Moradores de Baependi possuem o relógio biológico de antes da revolução industrial

Isso foi comprovado por uma pesquisa realizada por uma universidade inglesa em parceria com a USP, e que constatou que o ritmo circadiano dos baependianos equivale ao de nossos antepassados

por Vinícius Andrade 24/03/2015 13:10

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Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
A pequena Baependi, no sul de Minas, é famosa por ser a terra natal da beata mineira Nhá Chica, beatificada em 2013 pelo papa Francisco (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Ter uma boa noite de sono e acordar totalmente descansado no dia seguinte é um privilégio. Se você deseja usufruir dessa regalia, talvez uma boa opção seja se mudar para Baependi, que fica no sul de Minas Gerais. A cidade não se destaca apenas pela religiosidade e belas cachoeiras, mas também pela qualidade do sono. O relógio biológico da população não teria sido afetado pela vida moderna. É como se os moradores ainda vivessem em tempos pré-industriais. Se você é daqueles mais nostálgicos, o município de aproximadamente 20 mil habitantes pode ser um bom destino.

O comportamento da população de Baependi chamou a atenção de pesquisadores e foi objeto de estudo de especialistas da Universidade de São Paulo e da Universidade de Surrey, na cidade de Guilford, na Inglaterra. O resultado, divulgado no jornal inglês Scientific Reports, especializado em notícias científicas, conclui que os costumes dos moradores de Baependi se aproximam aos de nossos antepassados, no que diz respeito aos horários de deitar e levantar. O trabalho ainda revela que a combinação entre fatores ambientais e genéticos influencia na hora de dormir e acordar.

O estilo de vida que se leva na cidade possui influência direta na qualidade do sono. "Baependi é muito autêntica e tradicional, com muito pouca migração de entrada. Apesar de quase todos os habitantes terem acesso à eletricidade e à televisão, o estilo de vida ainda é muito tradicional em diversos aspectos", explica Malcolm Von Schantz, pesquisador da Universidade de Surrey e coautor da pesquisa.

Os cientistas analisaram dados de 3 mil moradores por meio de questionários e de um polissonógrafo, aparelho usado para avaliar a qualidade do sono. A média da população da cidade respondeu que prefere acordar por volta das 7h15 e dormir às 22h20. Já os habitantes da zona rural, optam por levantar às 6h30 e repousar em torno de 21h20. Em comparação com a cidade Londres, por exemplo, em que a maioria dos entrevistados escolhe despertar às 8h30 e deitar às 23h15, a cidade mineira segue um estilo de vida anterior ao da revolução industrial.

Estacoesferroviarias.com.br/Reprodução
A imagem mostra a inauguração da estação de trem na década de 1930: o relógio biológico da população não mudou desde essa época (foto: Estacoesferroviarias.com.br/Reprodução)


"O ritmo circadiano (relógio biológico) do moradores de Baependi, aparentemente, é muito mais similar ao de nossos antepassados do que quem mora em metrópoles como São Paulo e Londres. Na cidade mineira, as pessoas preferem começar o dia mais cedo e ir para a cama mais cedo, cerca de uma hora antes do normal das grandes cidades, na área municipal, e duas horas antes, na zona rural. Nós acreditamos que a causa mais importante disso é que eles ficam mais expostos à luz solar, já que muitos deles trabalham ao ar livre", conclui Schantz.

Dormir bem, viver bem

Em meio a um mundo dominado pela tecnologia, os hábitos dos moradores de Baependi são uma exceção. Os problemas de insônia estão cada vez mais presentes em nosso dia a dia. Em Belo Horizonte, existem clínicas especializadas para atender a demanda da população. O médico do sono Maurício Viotti, da faculdade de Medicina da UFMG, explica que o ser humano se adapta bem às mudanças, mas é preciso ter cuidado.

"Todo ser vivo possui um ritmo biológico interno. Ele é formado a partir da sincronia com a Terra (dia, noite, marés etc). Quando há uma alteração desse ritmo, por qualquer fator, ocorre uma desorganização do nosso organismo. O ser humano se adapta bem a variações, como o fuso-horário, por exemplo. Mas, as variações prolongadas podem comprometer o ritmo interno e provocar problemas graves, como estresse, acidente vascular cerebral, depressão e imunidade mais fraca", explica o especialista.

Noites bem dormidas estão diretamente relacionadas com a qualidade de vida. Segundo Maurício Viotti, uma pessoa precisa dormir, em média, oito horas por dia. É preciso estar atento para a tecnologia não se tornar uma vilã do seu sono. "O homem se adapta bem à tecnologia, mas, quando ela é usada em excesso, prejudica o sono e provoca a insônia. Mexer no celular e em tablets antes de dormir não é recomendado", ressalta.

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