A criminalidade e a crise econômica, política e social

Comandante do Policiamento da Capital atribui aumento da criminalidade à atual situação econômica, política e social do país e avalia que legislação permissiva causa sensação de impunidade no cidadão e frustração nos policiais

por Marina Dias 25/05/2016 08:22

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Gláucia Rodrigues/Encontro
"A sociedade está cansada de ver esse processo sendo feito: prisão em flagrante, condução e retorno dessa pessoa às ruas", diz o coronel Winston Coelho Costa, comandante da PM de BH (foto: Gláucia Rodrigues/Encontro)
O que é perceptível no dia a dia dos mineiros também é visto nas estatísticas: Minas Gerais e, mais especificamente, Belo Horizonte, estão mais perigosas. O número de crimes violentos nos dois primeiros meses de 2016 aumentou 38% na capital, em relação ao mesmo período de 2015. Os roubos são a maior parte das ocorrências. Foram 8.230 nos primeiros 60 dias do ano (contra 5.852 em janeiro e fevereiro do ano passado), o que representa quase 137 roubos por dia – um a cada 10 minutos. Os furtos não ficam para trás. O aumento do ano passado para este foi de 15%, e a média de ocorrências diárias chega a 184. Segundo o coronel Winston Coelho Costa, comandante da 1º Região da Polícia Militar desde janeiro, o contexto político-econômico atual favorece o aumento da criminalidade. A sensação de insegurança também contribui para a insatisfação da população, que se sente à mercê dos infratores.

ENCONTRO – Por que houve aumento significativo da criminalidade do ano passado para este ano?
CORONEL WINSTON COELHO COSTA – Pela situação econômica, política e social pela qual estamos passando. Temos mais pessoas à margem do recebimento de seu salário mês a mês, e as políticas públicas muitas vezes não atendem a essas pessoas. Além disso, há a degradação dos ambientes – que são frequentados por pessoas com passagem pela polícia, por infratores –, que também leva ao aumento da criminalidade. O centro da cidade, por exemplo, tem número alto de moradores de rua, o que ocasiona pequenos furtos, pequenos roubos. Há também o aumento do consumo das drogas e falta de políticas de recuperação dessas pessoas.

Então a crise é a responsável pelo aumento da violência?
Isso é uma tendência pela qual todas as capitais estão passando. Não é o único fator, mas ele tem contribuído para esse aumento num patamar maior. Outro elemento que contribui é a sensação de impunidade. Recebi um relatório aqui hoje que tem o seguinte dado: das 10 mil pessoas presas, mais de 600 são reincidentes. Então elas foram presas, foram soltas – em face da nossa legislação – e praticaram novamente o crime. Isso é um patamar considerável. Se você conversa com o efetivo que está na rua, eles são capazes de mostrar várias pessoas que eles já prenderam oito, dez vezes. Isso provoca sensação de insegurança por parte da popualação, que vê os infratores retornando às ruas. A sociedade está cansada de ver esse processo sendo feito: prisão em flagrante, condução e retorno dessa pessoa às ruas. Estamos tendo casos de justiça com as próprias mãos. Se a polícia não chega rápido em um local onde cidadãos conseguiram dominar um infrator, eles acabam agredindo esse infrator.

Reduz-se a criminalidade, entre outras coisas, aumentando a ostensividade. Se mais policiais estão nas ruas, por que a criminalidade não diminuiu?
Estamos no início desse processo. Os resultados, vamos obtê-los ao longo do tempo. Assim espero. O que posso garantir é que, se isso não tivesse sido feito, os dados estariam piores. Mas já estamos vendo resultados: em março, dos oito batalhões que têm responsabilidade territorial, dois já tiveram redução criminal. Em abril, vejo a possibildade de quatro terem redução. É um processo.

O sr. faz uma diferenciação entre regiões de maior ocorrência e de maior sensação de insegurança. Pode explicar melhor?
As divulgações na mídia costumam mostrar locais de grande densidade populacional e de trânsito de pessoas, como o hipercentro. Mas também dão atenção a outros locais, em que a sensação de insegurança ocorre mais pela própria divulgação. Atualmente, por exemplo, temos grande demanda no Belvedere, que não é um lugar de maior incidência que tenho, mas as pessoas dali são críticas, têm acesso à mídia, e fazem ampla divulgação. O que isso provoca? Sensação de inseguraça. E essa difusão costuma inclusive chamar atenção do infrator. Outro exemplo é o bairro de Lourdes. Quando saem matérias sensacionalistas, isso gera sensação de insegurança pelos comerciantes e também redução de clientes. Sendo que os proprietários de bares e restaurantes tinham toda uma rede de comércio protegido, boa relação com a companhia local e liberdade de solicitar que viatura passe em determinada hora. Mas nossa obrigação é, então, trabalhar essa sensação de insegurança – que é revertida com a presença policial ostensiva –, e orientar as pessoas a fazer ocorrência etc. No Belvedere, por exemplo, estamos atendendo todos os horários e locais que foram pedidos na última reunião que fizemos. Pode passar lá, a viatura está na Lagoa Seca às seis da manhã.

Como vê a permissão para a Guarda Municipal passar a andar armada?
Com armas, a Guarda passa a ter atuação mais qualificada. Antigamente, a polícia militar tinha que ir ao encontro deles, em situações mais graves, onde eles estavam preservando o patrinômio. Agora não precisaremos mais ir, pois os guardas armados poderão fazer essa atuação. E há a evolução da legislação, ou seja, ao longo do tempo, vão mudando e ampliando as atribuições. É muito difícil pensar em polícia desarmada dentro do nosso país. No âmbito das instituições, não há dúvida ou confusão entre as polícias e a guarda municipal.

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