Apesar de proibidos em muitas universidades, trotes ainda preocupam

As festas de recepção promovidas por estudantes veteranos costumam ocorrer fora dos campi universitários e podem levar a tragédias e traumas

por Marcelo Fraga 04/03/2015 15:58

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Carlos Moura/CB/D.A Press
Apesar de parecerem inofensivos, os trotes podem se tornar violentos e causar até traumas nos calouros, que após sofrerem a violência, acabam desistindo de continuar o curso (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
Tradição no início do ano letivo nas universidades e faculdades brasileiras, os trotes foram criados pelos estudantes como uma forma de descontração e integração entre calouros e veteranos. Os eventos, que não deveriam passar de uma simples festa, acabam se tornando um problema quando são cometidos excessos, como a ingestão deliberada de álcool e outras drogas e, ainda, atos violentos ou de natureza discriminatória.

O problema com os trotes não é novidade. Há pouco mais de 16 anos, em fevereiro 1999, o estudante Edison Tsung Chi Hsueh, que era calouro do curso de Medicina da Universidade de São Paulo, morreu vítima de afogamento após ser jogado na piscina durante um trote. O caso ganhou repercussão nacional e impulsionou o debate sobre os excessos cometidos pelos veteranos. Atualmente, muitas instituições proíbem os eventos, mas as festas continuam ocorrendo e fogem do controle das universidades.

Em março de 2013, um trote promovido por alunos da faculdade de Direito da UFMG se tornou caso de polícia. À época, alguns estudantes divulgaram fotos nas redes sociais em que, aparentemente, faziam apologia ao racismo.  Em uma das imagens, uma aluna estava com o corpo coberto por tinta preta e com as mãos atadas, carregando uma placa onde se podia ler "caloura Chica da Silva", em referência à icônica escrava brasileira que viveu na cidade mineira de Diamantina. Após um processo disciplinar, a UFMG expulsou um dos quatro alunos veteranos que apareciam nas fotos, e suspendeu os outros três.

Desde então, a federal de Minas Gerais proibiu a realização de trotes e até criou um hotsite com orientações sobre a proibição e as punições que podem ser aplicadas aos alunos que desrespeitarem as normas. Segundo a assessoria da instituição, os cerca de 3,5 mil calouros que ingressaram neste semestre na universidade receberam uma cartilha com orientações sobre o tema.

Reprodução
A UFMG criou até um hotsite para orientar veteranos e calouros sobre os perigos dos trotes e as punições para quem realizá-los (foto: Reprodução)


Outros casos recentes mostram que os trotes violentos continuam ocorrendo. A estudante paulista Natália de Souza, de 17 anos, sofreu queimaduras nas pernas durante um trote em uma faculdade da cidade de Adamantina, no interior de São Paulo, após ser atingida por um líquido desconhecido durante a "festa" de recepção, promovida por veteranos.

Causas

Para o psicólogo Gilberto Diniz, os estudantes cometem excessos durante os trotes porque têm a sensação de anonimato, gerada por estarem em grupo. "Neste caso, o indivíduo perde o medo da punição e acredita que as atitudes negativas serão apoiadas pelo coletivo presente nas festas", explica. Ainda de acordo com o especialista, os calouros que sofrem violência durante os trotes podem adquirir um trauma psicológico que pode fazê-los desistir do curso, abandonando a instituição que escolheram para estudar.

Lei

Com intuito de regulamentar as festas e coibir os excessos, foi criado em Belo Horizonte, no ano de 2011, o programa BH Trote Solidário e Cidadão. Por meio de uma lei municipal, o projeto surgiu para incluir nas escolas municipais atividades educativas contra a prática de bullying.

Autor do projeto que deu origem ao programa, o vereador Adriano Ventura (PT) ressalta que o objetivo principal é fazer com que os alunos se sintam intimidados em praticar excessos durante os trotes, que ocorrem também nas escolas: "Criei o projeto em conjunto com os professores, para que eles possam promover a conscientização dos alunos, ajudando a reduzir os excessos cometidos dentro e fora da sala de aula".

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