Moreno e Durvinha: quando o cangaço de Lampião encontrou Minas Gerais

Conheça a história de dois cangaceiros que viveram por décadas escondidos entre os mineiros, e, hoje, descansam no cemitério da Saudade, em Belo Horizonte

por Vinícius Andrade 15/04/2015 14:56

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Cláudio Cunha/Encontro
A funcionária pública Neli Maria da Conceição queria saber o paradeiro de seu irmão que havia ficado em Pernambuco, e acabou descobrindo a trajetória dos pais no cangaço (foto: Cláudio Cunha/Encontro)

Os termos cangaço e Nordeste caminham juntos. Afinal, essa região foi o berço do movimento social do início do século XX, conhecido por aterrorizar a população das regiões áridas do Brasil. Com chapéus peculiares, roupas de couro adornadas e fuzil em mãos, o bando de Lampião (principal nome do grupo) atuava em cidades dos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Revoltados com a situação de miséria do Nordeste e descaso do poder público, os integrantes saqueavam fazendas, sequestravam figuras importantes e amedrontavam os povoados. A história poderia ter parado por lá, mas ela também reservou capítulos em terras mineiras.

Poucas pessoas sabem, mas no cemitério da Saudade, que fica no bairro de mesmo nome, na região leste de Belo Horizonte, está enterrado um casal que participou desse movimento histórico. Por mais de 60 anos, Antônio Inácio da Silva e Durvalina Gomes de Sá se passaram por José Antônio Souto e Jovina Maria da Conceição e esconderam episódios instigantes sobre o cangaço. Somente em 2005 a história foi desvendada, graças à curiosidade e persistência de Neli Maria da Conceição, funcionária pública de 65 anos, filha do casal. Finalmente, a misteriosa dupla foi apresentada publicamente como Moreno e Durvinha, apelidos recebidos quando participavam do bando de Lampião.

YouTube/TV Brasil/Reprodução
O casal Durvinha, Durvalina Gomes de Sá, e Moreno, Antônio Inácio da Silva, dançam para as lentes do cineasta Benjamin Abrahão, em 1937, para documentário sobre o cangaço (foto: YouTube/TV Brasil/Reprodução)


A baiana Durvalina Gomes de Sá entrou no cangaço motivada por um grande amor. "O grupo de Lampião passou por uma fazenda que ficava na terra de meus avós. Em um daqueles bailes da época, minha mãe se apaixonou pelo Virgínio, que era cunhado de Lampião. Certa madrugada, ela deixou a família e fugiu com ele", conta Neli. Virgínio foi casado com a irmã de Lampião, que acabou falecendo. Já Antônio Inácio da Silva entrou no grupo a convite do próprio Virgínio. Segundo Neli, antes mesmo de integrar o bando, ele já tinha no DNA a "índole ruim". Em pouco tempo, Moreno ficou encarregado de fazer os serviços "pesados". Historiadores afirmam que ele era o bom matador. Na conta feita pelo próprio cangaceiro, foram 21 assassinatos.

Neli defende a hipótese de que seu pai tenha matado Virgínio. "Eu acho que ele o matou para ficar com minha mãe. Estou levantando essa possibilidade e já estou mudando a cabeça de muitos historiadores e pesquisadores. O Virgínio era chefe de um grupo e, após a morte dele, meu pai assumiu o lugar de chefia e ficou com Durvalina. Até hoje, ninguém sabe se aquele tiro que vitimou Virgínio partiu da polícia ou de algum cangaceiro. Eu acredito que esse tiro tenha sido do mosquete do meu pai", afirma Neli Conceição.

Mudança para Minas

No fim da década de 1930, o grupo de cangaceiros foi pego pela polícia militar na região da Grota de Angico, em Alagoas, no episódio que ficou conhecido como o massacre que deu fim ao clã de Lampião. Por capricho do destino, Moreno e Durvinha não estavam presentes. Eles haviam tido um filho, e crianças não podiam se reunir com o grupo, porque elas choravam e chamavam a atenção da polícia. Ao saber do tiroteio na madrugada do dia 28 de julho de 1938, e da morte de Lampião, o casal resolveu fugir.

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A foto de Inacinho, Inácio Carvalho de Oliveira, filho deixado por Moreno e Durvinha em Pernambuco, levou Neli Conceição a descobrir a história de sua família (foto: Cláudio Cunha/Encontro/Reprodução)
Eles seguiram para uma cidade chamada Taracaratu, em Pernambuco, para deixar o bebê com o padre do município. O vigário, temendo que o casal fosse encontrado, pediu aos cangaceiros que fugissem, prometendo criar o garoto, carinhosamente chamado de Inacinho. Com roupas novas, um burro e 200 mil réis doados pelo padre, Antônio Inácio da Silva e Durvalina Gomes de Sá partiram sem destino. Subiram o rio São Francisco, até chegar à cidade de Augusto de Lima, na região central de Minas Gerais. Neli conta que os pais andaram por mais de quatro meses durante esse período de fuga. Na cidade mineira, o casal teve outros cinco filhos.

