[an error occurred while processing this directive] "O escafandro só dá para um" - Cultura

"O escafandro só dá para um"

Conheça o fotógrafo Walter Firmo, um dos artistas convidados para ministrar workshops no Foto em Pauta - 4º Festival de Fotografias de Tiradentes, que fala sobre a arte da fotografia

por Cláudio Cunha 28/03/2014 12:39

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Cláudio Cunha
O fotógrafo Walter Firmo, sobre as mulheres na fotografia: "Elas devem colar a sua armadura e ir para a luta sem frescura" (foto: Cláudio Cunha)
Walter Guimarães da Silva Firmo ou simplesmente Walter Firmo. É uma daquelas pessoas que você se deixa levar pela qualidade da conversa e, principalmente, pela capacidade de síntese e presteza quando o assunto é fotografia. Dono de um respeitável currículo jornalístico, que inclui passagens pelas maiores redações do Brasil, um prêmio Esso pela série de reportagens Cem Dias na Amazônia de Ninguém e sete prêmios no concurso internacional da Nikon, ele ainda possui quatro livros publicados sobre o tema.  

Este simpático carioca de 76 anos, natural da cidade do Rio de Janeiro e aperto de mão firme, está em terras mineiras. Mais precisamente na quase tricentenária Tiradentes, cidade histórica distante 120 quilômetros de Belo Horizonte, e que este ano sedia a 4ª edição de seu festival de fotografia, o Foto em Pauta.  Apesar da agenda apertada, Firmo concedeu entrevista ao portal da Revista Encontro, e falou sobre sua experiência de mais de cinquenta anos na  fotografia e sobre sua tipificação do trabalho do fotógrafo, que divide em três categorias: o ladrão, o engenheiro e o invisível.

Em princípio, alguns desavisados poderiam estranhar Walter rotulando um fotógrafo de "ladrão", mas a verdade é que ele faz essa associação – citando a ação de um fora-da-lei – a partir da expertise ou oportunismo para se conseguir o que planeja, ou seja  "roubar" algo, o que, no caso do fotógrafo, seria o “furto” de um instantâneo sem prévio planejamento ou autorização dos personagens flagrados. De acordo com Firmo, o fotógrafo "engenheiro" é aquele profissional da imagem que trabalha os planos de forma harmoniosa e calculada, verificando e prevendo os resultados de suas fotos. Enquanto o fotógrafo “invisível” nada mais é que uma mistura dos outros dois: é aquele capaz de estar no lugar certo na hora certa, sem ser notado por seus fotografados e nem abrir mão da composição elaborada.

Ao ser questionado sobre qual é o novo lugar do fotojornalista nos dias de hoje, Firmo diz que é o mesmo de seu tempo, quando ainda trabalhava nas redações. “O que existe hoje é uma indefinição do que é ser fotojornalista. Isso se divide em dois mundos distintos: o das redações dos jornais diários e o mundo das revistas”, explica. Ele avalia que alguns jornais não querem que o fotógrafo conduza uma história com suas fotos, ou desenvolva uma ideia mais elaborada, como ocorre nas revistas. Tudo devido à agilidade da informação a ser entregue. Mesmo que a criatividade desejada apareça em alguns jornais de grande circulação no país – o que o deixa contente –, Firmo acha que existe uma desqualificação insistente da atividade criativa, na maioria das redações. Segundo ele, a condição para se viver de fotografia no Brasil está mais complicada nos dias de hoje, causada, em grande parte, pelo volume de profissionais e a má qualificação dos que estão chegando no mercado. “Os espaços estão lotados. Muita gente se considera fotógrafo pelo simples fato de ter uma câmera. Não dá! O escafandro só dá prá um! É muita gente para pouco espaço”, reclama.

Walterfirmo.com.br/Reprodução
Obras de Walter Firmo: ele acha que é preciso enxergar a fotografia como arte e não como mera reprodução do cotidiano (foto: Walterfirmo.com.br/Reprodução)


Apesar de estar afastado das redações desde a década de oitenta, Walter Firmo descreve a tentativa de alguns fotojornalistas de se enveredarem na busca da imagem adequada ao seu espaço de trabalho, mesmo sem respaldo editorial e com pautas apressadas. Ele diz que os atuais fotógrafos estão mais bem preparados por uma condição intelectual mais desenvolvida, em comparação a seu tempo, quando atuava. Porém, estão mais “frios” e afoitos no que diz respeito à sensibilidade natural e à observação dos fatos. A tentativa de tornar o fotojornalismo mais “digestivo” ao leitor implica, segundo Firmo, na condição de uma entrega pessoal por parte do fotógrafo que não mais atende a seus anseios criativos. “Eu me cansei de ser fotojornalista porque o meu tipo de olhar e a minha fotografia, no jornal, passaram a ser muito pouco exaltados. Nunca fui um homem de registro [referindo-se às fotografias do cotidiano]. Sou mais ligado ao aspecto  estético”, afirma. Ele sempre quis pensar a foto como um arquiteto pensa uma obra; conceituando uma modelagem fotográfica que pudesse ser admirada pelo público.

Não voltar às redações foi uma escolha deliberada. Walter Firmo queria alçar novos rumos em sua carreira, embora sentisse saudade do frenesi diário de um jornal, e optou por transmitir sua experiência: tornou-se professor e ministrou aulas de fotografia em diversas entidades. Ele também foi diretor do Instituto Nacional da Fotografia, órgão ligado a Fundação Nacional de Arte – convite que veio do ex-ministro da cultura Celso Furtado. Esse instituto deixou de existir na era Collor, na década de 1990.

Seduzido pelas montanhas e pela luz ímpar das cidades interioranas mineiras, como ele mesmo diz, Firmo destaca a docilidade e a brejeirice hospitaleira do mineiro. E nessa seara, ele exalta o importante papel da mulher na fotografia, como delicada e sensível, e ao mesmo tempo, forte no embate. Porém, é categórico quando diz que a mulher não deve encarar o fotojornalismo como quem faz um crochê ou a comida para o marido e os filhos: “Elas devem colar a sua armadura e ir para a luta sem frescura”.

Para Walter, o futuro da fotografia está na criatividade. O preceito de se ter uma câmera cheia de recursos em nada tira o brilho da ideia e da capacidade de se pensar a fotografia como meio de expressão. Isso porque ele já disse, em outras entrevistas, especialmente na fase de transição entre os dois processos de captura de imagem – a película e o sensor eletrônico –, que a fotografia digital não existia. Aliás, nesse universo, Walter Firmo acredita que o profissional não deve ser escravizado pelos recursos do equipamento, pois observa neles um aliado prático que veio para melhorar a fotografia. “Eu sou um criativo. A imaginação da criatividade está em mim e não na máquina”, conclui.

Livros publicados por Walter Firmo:

  • Antologia Fotográfica (1989)

  • Nas Trilhas do Rosa (1996)

  • Paris: Paradas Sobre Imagens (2005)

  • Brasil e Imagens da Terra e do Povo (2009)

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