Quanta burrice por metro quadrado!

por Claudio de Moura Castro 10/01/2012 10:17

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Impelido pela sua curiosidade, inteligência, criatividade e iniciativa, o Homo virou sapiens. Isso porque não para de fuçar e inventar. Criamos a roda e hoje temos o BMW. Domesticamos o fogo e hoje temos os microondas.

 

Esse assombro leva à impressão de que o engenho humano se volta para todos os problemas e sempre encontra boas soluções. Tolo engano.

 

Convivemos no cotidiano com burrices e problemas triviais não resolvidos ou cujas soluções são adotadas a conta gotas. Poucos se dão ao trabalho de olhar em volta e verificar que sofrem com problemas simples. De fato, promiscuamente convive a inteligência fulgurante com a burrice mais bocó. As besteiras estão aí e poucos notam, protestam ou consertam. Para demonstrar essa tese, convido os leitores para uma volta dentro de casa, onde passamos a metade das nossas vidas.

 

Comecemos com os calores e frios. Conforto térmico é essencial, mas a arquitetura não parece tomar conhecimento disso. Nos trópicos, construímos seguindo a receita dos países frios, com vidro abundante, como se faz uma estufa. Diante do calorão, colocamos ar condicionado, mas o isolamento é tão ruim que, segundos após desligado, já volta o calor. Parentes dos desconfortos térmicos estão os acústicos, seja no isolamento inadequado do exterior, seja no excesso de superfícies lisas, criando reverberações desagradáveis.

 

Entreabre minimamente uma janela que prometia ser “maxim-air”. Já a de correr, do meu quarto, produz uivos lancinantes ao abrir, acordando quem dorme. Isso porque não pode ser desmontada para lubrificar os rodízios.

 

Vejam a incompatibilidade de gênios. Pedreiros descobriram que sinuosidades no reboco e ângulos quase retos não são visíveis para quem paga a conta. Mas móveis de embutir, pela lógica de fabricação, têm superfícies rigorosamente planas e ângulos retíssimos.

 

Sentemo-nos na sala, para pensar no assunto. O desenho das cadeiras reflete uma época vitoriana em que conforto era confundido com fraqueza de caráter. Sofre a coluna e a bunda. Os sofás e poltronas, às vezes, são mais confortáveis, mas por que não têm uma capa que possa ser retirada e jogada na máquina de lavar?

 

O verniz tradicional da janela está pelando, terá que ser pacientemente raspado e lixado, antes de receber nova demão. Se fosse tratada com óleo, bastaria pincelar por cima.

 

Os móveis de madeira laminada são baratos e podem ser bonitos. Mas as quinas sujeitas a abrasão e golpes ficam horrorosas, pois não foram reforçadas com lâminas mais espessas (como se faz na Escandinávia).

 

Passemos ao escritório, depois de notar um quadro caríssimo na sala. O computador é uma catástrofe de desenho industrial (exceto se for Apple). Se estiver ligado, a interface é outro desastre estético. Muitos de nós passamos mais de oito horas em frente à sua tela e, apenas de relance, contemplamos o quadro caro da sala. A beleza não deveria estar onde nosso olhar repousa por mais tempo?

 

O capítulo da iluminação é lúgubre. A luz do escritório não é suficiente para a boa leitura. Na iluminação da mesa de jantar falta temperamento e charme. E a do quarto, mais parece sala de espera de serviço público. Em clara regressão tecnológica, substituímos uma base de tomada que aceitava dois tipos de pino (chato e redondo) por outra que só aceita um. Aliás, por que em raros quartos se pode acender a luz, tanto da porta quanto da cama?

 

Soa o alarme do meu relógio digital. Não sei desligar, pois as instruções vieram erradas da fábrica e os controles são diferentes em todos os relógios que possuí. Quando começo a decorar, quebra-se o relógio.

 

Que tal uma olhada na cozinha? É páreo árduo para o banheiro, na competição por mais burrices por metro quadrado – bem como risco de acidentes.

 

O queimador do fogão, na regulagem mínima, é forte demais para manter uma fervura. E na máxima, é insuficiente para uma boa fritura.

 

Com certeza, quem pilota a cozinha sabe que louça molhada seca sozinha, mas prefere esfregar nela o pano de prato. Mas não sabe que ferver água sem tampa na panela gasta o dobro do gás. Entendeu erradamente que faca cega e pequena é mais segura. Na verdade, quanto maior e mais afiada, menor o risco de acidentes, pois exige menos esforço e não resvala.

