Projetos de engenharia mal feitos são o problema, diz presidente do Ibape-MG

Para Clémenceau Chiabi, as licitações brasileiras acabam implicando em obras feitas de forma rápida e com custo reduzido, como a do viaduto Gil Nogueira, na região da Pampulha, que apresentou problema e teve de ser corrigido pela construtora

por João Paulo Martins 06/04/2015 16:40

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Google Maps/Reprodução
Em dezembro de 2014 foi detectado um problema no viaduto Gil Nogueira, na av. Portugal, na região da Pampulha, e, em abril deste ano, o desnível de 2,5 cm foi corrigido (foto: Google Maps/Reprodução)
No último fim de semana, nos dias 4 e 5 de abril, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) realizou uma intervenção de urgência no viaduto Gil Nogueira, que fica na avenida Portugal, sobre a avenida Pedro I, no bairro Itapuã, ao lado da estação Pampulha do Move. A construtora Cowan, responsável pelas obras na região, teve de corrigir um desnível de 2,5 cm que ameaçava a estrutura do viaduto.

"No local foi realizada a correção de desnível de 2,5 cm na porção central das vigas transversais dos encontros do viaduto A, na avenida Portugal. Para isso, as extremidades do viaduto foram levantadas 8 milímetros e instalados três aparelhos de apoio em cada encontro. Foi realizada também a recuperação das juntas na parte superior da estrutura", diz a PBH em nota enviada à imprensa.

Não é uma novidade encontrar algum tipo de problema em estruturas viárias na avenida Pedro I, que vem sofrendo intervenções para a implementação do sistema de ônibus rápido, o Move. No início de 2014, o viaduto Batalha dos Guararapes, que fica nessa avenida, próximo ao parque Lagoa do Nado, desmoronou, matando duas pessoas e ferindo outras 22. Na mesma época, especialistas encontraram um deslocamento lateral de 27 cm no viaduto Montese, que fica na mesma região.

"No trabalho pericial diário, tenho observado que atrasos, abandonos, superfaturamentos e graves acidentes em obras públicas vêm ganhado notoriedade, além de trazer severas consequências à sociedade. Por óbvio, não existe uma única causa para esses fatos, mas, seguramente, a forma de contratação efetuada pelo poder público federal, estadual ou municipal, lastreada na maioria das vezes apenas no menor preço, tem grande peso e merece reflexão", afirma Clémenceau Chiabi Saliba Júnior, presidente do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia (Ibape-MG).

Carlos Avelin/PBH/Divulgação
A PBH realizou uma obra emergencial para correção do desnível de 2,5 cm no viaduto Gil Nogueira, que fica próximo à estação Pampulha do Move (foto: Carlos Avelin/PBH/Divulgação)


Com relação à obra emergencial feita no viaduto Gil Nogueira, no início de abril, o presidente do Ibape-MG lembra que a PBH fez uma obra de praxe, ou seja, que deve ser feita rotineiramente nesse tipo de estrutura. "A solução foi dada de forma definitiva, apesar de que esses aparelhos de encontro devem ser substituídos periodicamente em qualquer viaduto de BH, ou em qualquer lugar do mundo. O erro, na verdade, foi de posicionamento. Houve falha no desenho do projeto, o que seria perceptível para qualquer pessoa. Falhou-se na análise do desenho, na execução e na fiscalização. É óbvio que a peça sempre fica centralizada debaixo do eixo", diz Clémenceau.

Porém, o especialista explica que o desnível no viatudo não representou risco à população. "Desde a verificação do problema, em dezembro de 2014, até a realização da obra, em abril deste ano, em nenhum momento a via foi fechada para o trânsito. O desnível poderia piorar com o tempo, dependendo de uma série de fatores, como o volume e o peso dos veículos passando sobre ele. Como a detecção do problema foi feita cedo, acabou não sendo um risco", completa o presidente do Ibape-MG.

Licitação é a questão

Para o especialista em perícia de engenharia, o grande problema das obras estruturais brasileiras é ó método de licitação. Como ele explica, na contratação de projetos de engenharia, como os governos levam em conta a oferta de menor preço global, isso implica em redução de custos que podem comprometer a obra.

"Habitualmente se reduz a remuneração do engenheiro e o número de horas gastas na sua elaboração. Dificilmente os que ganham menos são os melhores e, com menos tempo disponível para sua elaboração, os projetos acabam sendo quase que repetições de outros, diminuindo sua qualidade e cerceando a possibilidade do engenheiro buscar novas opções", finaliza Clémenceau Chiabi Saliba Júnior.

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