Amianto é um perigo e ainda assusta trabalhadores em Minas

Apesar da lei que quer abolir o uso da substância no estado até o ano de 2023, ela ainda é um risco, especialmente para os artesãos que trabalham com a pedra-sabão

por Lúcia Fernanda - ALMG 25/02/2015 15:25

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Pollyanna Maliniak/Ascom ALMG/Divulgação
O amianto, muito usado em telhas e caixas d'água, pode provocar sérios problemas de saúde, incluindo câncer, como foi o caso do pai de Maria do Carmo Souza, presidente da Associação Mineira de Expostos ao Amianto (foto: Pollyanna Maliniak/Ascom ALMG/Divulgação)
Maria do Carmo Vieira de Souza vivenciou em sua família os efeitos que o amianto pode causar à saúde de uma pessoa. Ela é presidente da Associação Mineira de Expostos ao Amianto (Amea), entidade que criou em 2005 após a morte de seu pai, Nelson Vieira de Souza, vítima de mesotelioma (câncer da pleura). O caso foi o primeiro em Minas Gerais a ser divulgado como comprovadamente relacionado à exposição ao amianto. O uso dessa fibra mineral – amplamente utilizada pela indústria e também em produtos de uso doméstico – foi proibido pela Lei 21.114, aprovada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) em 2013, que determina prazos até 2023 para que a substância seja abolida do estado.

Antes de ser diagnosticado com o câncer, Nelson Vieira de Souza trabalhou entre os anos de 1960 e 1964 na empresa Brasilit, na qual, segundo Maria do Carmo, atuava em diversas atividades, inclusive no preparo da massa de amianto, utilizada na produção de telhas de fibrocimento e caixas d'água.

Um laudo do Centro de Referência Estadual em Saúde do Trabalhador do Hospital das Clínicas da UFMG, feito durante o período de internação de Nelson, apontou que o pai de Maria do Carmo também trabalhava como ajudante de carregamento de caminhões com telhas e caixas d'água de amianto e com lixo e restos de materiais, e a empresa não oferecia equipamentos de proteção aos trabalhadores, nem assistência médica. Ainda segundo o laudo, Nelson de Souza trabalhava uma média de 12 horas por dia, seis dias na semana.

Maria do Carmo Souza conta que a doença de seu pai se manifestou 40 anos depois que ele deixou de trabalhar na Brasilit. De acordo com ela, o primeiro sinal da doença foi em fevereiro de 2005, quando ele sentiu uma dor no peito e desmaiou. Até junho do mesmo ano, quando faleceu aos 77 anos, Nelson de Souza teve sintomas como falta de ar, febres e dores intensas.

Ela lembra que o pai "perdia a noção do tempo e do espaço" e precisou tomar medicamentos à base de morfina. Em 2006, a família ganhou a ação judicial movida contra a Brasilit, que foi condenada a pagar uma indenização no valor de R$ 100 mil. "O valor foi irrisório, já que dinheiro algum pagaria a vida do meu pai", diz Maria do Carmo.

Pollyanna Maliniak/Ascom ALMG/Divulgação
Muitos não sabem, mas o amianto está presente em alguns tipos de pedra-sabão, que é muito usada no artesanato em Minas Gerais (foto: Pollyanna Maliniak/Ascom ALMG/Divulgação)


Legislação

Na avaliação da presidente da Amea, a Lei 21.114 "demorou muito, mas chegou a tempo". Para ela, os prazos estabelecidos para que o amianto seja completamente abolido em Minas Gerais são muito longos, o que faz com que milhares de pessoas ainda possam se tornar vítimas da exposição ao mineral.

Na sua opinião, o lobby das empresas que utilizam o amianto no Brasil é muito grande, e não existe variedade do mineral que não ofereça riscos à saúde. Embora os médicos especialistas no assunto afirmem que a contaminação pelo amianto se dá somente por via respiratória, atingindo principalmente trabalhadores expostos ao pó do mineral, para Maria do Carmo Souza, nem mesmo o consumidor está livre dos riscos. "Ao longo dos anos, as telhas e caixas d'água de fibrocimento soltam um pó de amianto. Quando lavamos as caixas d'água, por exemplo, o resíduo que fica acumulado é o suco do amianto, que ingerimos depois. Isso pode provocar doenças", defende.

Pedra-sabão

O amianto faz parte de inúmeros produtos utilizados pelas pessoas no dia a dia. Mas poucos sabem que o material também está presente em alguns tipos de pedra-sabão, rocha amplamente utilizada no artesanato mineiro, nas igrejas barrocas e nas famosas esculturas de Aleijadinho em cidades como Ouro Preto, Sabará, São João del-Rei e Congonhas.

De acordo com a professora da Escola de Medicina da Universidade Federal de Ouro Preto, Olívia Maria de Paula Alves Bezerra, ao ficar exposta ao sol e à chuva, a pedra-sabão forma cristais de amianto do tipo anfibólio, que surgem como um processo natural da ação do tempo.

Em 2002, em sua tese de doutorado, a professora fez uma pesquisa com artesãos da comunidade de Mata dos Palmitos, em Ouro Preto, que eram expostos à poeira da pedra-sabão. Segundo ela, entre as 117 pessoas radiografadas, foram confirmados cinco casos de uma doença pulmonar conhecida como talcose e outros onze casos suspeitos.

Na opinião da pesquisadora, apesar da possibilidade de presença do amianto na pedra-sabão, o artesanato feito com a rocha não estaria ameaçado. "O artesão tem que ter um cuidado maior, para ter acesso a uma rocha de melhor qualidade, além de receber orientação de como escolher a pedra-sabão. Mas é preciso ter cuidado para não associar automaticamente a pedra-sabão ao amianto", alerta. Ainda segundo Olívia Bezerra, a rocha que contém amianto não é ideal para o artesanato porque é mais quebrável, e por isso não pode ser usada na confecção de algumas peças.

(com Ascom ALMG)

Últimas notícias

Comentários