Homofobia no futebol tem solução?

São cada vez mais comuns casos de preconceito contra o público e jogadores LGBT no esporte mais popular do mundo; especialista explica o que motiva esse comportamento

por Marcelo Fraga 19/01/2016 08:58

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Lucas Uebel/Grêmio FBPA/Divulgação
Uma péssima mania das torcidas, hoje, é gritar 'bicha' quando o goleiro adversário vai bater um tiro de meta (foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA/Divulgação)
Nos estádios brasileiros, é comum ouvir mais provocações aos adversários do que apoio ao clube do coração. Bastam alguns segundos de atenção aos cânticos das torcidas para que esse fato seja constatado. Entre um ou outro grito de apoio ao time, surgem músicas que incitam a violência ou visam provocar a torcida e os jogadores alheios, especialmente com frases e palavras homofóbicas. Nos últimos anos, por exemplo, tornou-se mania nacional gritar "bicha" quando o goleiro adversário parte para a cobrança de um tiro-de-meta.

Porém, o Brasil não é o único país em que o preconceito está presente no futebol. A Fifa – entidade máxima do esporte – multou, na quarta, dia 13 de janeiro, as seleções do Chile, Argentina, Peru, México e Uruguai porque canções homofóbicas foram entoadas pelas respectivas torcidas em jogos válidos pelas Eliminatórias da Copa do Mundo da Rússia de 2018.

Por que o esporte mais popular do mundo – e que serviria como instrumento de integração entre as pessoas – está ficando manchado por tantos casos de preconceito?

Segundo o psicólogo Samuel Silva, que estuda, há 10 anos, a temática LGBT e comportamento homofóbico, questões culturais estão diretamente ligadas com a homofobia no futebol. "Desde criança, meninos ganham bolas de presente, jogam futebol nas escolas, são estimulados a ter um time do coração. Já com as meninas, esse incentivo é quase ausente", explica. O especialista lembra que esse tipo de atitude reforça a ideia de que o futebol é um esporte de "homem". "Isso mostra o quanto a sociedade é machista. Quando é dito que o futebol é para homem, não é no sentido abstrato, mas, como representação do macho, heterossexual, o ser dominador", completa o psicólogo.

Os cânticos homofóbicos servem, portanto, na visão dos torcedores, como ofensa aos rivais, um meio de inferiorizar o outro, segundo Samuel Silva. E, como os xingamentos preconceituosos já ocorrem nos estádios há muitos anos, as pessoas que frequentam os jogos de futebol os consideram como parte da cultura das arenas espotivas e, até mesmo, acreditam não passar de uma "brincadeira". "É comum as pessoas pensarem dessa forma para se eximirem da responsabilidade pelo preconceito. O que se espera, como consequência de uma mera brincadeira, é a diversão. Mas, os cânticos homofóbicos geram ofensas e opressão. Logo, não podem ser entendidos como brincadeira", analisa Samuel Silva.

Existe solução?

Mesmo com as devidas punições, como a que foi aplicada pela Fifa a algumas federações sulamericanas de futebol, por conta de canções homofóbicas, e com a repercussão na mídia e nas redes sociais, o psicólogo acredita que a homofobia só será erradicada com ações mais eficientes. "As punições só responsabilizam financeiramente, e um foco maior no problema sensibiliza as pessoas. Porém, são necessárias campanhas que ensinem e estimulem maneiras éticas e respeitosas de agir, desde a educação infantil. Não pode haver a imposição de que apenas a heterossexualidade é uma orientação sexual correta, como ocorre hoje. Os clubes e outras entidades ligadas ao futebol são, também, parte fundamental nesse processo", comenta o especialista.

Ele explica que o momento é de "questionar a nossa estrutura social". Um dos caminhos para se combater a homofobia, segundo Samuel Silva, é "possibilitar que as pessoas tenham, desde a infância, uma vida livre de rótulos e independente de questões de gênero, para que elas possam, assim, naturalmente, identificar o que faz mais sentido para suas vidas".

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