Você acha que as cantigas antigas são politicamente incorretas?

Para uma educadora musical, isso não procede, e as canções deveriam voltar a fazer parte do ensino das escolas

por João Paulo Martins 04/11/2014 16:13

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Cristina Horta/EM/D.A Press
Brincadeiras de roda, em que se cantavam as tradicionais cantigas, são cada vez mais raras nas grandes cidades (foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)
"Atirei o pau no gato, mas o gato, não morreu. Dona Chica, admirou-se com o berro que o gato deu". Quem não conhece essa famosa cantiga infantil? Sempre foi muito lúdica, até começar a ser considerada politicamente incorreta. Afinal, os protetores dos animais não querem ver ninguém sair por aí atirando pedaços de madeira nos pobres bichanos – aliás, pensando nisso, foi criada uma nova versão, intitulada Não Atirei o Pau no Gato.

"As canções nunca foram problema. Nenhuma criança se tornou violenta por causa disso. Elas nem percebem o que está implícito na música. É uma cantiga que vem do povo, é espontânea. Não procede a ideia de modificar as letras ou excluí-las do repertório infantil", diz Rosa Lúcia dos Mares Guia, educadora musical. Como explica a especialista em ensino de músca para crianças, elas não são politicamente incorretas, e deveriam voltar a fazer parte do dia a dia das escolas. "Por falta da disciplina de música nas salas de aula, as cantigas se tornaram desconhecidas pelos jovens. Hoje, aqueles que não estão ligadas à área, desconhecem os cânticos populares", completa.

Seja o soldado que deve marchar direito, para não ser preso no quartel; o boi da cara preta que pega as crianças; a diferença social entre a pobre e a rica de marré desci; a menina que gosta de sambar, está com a cabeça quebrada, e ainda apanha; seja o cravo que briga com sua parceira rosa, e a deixa despedaçada. São letras simples, que, hoje, acabam tendo outra leitura, e chamam a atenção das pessoas, para o lado negativo, claro.

"As canções realmente folclóricas, em que não se sabe a autoria, é que fazem parte da cultura musical brasileira. Elas é que devem ser incentivadas", diz Rosa Lúcia dos Mares Guia. Ela lembra que não existe nenhuma comprovação científica sobre a influência das cantigas antigas na formação do intelecto das crianças. "Dizer que essas composições atrapalhariam a educação do jovem é sem sentido".

Uma boa notícia para a educadora e para quem também concorda com a valorização da cultura nacional foi dada em agosto de 2008, quando o presidente Lula sancionou a lei 11.769, que torna orbigatório o ensino de música na educação básica, ou seja, para alunos da creche até a terceira série do ensino médio. "Sou absolutamente favorável a que essas cantigas continuem fazendo parte do repertório de nossa cultura infantil", diz.

Confira abaixo alguns exemplos de cantigas infantis que geram discussão:

Marcha Soldado

Marcha Soldado
Cabeça de Papel
Se não marchar direito
Vai preso pro quartel

O quartel pegou fogo
A polícia deu sinal
Acorda acorda acorda
A bandeira nacional

Nana Nenem

Nana nenem
que a cuca vem pegar
papai foi pra roça
mamãe foi trabalhar
Desce gatinho
De cima do telhado
Pra ver se a criança
Dorme um sono sossegado

Samba Lelê

Samba Lelê tá doente
Tá com a cabeça quebrada
Samba Lelê precisava
É de umas boas palmadas

Samba, samba, Samba ô Lelê
samba, samba, samba ô Lalá
Samba, samba, Samba ô Lelê
Pisa na barra da saia ô Lalá

Samba Lelê tá doente
Tá com a cabeça quebrada
Samba Lelê precisava
É de umas boas palmadas

Samba, samba, Samba ô Lelê
samba, samba, samba ô Lalá
Samba, samba, Samba ô Lelê
Pisa na barra da saia ô Lalá

O cravo brigou com a rosa

O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa despedaçada

O cravo ficou doente
E a rosa foi visitar
O cravo teve um desmaio
E a rosa pôs-se a chorar

A rosa fez serenata
O cravo foi espiar
E as flores fizeram festa
Porque eles vão se casar

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