Cena cultural do Barreiro tem participação popular ativa

O bairro vive um momento de renovação cultural, a partir da ação de uma série de coletivos, que movimentam a região e fazem política a partir da cultura

por Juliana Afonso 18/03/2014 11:10

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Eugênio Gurgel
O Centro Cultural Lindeia e Regina foi criado em 2003, através do orçamento participativo, mas ainda possui uma estrutura de atendimento muito reduzida (foto: Eugênio Gurgel)
As palmas que contagiam o público durante os movimentos culturais do Barreiro são ouvidas cada vez mais longe. Eventos como o Sarau de Periferia e a Batalha da Pista estão movimentando a região e se tornando referência para artistas de outras áreas da cidade. A última edição da batalha de rappers recebeu mais de 500 pessoas. O número surpreende. “Eu mesma não acreditava no tanto de gente que estava ali. Isso é ótimo, pois queremos que o bairro seja um ponto de acesso como hoje é o centro da cidade, e que as pessoas falem ‘hoje eu vou ao Barreiro porque está acontecendo uma coisa muito doida lá’”, afirma a estudante universitária Isabela Alves.

Isabela e mais dois amigos criaram o Coletivo Cabeça Ativa, que tem como objetivo movimentar a cena cultural local, a partir de um duelo de rimas de rappers na pista de skate do Barreiro. O começo não foi nada fácil. Eles enfrentaram algumas dificuldades como a falta de equipamento de som, que até hoje é emprestado por apoiadores. “Começamos a usar a pista de skate como uma maneira de mostrar às pessoas da região a importância de frequentar aquele espaço”, explica a estudante. A Batalha da Pista, que completa um ano em maio, está consolidada: acontece toda semana e já agrega outras atividades, como sarau de poesia e ensaio de BBoys.

Esporte, dança, música e literatura. Esses são alguns dos elementos da retomada dos movimentos culturais no Barreiro – uma regional afastada geograficamente do centro de Belo Horizonte e que nem sempre é lembrada pelo poder público. O momento conta com uma característica interessante: vem sendo estruturado por coletivos locais. São moradores da região que se organizam em grupos e estão dispostos a pensar, ou repensar, a realidade local e oferecer propostas que dialogam com seu público.

Pensar em cultura no Barreiro nunca foi uma tarefa fácil: a regional é composta por quase 300 mil habitantes, organizados em 64 bairros. “A gente não pode falar em cultura. Tem que falar em culturas. Existem muitos artistas na região e muitas formas diferentes de entender isso”, diz Isabela Alves.

Eugênio Gurgel
A estudante Isabela Alves faz parte do Coletivo Cabeça Ativa (foto: Eugênio Gurgel)
Enquanto os conjuntos habitacionais e as favelas têm uma conexão forte com a cultura do rap, os bairros que compõe o Barreiro de Baixo têm uma grande ligação com o rock e o sertanejo de raiz. Isso sem contar as festas de congado, a folia de reis e as atividades de grupos como a Associação de Teatro de Bonecos Origens e a Associação de Capoeira Cultural e Social Santa Rita. “Quando se fala em Barreiro, parece que não existe nada. Isso é mentira. A questão é que alguns movimentos carecem de regularidade e visibilidade”, conta o dramaturgo e professor de literatura, Rogério Coelho.

Ele é um dos idealizadores do Coletivoz, grupo que desde 2008 produz o Sarau de Periferia, encontro mensal que reúne artistas e comunidade para ler e ouvir poesias. “É um movimento de resistência cultural”, completa Rogério. O Coletivoz foi inspirado no Cooperifa, grupo que realiza saraus literários na periferia de São Paulo há 12 anos. Entre uma poesia e outra, textos de Drummond e Nietzsche se misturam a criações locais. Os textos apresentados no sarau normalmente trazem questões ligadas ao contexto de quem vive na região. “O movimento que estamos criando é um grande eco de difusão literária que não segue nenhum padrão, muito menos comercial. Tem muito a ver com essa disposição da oralidade e do encontro entre as pessoas”, explica.

Em 2003, por meio do Orçamento Participativo, a população votou pela implantação de centros culturais no Barreiro. Foram três: o Lindeia e Regina, o Urucuia e o Vila Santa Rita. A ação se deu para cumprir com a política de descentralização cultural do então prefeito Fernando Pimentel. Atualmente, porém, todos eles atuam com um número de funcionários reduzido e com uma verba incapaz de custear as demandas. “Precisamos de mais investimento para divulgar, para dar cursos, para capacitações”, conta a gerente do Centro Cultural Lindeia e Regina, Camila Goulart.

O conselheiro titular da sociedade civil da regional Barreiro, Walter Dias, já levantou um debate para que seja aprovado o mesmo número de projetos por regional na Lei Municipal de Incentivo à Cultura. “Não temos que pensar no modelo de cultura do centro e simplesmente levar pra periferia. Precisamos discutir a forma de se fazer cultura na periferia. Senão, vamos ter sempre um modelo de cima para baixo”, conclui.

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