Zika: efeitos da doença na gestação podem ir além da microcefalia em bebês

Segundo pesquisadora, criança pode nascer com o tamanho da cabeça normal mas o cérebro menor, por exemplo

por Encontro Digital 09/05/2016 08:39

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Segundo pesquisadora do Ipesq, além da microcefalia, zika vírus pode causar redução do cérebro ou aumento do líquido encefálico (foto: Pixabay)
Um ano depois que o zika vírus começou a circular no Brasil, as dúvidas sobre a doença continuam maiores que as certezas e pesquisadores apontam que os efeitos da infecção durante a gestação podem ir além da microcefalia em bebês.  "A criança pode vir com um cérebro menor, mas a cabeça do tamanho normal ou até maior por acumular muito líquido",  explica a pesquisadora Adriana Melo, especialista em Medicina fetal e presidenta do Instituto de Pesquisa Prof. Joaquim Amorim Neto (Ipesq), sediado em Campina Grande, Paraíba.

Ela foi a primeira pesquisadora a comprovar laboratorialmente que o líquido amniótico de uma gestante que teve o filho com microcefalia estava infectado pelo zika. Em audiência pública na Câmara dos Deputados, Adriana expôs alguns pontos sobre o vírus observados no instituto, criado por pesquisadores renomados e sem fins lucrativos. De acordo com a médica, a identificação de crianças afetadas ainda na gestação pela infecção deve ir muito além da fita métrica, que mede o tamanho da cabeça. Ela explica que os especialistas já usam o termo Síndrome Congênita do Zika, para identificar crianças que foram afetadas pelo vírus ainda na barriga das mães. O Ministério da Saúde também já reconhece o termo.

"Usar só microcefalia dá uma ideia à população de que a cabeça sempre vai ser menor do que o normal. A microcefalia é quando o cérebro é menor, mas a cabeça pode ser menor ou não. O termo também dá a ideia de que esse é o único problema, e não é. Tem bebês com problemas auditivos graves, problemas visuais, convulsões, com dificuldade de deglutição", explica Adriana. Segundo a especialista, o ideal é que o diagnóstico da síndrome seja feito ainda na gestação, para que o parto ocorra em um hospital de referência, já que algumas das consequências da infecção pelo vírus são os riscos para a gestante e para o bebê na hora do nascimento.

Apesar do grupo de pesquisadores do Ipesq ter evidência clínica sobre o comportamento do zika vírus, falta dinheiro para as comprovações científicas. "Em Campina Grande, o instituto tem o apoio da prefeitura, tem parceiros privados, os pesquisadores usam recursos próprios, a Universidade Federal do Rio de Janeiro apoia, mas é tudo na base da amizade, do improviso, não é assim que deve andar uma pesquisa", comenta Adriana Melo.

Quase 500 gestantes que tiveram sintomas de zika já foram atendidas no instituto. Destas, 30 tiveram exame laboratorial confirmando o diagnóstico e quatro tiveram bebês com Síndrome Congênita do Zika. Os pesquisadores estão acompanhando as 30 mães para ver o que há de diferente entre as que tiveram filhos com a síndrome e as que não tiveram.

A pesquisadora ainda levanta a hipótese de que uma pessoa que foi infectada pelo vírus possa vir a ter a reativação da infecção algum tempo depois. "Ainda é tudo na base do achismo, vimos casos isolados.  A gente dizia inicialmente que era melhor ter zika e só depois engravidar. Hoje, a gente não sabe mais, pode ser que sim, mas pode ser que você fique com o vírus e depois ele seja reativado", diz Adriana.  "O nosso papel hoje não é alarmar, é alertar que certas coisas podem acontecer e que a gente tem que ficar de olho, tem que pesquisar, continuamos com mais dúvidas do que respostas", completa.

A doença

Transmitido por um mosquito já bem conhecido dos brasileiros, o Aedes aegypti, o zika vírus começou a circular no Brasil em 2014, mas teve os primeiros registros feitos pelo Ministério da Saúde em maio de 2015. O que se sabia sobre a doença, até o segundo semestre do ano passado, era que sua evolução costumava ser benigna e que os sintomas, geralmente erupção cutânea, fadiga, dores nas articulações e conjuntivite, além de febre baixa, eram mais leves do que os da dengue e da febre chikungunya, também transmitidas pelo mesmo mosquito.

Porém, em outubro de 2015, exame feito pela médica especialista em medicina fetal, Adriana Melo, descobriu a presença do vírus no líquido amniótico de um bebê com microcefalia. Em 28 de novembro, o Ministério da Saúde confirmou que, quando gestantes são infectadas pelo vírus, podem gerar crianças com microcefalia, uma malformação irreversível do cérebro que pode vir associada a danos mentais, visuais e auditivos. Pesquisadores confirmaram que a Síndrome de Guillain-Barré também pode ser ocasionada pelo zika.

De acordo com o primeiro boletim da doença divulgado pelo Ministério da Saúde, em fevereiro e março deste ano, foram notificados 91.387 casos prováveis de infecção por zika no país. A chegada do vírus ao Brasil elevou o número de nascimentos de crianças com microcefalia de 147, em 2014, para pelo menos 1.271 casos de outubro do ano passado a 30 de abril deste ano.

(com Agência Brasil)

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