"Papai, como sempre, muito levado, deixou minha mãe com cinco filhos, montou um cabaré e foi viver com as 'mulheres da vida'. Na década de 1960, eu ainda era mocinha nova, vim para Belo Horizonte trabalhar, e papai já tinha abandonado a gente. Com pouco tempo, consegui trazer minha mãe e meus irmãos, mas meu pai ficou para trás. Ele vinha em BH só para passear", lembra a funcionária pública.

História revelada

"Meus pais nunca falaram nada sobre o cangaço. Quando eles chegaram em Minas Gerais, precisavam de um documento. De Antônio Inácio da Silva, meu pai passou a se chamar José Antônio Souto. E minha mãe, de Durvalina Gomes de Sá, passou a se chamar Jovina Maria da Conceição. Os dois fizeram um pacto de jamais contar a história vivida no cangaço", diz a filha Neli Conceição.

Certa vez, Neli, curiosa desde nova, encontrou nos entulhos do pai a foto de um garotinho. "Perguntei para os meus pais quem era aquele menino. Minha mãe explicou que era meu irmão, que ela teve de deixar em Pernambuco, por causa de uma seca, em 1938. Mas, na verdade, não era seca. Era o cangaço que tinha acabado. Meus pais colocaram uma pedra nesse passado, só que eu não coloquei", relembra.

Quando Neli se mudou para Belo Horizonte, ela percebeu que teria a grande chance de encontrar o irmão. Com mais recursos, ligava constantemente para Pernambuco, na tentativa de localizar Inacinho. Entretanto, ela se referia aos pais pelos nomes de José Antônio de Souza e Jovina Maria da Conceição. Obviamente, a busca não tinha sucesso. Ninguém conhecia essas pessoas no Nordeste. Por fim, no dia 28 de outubro de 2005, Neli resolveu dar mais um telefonema. Ela acreditava que, se soubesse do paradeiro do padre Frederico, que havia criado Inacinho, poderia desvendar todo o mistério.

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Os cangaceiros Moreno e Durvinha só revelaram a vida que tiveram no movimento liderado por Lampião em 2005, quando já estavam em idade avançada (foto: Cláudio Cunha/Encontro/Reprodução)


"Para minha surpresa, uma moça me falou que o padre Frederico nunca havia saído da cidade. Ele viveu e morreu lá. Aí, eu comecei a chorar. Ela perguntou o que estava acontecendo, e eu disse que gostaria de saber se ele havia criado um menino pelo nome de Inacinho. Ela então confirmou e me perguntou o que eu era dele. Então, eu disse: 'é meu irmão'. Ela me perguntou: 'qual o nome dos seus pais?'. Eu falei: 'José Antônio Souto e Jovina Maria da Conceição'. Então a moça me disse: 'eu sinto muito te decepcionar, mas o Inacinho que o padre Frederico criou, é filho da cangaceira Durvalina, mais conhecida como Durvinha, e do cangaceiro Moreno, mais conhecido como Morenagem'. Meu mundo veio abaixo", conta Neli.

Ao menos o enigma estava esclarecido. Antônio Inácio da Silva e Durvalina Gomes de Sá confirmaram a história, que foi se espalhando por todo o Brasil. Até então, os historiadores não sabiam que rumo tinha tomado a dupla Moreno e Durvinha. A novidade se tornou fonte de pesquisas, enredo de livros e documentários.

Antônio e Durvalina são protagonistas da obra Moreno e Durvinha: Sangue, Amor e Fuga no Cangaço, do historiador baiano João de Sousa Lima, e do documentário Os últimos Cangaceiros (2011), do diretor Wolney Oliveira. Neli Maria da Conceição não se esquece de quando a verdade veio à tona. "Foi só alegria. Toda a família da minha mãe, que vive no Nordeste, veio a Minas. Porque para eles, meus pais estavam mortos. Mas, para minha surpresa, encontrei meu irmão com vida, e essa linda história dos meus pais", diz, emocionada.

Durvalina Gomes de Sá morreu no dia 28 de junho de 2008, aos 92 anos, e Antônio Inácio da Silva faleceu no dia 6 de setembro de 2010, quando ia completar 101 anos. Os corpos estão sepultados no cemitério da Saudade, mas a história segue viva e será disseminada por gerações e gerações.

Confira abaixo um pedaço do documentário feito entre 1936 e 1937 por Benjamin Abrahão, retratando o dia a dia do grupo de Lampião e Maria Bonita:

 

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