 

Foi estimado: quem cozinha todos os dias caminha 250km por ano, somente nessa faina. Se a localização do fogão, pia, geladeira e alimentos for repensada, a andança e o tempo se reduzem em um terço.

 

Há uma lei da natureza prevendo que o cano vai vazar, pouco depois de sair de linha o modelo de azulejo usado. Por que insistimos em construir paredes que duram séculos e nelas embutimos canos que duram poucos anos? Ou seja, fazemos casas inconsertáveis. Meus amigos engenheiros civis já não aguentam minhas reclamações contra lajes que vazam. Mas passeando em Londres, sob chuva inclemente, noto que as casas de meio século são poucas e as de meio milênio são muitas – em ambas, os telhados não vazam.

 

E as embalagens? Abrir docinhos, geleias e outras guloseimas desafia a inteligência dos glutões.

 

Na prática, acaba-se conseguindo, mas jamais sem lambuzar as mãos. Já propus que os presidentes das empresas deveriam ser obrigados a abrir, em programa de televisão, as embalagens de todos os seus produtos. Suas Excelências do Legislativo, se criassem uma tal norma, estariam prestando mais serviços à sociedade do que aprovando leis sobre o “Dia da Feijoada”.

 

 

 

Vamos para o outro epicentro da burrice, o banheiro. A água do boiler é mantida quente demais, desperdiçando energia, pela maior dissipação de calor. Sem falar no risco de queimaduras.

 

Como abrir, com a mão ensaboada, a maçaneta lisa do chuveiro? Ou a tampa esférica e igualmente lisa do xampu? (E se for xampu de hotel, é preciso sair do chuveiro e ir procurar os óculos, para ver se é não é creme hidratante ou condicionador).

 

Dá trabalho regular as maçanetas da água fria e quente. Logo, por preguiça, ensaboamos com o chuveiro aberto. Só agora começa a aparecer uma terceira maçaneta, fechando e abrindo a água já misturada. Ficando fixa a temperatura escolhida, fica cômodo economizar água.

 

Se fosse mostrada uma banheira para um marciano e ele tivesse que adivinhar como seria um humano, somente estudando o formato da cuba, provavelmente, desenharia o corcunda de Notre Dame.

 

E o risco de escorregar nas superfícies lisas do banheiro? Por que só banheiros de pessoas desvalidas têm onde se segurar?

 

Se há no banheiro uma balança portátil, é preciso um binóculo para ler o peso, ou chamar um ajudante, pois os numerinhos não são para nossas idades.

 

Tratemos de aspectos prosaicos. Desde os romanos, o banho pode ser um prazer sensual, além de suas funções mais óbvias. Mas a proximidade de uma latrina destoa do clima almejado. Por que não despachar para local mais recatado esse aparato conveniente, mas pouco inspirador?

 

Aliás, o sanitário comum é uma tecnologia atrasada e glutona em água. É quase certo que a latrina de um Boeing foi objeto de mais gastos de pesquisa e desenvolvimento do que todas as latrinas do mundo reunidas.

 

No meu antigo escritório, o chuveirinho sanitário vazou, provocando uma inundação nos arquivos do andar de baixo. Como é possível que um objeto simples e de tecnologia centenária seja tão pouco confiável?

 

Essa ladainha de pequenas e grandes burrices leva às seguintes reflexões:

 

Em primeiro lugar, precisamos abrir os olhos para a existência dessas falhas e burrices.

 

Em segundo lugar, por que tolerar desconfortos, custos mais altos e inconveniências resultantes do mero fato de que ninguém se deu ao trabalho de identificar, pensar e resolver o problema? Aliás, todos os exemplos oferecidos têm soluções baratas ou que permitem economizar dinheiro. Mas antes que o capitalismo seja acusado de mais uma vilania, em minhas múltiplas idas ao mundo soviético, vi que a situação era infinitamente pior.

 

Em terceiro lugar, por que não ser engenheiros desse fascinante desafio de encontrar saídas para os problemas do cotidiano? É parte dos prazeres e realizações da vida decifrar esses pequenos enigmas e encontrar soluções para eles. É porque muitos fizeram isso que nossa espécie chegou tão longe. Ouçamos Bruce Mau: “O prazer é o motor do crescimento. Explore a liberdade de lançar-se com seu trabalho em um experimento maravilhoso, com suas iterações, tentativas e erros. Repita-se. Se você gostou, faça de novo. Se não gostou, faça de novo. Erre muito”.

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