Cadela assiste missa, pega táxi e vira ícone em Ouro Preto

Conheça a história de Branquinha, uma cachorra que deixou sua marca na comunidade do bairro Pilar, na cidade histórica mineira

por Vinícius Andrade 24/04/2015 14:03

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Gabriela Camargos/Divulgação
Todos os dias a cadela Branquinha ouvia o sermão das 7h na basílica do Pilar, em Ouro Preto (foto: Gabriela Camargos/Divulgação)
Ela ainda é lembrada com saudosismo pelos moradores da histórica cidade de Ouro Preto, localizada na região central de Minas Gerais. As missas celebradas pelo padre Marcelo Santiago, na igreja do Pilar, não contam mais com a ilustre presença. O andar vagaroso e tranquilo pelas ladeiras da antiga capital do estado ficou na recordação. Branquinha deixou os moradores do município tricentenário há quase 10 meses, mas os causos da cadela vira-lata que ganhou a simpatia dos moradores estarão sempre vivos nas rodas de prosa. Em uma cidade marcada pelas histórias coloniais, os contos de uma cachorra nada comum também ganharam capítulos à parte.

Não é lenda e tampouco fantasia. Religiosamente, Branquinha estava toda semana na basílica do Pilar, às 7h, para ouvir o primeiro sermão do dia. A passos lentos, reflexo da  idade já avançada e de uma barriga nada discreta, a cadela caminhava solitária rumo à capela. Aos domingos, o compromisso era dobrado. Depois de acompanhar a celebração no bairro Pilar, ela ainda participava da missa na Igreja Bom Jesus de Matosinhos. Tal comportamento ainda é um mistério. A cachorra nunca fora ensinada a frequentar eventos religiosos. "Não existe uma explicação para ela ter comparecido à igreja. Eu fico admirado porque ela sabia quando era domingo. Acho que era uma coisa de instinto mesmo", afirma o padre Marcelo Santiago, pároco da igreja do Pilar.

Gabriela Camargos/Divulgação
Depois de fazer suas atividades diárias, em meio à comunidade, Branquinha voltava para casa de táxi (foto: Gabriela Camargos/Divulgação)


A relação de afeto entre a cadela e os moradores do Pilar durou oito anos. Branquinha era um animal de rua que costumava frequentar as redondezas do bairro, um dos mais tradicionais de Ouro Preto. A constante presença da vira-lata a transformou no xodó da comunidade e lhe rendeu até um lar. A aposentada Ivana Bandeira, de 61 anos, se apegou tanto que acabou adotando a cachorra como membro da família. Branquinha recebeu cuidados especiais, que incluíam dieta balanceada e visitas à clínica veterinária. Ivana ainda sofre ao lembrar-se do mascote. "Estou extremamente triste com a morte da Branquinha. Ainda não estou preparada para contar as histórias dela", diz, emocionada, a aposentada.

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Mesmo com a mudança de endereço, a cadela continuava frequentando a cachaçaria, que fica, agora, na praça Tiradentes, no centro de Ouro Preto (foto: Gabriela Camargos/Divulgação)
Depois das tradicionais missas, a cadela costumava dar uma voltinha no entorno da igreja e se aquietava em uma cachaçaria na praça Tiradentes, no centro de Ouro Preto. Ela já havia se acostumado a passar o tempo na porta do estabelecimento, que, originalmente, se situava no bairro Pilar, ao lado da casa de Branquinha. O comércio mudou de lugar, mas o costume foi mantido. A presença da vira-lata era motivo de festa para funcionários e clientes. "Ela recebia muito carinho do pessoal. Todo mundo queria chegar e acariciá-la. Ela faz falta porque a gente estava acostumada com a presença dela", conta Juliana Mendes, vendedora da loja.

Quando o sol já estava se pondo, e a tarde caía, estava na hora de Branquinha voltar para casa. Prontamente, Ivana fazia uma ligação e, em poucos minutos, lá estava um taxi, em frente à cachaçaria, esperando pela cadela. Com a ajuda do motorista, a ilustre ouropretana era colocada dentro do veículo e seguia feliz em seu último passeio do dia. A cada corrida da cachorra, Ivana desembolsava cerca de R$ 15 – valor irrisório comparado ao prazer de ter a "gorducha" de volta.

Branquinha morreu no dia 8 de agosto de 2014, com cerca de 16 anos. Ela se despediu na praça Tiradentes, onde passeava costumeiramente. Sem sofrimento e aparentemente sem dor, acredita-se que ela tenha morrido por complicações cardíacas. "Lamentamos a morte de Branquinha, porque ela entrou nesse universo de causos de Ouro Preto. A cadela marcou a história dessa cidade, e acredito que outro animal não vai ocupar esse espaço", diz o padre Marcelo.

O xodó do bairro Pilar ainda foi protagonista de um documentário produzido pelo fotógrafo Lucas Godoy. No final de 2012, o curta foi exibido para toda a comunidade no salão paroquial do Pilar.

Para quem deseja conhecer ou matar a saudade da vira-lata, pode assistir, abaixo, o filme, na íntegra:

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