a viver uma nova realidade. Lembro que numa das conversas, duas alunas que estavam brigadas há tempos, pediram perdão, e fizeram as pazes na frente de mais de 50 pessoas. É uma experiência que atinge os alunos de todas as formas", afirma.

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