Suposta liberação de arsênio por mineradora assusta população de Paracatu

A cidade possui a maior mina de ouro do país, e sua extração seria o principal motivo do alarde, já que o metal precioso está ligado a um mineral chamado arsenopirita, que contém a substância cancerígena

por Fernanda Nazaré 09/02/2015 11:41

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Alexandre Guzanshe/EM/D A. Press
A cidade mineira de Paracatu possui 80 mil habitantes, e com os casos de câncer crescentes, o boato de contaminação por arsênio ficou mais forte (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D A. Press)
Não é apenas pelo barulho das explosões que os moradores de Paracatu, região noroeste de Minas Gerais, a 431 km de Belo Horizonte, estão atentos à atividade de mineração que existe no município. O medo de contaminação da água por arsênio, um metal resultante da extração de ouro na maior mina ativa do país, também é assunto recorrente. Há quase 30 anos, a mineradora canadense Kinross explora a região. Ela já abriu 180 buracos e já retirou 180 mil toneladas de terra e pedra utilizando explosivos. Como o ouro está incrustrado na arsenopirita, mineral típico da região, é preciso usar uma solução química especial e muita água para se obter o metal. Segundo a empresa, em Paracatu, é possível extrair 0,4 grama de ouro por tonelada desse minério. O problema é que a arsenopirita possui arsênio, um metal extremamente cancerígeno.

Após o médico mineiro Sergio Ulhoa Dani, especialista em genética, aparecer em blogs e num artigo publicado pela revista Ciência Hoje alertando para o perigo da atividade da mineradora, que estaria liberando arsênio na cidade, os paracatuenses ficaram apreensivos. Mas, para acalmar a população, em março de 2014, a prefeitura apresentou, em audiência pública na câmara municipal, o resultado de uma avaliação da contaminação ambiental por esse metal cancerígeno.

A investigação realizada pelo Centro de Tecnologia Mineral, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, não apontou risco de contaminação para os 80 mil habitantes de Paracatu. De acordo com a pesquisadora responsável, Zuleica Castilho, entre 2010 e 2013, não foram registrados casos de doenças relacionadas ao arsênio no município. Além disso, a especialista mostra que a exposição humana ao metal, nessa região, está abaixo dos limites estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde.

Alexandre Guzanshe/EM/D A. Press
A mineradora canadense Kinross explora o ouro de Paracatu há 30 anos, e já detonou 180 mil toneladas de terra e pedra (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D A. Press)


Quem também analisou os níveis de arsênio presentes na cidade mineira é a professora Virgínia Siminelli, da faculdade de Engenharia de Minas da UFMG, especialista em extração de minério. Ela realizou estudos em Paracatu sobre a possível contaminação, e os resultados obtidos por ela foram tranquilizadores. "Dados mostraram que o arsênio na água, no solo, na poeira e nos alimentos era baixo, e não trazia risco para a saúde humana. Nossa pesquisa foi apresentada à comunidade científica, num congresso internacional sobre arsênio, na Argentina, no ano passado", explica.

A professora diz ainda que o ouro está ligado à arsenopirita como em vários outros depósitos minerais do mundo, inclusive nas cidades de Nova Lima e Santa Bárbara, em Minas Gerais. "Durante a extração do ouro, ele é dissolvido da rocha, mas o arsênio que está na pedra não se desprende. A solução usada para retirar o metal precioso não tem capacidade de afetar o elemento cancerígeno".  Os rejeitos desse tipo de mineração, que contêm o pó da arsenopirita, segundo a especialista, devem ser colocados em tanques impermeabilizados ou numa coluna d'água no fundo de uma barragem, longe do oxigênio, impedindo a oxidação. Do contrário, poderia haver a liberação de arsênio.

Ross Large/Universidade da Tasmânia/Reprodução
O ouro presente na arsenopirita é muito restrito: apenas 0,4 grama por tonelada do mineral (foto: Ross Large/Universidade da Tasmânia/Reprodução)
Em nota à Encontro, a Kinross afirma que "não existe qualquer evidência na literatura técnica e científica mundial de que a mineração de rochas e minérios auríferos sejam causadores de contaminação por arsênio. Na realidade, o que existe na literatura técnica internacional é diferente. A contaminação por arsênio em alimentos, principalmente no arroz, é a principal fonte de exposição da população mundial ao metal cancerígeno. Além disso, a água naturalmente enriquecida com arsênio é a maior ameaça à saúde pública, especialmente em regiões endêmicas na India, Taiwan, Argentina e outras, onde é encontrado naturalmente em rochas adjacentes a aquíferos".

Suspeitas

Estatísticas de atendimento do Hospital de Câncer de Barretos, cidade que fica 438 km de distância de São Paulo, e que recebe parte dos doentes de Paracatu, apontam um aumento no número de casos da doença na cidade mineira. Em 2012, 17 paracatuenses foram diagnosticados com algum tipo de tumor. No ano seguinte, esse número dobrou, totalizando 36. As maiores incidências são de câncer de próstata, da tireoide e da face.

De acordo com a assessoria do hospital, não existe estudo interno para verificar se os pacientes com câncer de Paracatu desenvolveram a doença por exposição ao arsênio. A instituição também ressaltou que nem todas as pessoas da cidade buscam tratamento em Barretos, ou seja, o número não representa o total de casos da população.

Para Gustavo Baumgratz, presidente da Sociedade Mineira de Cancerologia, tais dados não representam indício de que as pessoas estejam adoecendo devido ao arsênio. Segundo ele, o aumento nos casos de câncer é uma tendência mundial, devido ao avanço dos diagnósticos, que são cada vez mais precoces, bem como à maior longevidade da população e ao estilo de vida sedentário. "O aumento do número de pacientes com câncer, no mundo, se deve pela mudança de hábito das pessoas, principalmente as ligadas ao tabagismo, comum entre as décadas de 1960 e 1980. A obesidade e o sedentarismo também têm relação cada vez mais forte com o aparecimento de tumores".

Sobre os tipos de câncer provocados pelo arsênio, o oncologista explica que os mais comuns são do pulmão (localizado na pleura) e de bexiga, órgãos diferentes dos mostrados na estatística do Hospital de Câncer de Barretos. "Relacionar esse diagnóstico ao arsênio seria errado. Se houvesse um surto de câncer de bexiga, aí sim, teríamos um elemento mais forte para fazer a associação. Além disso, a exposição a substâncias cancerígenas possui um hiato até o aparecimento da doença, podendo chegar a 30 anos", afirma.

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