Pesquisa da UFMG chama atenção para a "morte" lenta do rio Peruaçu

Localizado no norte de Minas, ele é um afluente do rio São Francisco e concentra duas importantes áreas de preservação

25/03/2015 10:02

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Eduardo Gomes/Panoramio/Reprodução
A região do vale do rio Peruaçu, no norte de Minas, possui importantes reservas naturais, com formações rochosas e ecossistema de veredas (foto: Eduardo Gomes/Panoramio/Reprodução)
Afluente do rio São Francisco, o rio Peruaçu, no norte de Minas Gerais, vem secando rapidamente nos últimos anos, o que ameaça patrimônios naturais, como cavernas, e as comunidades que vivem às suas margens. A redução do fluxo de água tem sido observada inclusive nos períodos de precipitações pluviométricas normais, como explica a professora Cristina Helena Ribeiro Rocha Augustin, do Instituto de Geociências da UFMG.

Ao investigar as causas da seca de rios, a pesquisadora e sua equipe consideram três possibilidades: a hipótese geomorfológica, que assume as mudanças como um processo normal de evolução da paisagem; o impacto antrópico, decorrente de uso e manejo incorretos, com excessiva retirada de água, queimadas e outras formas de interferência humana; e a combinação de ambas.

"Mesmo considerando a hipótese geomorfológica como principal causa, o manejo e o uso incorretos agravam a situação. E sendo Minas Gerais uma importante zona de cabeceiras, na qual nascem rios como Jequitinhonha, Doce, Mucuri, das Velhas e São Francisco, cabe a adoção de ação imediata do governo, em várias frentes", avalia Cristina Augustin, citando iniciativas que considera urgentes, como o estímulo ao replantio de vegetação nativa, o fim das queimadas e a garantia de sustentabilidade em atividades como pecuária e agricultura.

Acervo UFMG/Reprodução
O Peruaçu, que é afluente do rio São Francisco, segundo a pesquisa da UFMG, vem minguando nos últimos anos (foto: Acervo UFMG/Reprodução)
Área de preservação

Com cerca de 100 quilômetros de extensão, o vale do rio Peruaçu possui trechos protegidos por dois parques – na parte alta, domínio dos arenitos, fica o parque estadual Veredas do Peruaçu, ligado ao Instituto Estadual de Florestas. Já o parque nacional Cavernas do Peruaçu, é ligado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), e abriga inúmeras cavernas, localizadas em zona de calcário.

Segundo Cristina Augustin, ao delimitar o parque estadual, na parte mais alta, apenas um lado da bacia foi protegida. "Enquanto na parte preservada o cerrado já está alto e recuperado, pois há 25 anos não há queimadas, a outra continua com gado, queimadas e todo tipo de impacto", relata.

A bacia do Peruaçu abrange os municípios de Bonito de Minas, Januária e Cônego Marinho, distantes cerca de 700 quilômetros de Belo Horizonte.

Infiltração prejudicada

A presença da palmeira buriti ao logo de rios é marca registrada das veredas, ecossistema específico do cerrado, no qual se localiza o Peruaçu, objeto de estudo da equipe da professora Cristina Augustin desde 2010. As veredas ocorrem em fundos de vales, em áreas de drenagem difícil.

"Para que um rio tenha água perene, é preciso estimular a infiltração. Experiências realizadas no âmbito do projeto demonstram que a infiltração da água de escoamento é lenta: a água das chuvas de fevereiro chegará aos rios, por esse meio, só em maio", explica lembrando que a falta de chuva apenas acentuou uma tendência, uma vez que o processo de seca do rio Peruaçu começou há mais tempo.

Acervo UFMG/Reprodução
As veredas, caracterizadas pelos buritis, vem sofrendo com a ação humana, o que prejudica a absorção de água e, consequentemente, o abastecimento do rio Peruaçu (foto: Acervo UFMG/Reprodução)


De acordo com a pesquisadora, há três maneiras de um rio secar: pela mudança climática, pelo uso excessivo da água do freático, mesmo mantida a reposição natural, e pela diminuição do volume, "não porque esteja chovendo menos, mas pela redução da infiltração, seja no solo, seja na rocha". Nesse cenário, diz ela, a água tende a escoar superficialmente, especialmente em áreas com pouca cobertura vegetal, provocando enchentes.

Ações corretivas

Segundo Cristina, a primeira medida para reduzir o impacto humano é o estímulo ao replantio. Além disso, a professora sugere o planejamento das atividades agropecuárias no que diz respeito à intensidade, tipo e localização geográfica na bacia. Nesse processo, ressalta, não se pode analisar uma encosta ou um trecho, mas a bacia como um todo, adotando ações em cada microbacia, para entender se há sustentabilidade da pecuária. Isso inclui dimensionar se o número de cabeças de gado está adequado ao potencial forrageiro das encostas. "Quando se mata um rio, não se mata só o fluxo de água, mas todo o sistema aquático e seu entorno", diz.

(com assessoria da UFMG)

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