O sadomasoquismo é uma prática saudável?

Esse fetiche sexual, que alavancou a venda do livro Cinquenta Tons de Cinza, tem mexido com a imaginação do público que está lotando as salas de cinema para assistir à versão de Hollywood para a obra de E. L. James

por Fernanda Nazaré 20/02/2015 09:17

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Universal Pictures/Divulgação
A jovem universitária Anastasia Steele, vivida pela atriz Dakota Johnson, se deixa levar pelos fetiches sadomasoquistas de Christian Grey, interpretado por Jamie Dornan no filme Cinquenta Tons de Cinza (foto: Universal Pictures/Divulgação)
Apenas no primeiro fim de semana de exibição, o filme Cinquenta Tons de Cinza, baseado no romance erótico de E.L. James, já atingiu a marca de 1,7 milhão de espectadores no Brasil. Com isso, somos o quarto país no ranking de público, contribuindo com US$ 8,9 milhões com a arrecadação das bilheterias nacionais, ficando atrás apenas do Reino Unido, da Irlanda, da Alemanha e da Rússia.

O tema tratado no longa é polêmico – o sadomasoquismo – e o sucesso já era esperado. Afinal, a triologia de livros que conta o relacionamento entre um bilionário e uma jovem universitária vendeu mais de 100 milhões de cópias em todo o mundo.

Sites especializados em crítica de cinema se dizem desapontados com a "leveza" com que a relação entre a apaixonada Anastasia Steele (Dakota Johnson) e o sadomasoquista Christian Grey (Jamie Dornan) foi abordada. Porém, cenas de sexo e de submissão não faltaram. Será que o filme está fazendo com que o público deixe aflorar seus fetiches, mesmo que sem perceber?

Para o psicanalista italiano radicado no Brasil, Contardo Calligaris, em sua coluna na Folha de S. Paulo, ter fetiches e praticá-los é mais do que normal: "é trivial", diz. Segundo ele, muitos podem ter se enxergado nos personagens, encarando as próprias "perversões", que nunca tiveram coragem de tornar real.

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Após uma semana em cartaz, Cinquenta Tons de Cinza já levou quase 2 milhões de pessoas aos cinemas no Brasil (foto: Universal Pictures/Divulgação)


Mas, para o psicólogo Maurício Damasceno, o que atrai o público não é o sadomasoquismo em si, mas o fetiche natural do ser humano em assistir atos de violência. "Assisti Cinquenta Tons de Cinza e me lembrei do que Freud dizia: 'Não se pode desconectar a dor e o prazer'. Por pior que seja essa afirmação, é assim que a psicanálise vê a questão. E nossa cultura não está preparada para isso", explica.

Ainda de acordo com o especialista, as pessoas vivem relações parecidas com as do filme, e não apenas com relação ao lado sexual, mas também no que diz respeito ao sadismo vividos em outros ambientes, como no trabalho, na escola ou mesmo no círculo familiar. "Muitos fazem isso, em várias esferas; torturando ou humilhando o outro a partir das pequenas coisas. Existe também aquele que se põe à disposição desse sofrimento, que é considerado masoquista. Mas, tudo isso funciona de forma inconsciente. O amor, o prazer e a dor estão presentes em nossas estruturas e caminham juntos", afirma.

Em sua coluna, Contardo Calligaris explica que para se ter o desejo de sadomizar alguém ou ser sadomizado, não é preciso ter sofrido algum abuso na infância, como sugere o personagem Christian Grey.  "A ideia é de que Grey seria 'torto' por que foi abusado na infância e na adolescência – como se fosse necessária uma explicação que o absolvesse de suas fantasias. Não é preciso. As fantasias sadomasoquistas, além de não constituírem um transtorno, são mais do que normais: são triviais", diz o psicanalista e articulista.

Então, qual o limite saudável para se praticar o sadomasoquismo? "Aquilo que o sujeito puder suportar sem ferir sua personalidade e que consiga lidar com isso em sua vida", completa Maurício Damasceno.

Assista ao trailer oficial do filme:

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