Será que a água vai acabar em 2070?

Uma suposta carta vinda do futuro relata um mundo sofrido e com humanos deformados pela falta desse bem essencial à sobrevivência

por Vinícius Andrade 23/06/2015 08:30

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Com a falta de água, o corpo começa a secar e a pitiose, ou rachaduras na pele, são inevitáveis (foto: Pixabay)
Dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio formam uma das substâncias mais abundantes do planeta. Aproximadamente 75% da superfície terrestre é coberta por ela. Fonte de sobrevivência, a água estaria praticamente extinta da Terra daqui a 55 anos, segundo suposta carta do futuro (leia no final da matéria), que teria sido encontrada no México. O documento foi publicado por uma famosa revista mexicana e relata como a humanidade estaria sofrendo em 2070 devido à falta desse bem natural. Mas, será que esse recurso realmente poderia estar extinto nessa data?

De acordo com o engenheiro sanitarista Hiran Sartori, professor da PUC Minas, tudo não passa de uma especulação. Para ele, é impossível saber como estará a situação da água no planeta em 2070. "A gente pode imaginar como vai ser, mas é possível errar muito, também. A questão ambiental muda com muita rapidez. Ela pode tanto se agravar, como amenizar, em um período muito curto", destaca o especialista.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), num espaço de 100 anos, o consumo de água foi duas vezes maior que o crescimento demográfico. Dois bilhões de pessoas no mundo já sofrem com a baixa quantidade desse recurso, e a previsão é que, em 2025, o número dobre. Dos 75% de água na superfície, apenas 3% é doce, ou própria para o consumo. Dessa parte, apenas um terço está acessível ao homem. As áreas mais atingidas pela escassez de água são a África, Ásia Central e Oriente Médio, regiões que já vivenciam conflitos por esse recurso.

Uma alternativa que já existe é a dessalinização da água do mar. O recurso ainda é pouco viável, devido ao alto custo, mas, conforme Hiran Sartori, pode se tornar mais acessível com o passar do tempo. "Hoje, o uso da dessalinização já é muito superior ao que foi ano passado. É uma opção muito cara, mas, às vezes, quando se torna opção para um número muito maior de pessoas, talvez o custo fique interessante", diz o engenheiro. Israel é um exemplo de país que usa esse recurso para complementar a oferta de água.

A principal preocupação do professor é com as baixas reservas dos lençóis freáticos. "As reservas subterrâneas são de reposição muito lenta. Então, se você consome mais do que elas se repõem, os aquíferos tendem a baixar o nível, ficando abaixo do desejado", explica Hiran Sartori.

Aparência horrível

Conforme diz a suposta carta, a aparência da população sem água é horrorosa. Os corpos ficam desfalecidos, a pele enrugada e coberta por chagas. Independentemente da veracidade do documento, a falta desse bem essencial é um risco à saúde humana.

De acordo com o dermatologista Glaysson Tassara, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia de Minas Gerais, a pele depende muito da hidratação externa e sofre efeitos negativos com a perda de água para o meio ambiente. "Se você estiver em um lugar muito seco, com baixa umidade do ar, vai perder água para o meio ambiente, e a pele vai sofrer as consequências. A partir daí, começa a surgir um problema chamado xerose [secura], e pode evoluir até a pitiose [pele começa a rachar]", aponta o especialista.

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Será que em 2070 a água valerá mais que diamante, devido à sua falta? Para especialista, isso não pode ser previsto (foto: Pixabay)


Confira abaixo o conteúdo da suposta carta do futuro, na íntegra:

Estamos no ano de 2070, acabo de completar os 50, mas a minha aparência é de alguém de 85. Tenho sérios problemas renais porque bebo muito pouca água. Creio que me resta pouco tempo. Hoje sou uma das pessoas mais idosas nesta sociedade.

Recordo quando tinha 5 anos quando tudo era muito diferente. Havia muitas árvores nos parques, as casas tinham bonitos jardins e eu podia desfrutar de um banho de chuveiro por cerca de uma hora. Agora usamos toalhas em azeite mineral para limpar a pele. Antes todas as mulheres mostravam a sua formosa cabeleira. Agora devemos rapar a cabeça para a manter limpa sem água.

Antes o meu pai lavava o carro com a água que saía de uma mangueira. Hoje as crianças não acreditam que a água era utilizada dessa forma. Recordo que havia muitos anúncios que diziam "Cuide da Água", só que ninguém ligava; pensávamos que a água jamais podia acabar.

Agora, todos os rios, barragens, lagoas e mananciais aquíferos estão irreversivelmente contaminados ou esgotados. Antes a quantidade de água indicada como ideal para beber era oito copos por dia por pessoa adulta. Hoje só posso beber meio copo.

A roupa é descartável, o que aumenta demasiadamente a quantidade de lixo; tivemos que voltar a usar as fossas sépticas como no século passado porque as redes de esgotos estão entupidas por falta de água.

A aparência da população é horrorosa; corpos desfalecidos, enrugados pela desidratação, cheios de chagas na pele pelos raios ultravioletas que já não têm a camada de ozônio que os filtrava na atmosfera. Imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia por todos os lados.

As infecções gastrointestinais, enfermidades da pele e das vias urinárias são as principais causas de morte.

A indústria está paralisada e o desemprego é dramático. As fábricas dessalinizadoras são a principal fonte de emprego e pagam com água potável em vez de salário. Os roubos por um balde de água são comuns nas ruas desertas.

A comida é 80% sintética e pela ressiquidade da pele uma jovem de 20 anos está como se tivesse 40. Os cientistas investigam, mas não há solução possível.

Não se pode fabricar água, o oxigénio também está degradado por falta de árvores o que diminuiu o coeficiente intelectual das novas gerações. Alterou-se a morfologia dos espermatozóides de muitos indivíduos, como consequência há muitos meninos com insuficiências, mutações e deformações.

O governo até nos cobra pelo ar que respiramos. 137 m³ por dia por habitante e adulto. As pessoas que não podem pagar são retiradas das "zonas ventiladas", que estão dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam com energia solar, não são de boa qualidade mas pode-se respirar, mas a expectativa de vida média agora é de 35 anos.

Em alguns países ficaram manchas de vegetação com o seu respectivo rio que é fortemente vigiado pelo exército, a água tornou-se um tesouro muito cobiçado mais do que o ouro ou os diamantes.

Aqui em troca, não há arvores porque quase nunca chove, e quando chega a registrar-se uma precipitação, é de chuva ácida; as estações do ano tem sido severamente transformadas pelas provas atómicas e da industria contaminante do século XX.

Advertia-se que havia que cuidar do meio ambiente e ninguém levou a sério.

Quando a minha filha me pede que conte de quando era jovem descrevo o quão belo eram os bosques, falo da chuva, das flores, do agradável que era tomar banho e poder pescar nos rios e barragens, beber toda a água que quisesse, o quão saudáveis eram as pessoas.

Ela pergunta-me:

– "Papai! Porque acabou a água?". Então, sinto um nó na garganta; não posso deixar de sentir-me culpado, porque pertenço à geração que terminou destruindo o meio ambiente ou simplesmente não levamos em conta tantos avisos. Agora os nossos filhos pagam um preço alto e sinceramente creio que a vida na terra já não será possível dentro de muito pouco tempo porque a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível.

Como gostaria voltar atrás e fazer com que toda a humanidade compreendesse isto quando ainda podíamos fazer algo para salvar o nosso planeta terra!

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