Documentário mostra atuação de Aracy Guimarães Rosa na Segunda Guerra Mundial

Dirigido pelo ator Caco Ciocler, filme retrata a história da brasileira que casou com o escritor João Guimarães Rosa e ajudou vários judeus a fugirem da perseguição nazista e emigrarem para o Brasil

por João Paulo Martins 24/02/2015 15:22

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O documentário Esse Viver Ninguém Me Tira, dirigido por Caco Ciocler, conta a história de Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa e como ela se tornou o "anjo de Hamburgo" (foto: Cine Group/Divulgação)
"É um filme também sobre mim". Assim o ator e diretor Caco Ciocler fala sobre como influenciou e se deixou influenciar pelo documentário Esse Viver Ninguém Me Tira, que foi exibido nos principais festivais de cinema brasileiros em 2014, e que trata da história de dona Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa. Ela trabalhava no setor de passaportes do consulado brasileiro na cidade de Hamburgo, na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial, e ajudou dezenas de judeus a fugirem dos horrores do regime nazista, emitindo vistos falsos que permitiam a viagem ao Brasil.

A segunda esposa do escritor mineiro João Guimarães Rosa – eles se conheceram no consulado e se casaram no México, anos depois – ficou conhecida como o "anjo de Hamburgo" e é a única brasileira a ter o nome incluído no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Israel.

O documentário Esse Viver Ninguém Me Tira, dirigido por Caco Ciocler, é resultado de um projeto que já vinha sendo produzido por Alessandra Paiva, que conheceu a história de dona Aracy em 2011 e decidiu ir atrás da história da brasileira que arriscou seu trabalho e mesmo sua vida para ajudar desconhecidos – o Brasil do presidente Getúlio Vargas tinha uma política antissemita e não permitia a entrada de judeus até 1942. "Eu aceitei o convite de dirigir o documentário porque queria me exercitar como diretor de cinema. Claro que aos poucos a minha relação com essa história foi tomando outros rumos e vi nascendo em mim um profundo sentimento de gratidão a essa mulher", conta Ciocler.

O ator da Rede Globo é judeu e explica que a religião fez diferença no andamento do longa, especialmente com relação às histórias que coletou e que coincidiam com suas próprias vivências. "Na verdade o filme não é apenas sobre dona Aracy. No sentido jornalístico é um documentário bastante fraco. Mas não me interessava fazer um documentário jornalístico. Até porque dona Aracy não falava sobre o assunto e não deixou nenhum documento sobre sua atividade subversiva no consulado. O filme fala sobre minha busca, enquanto artista e judeu, pela sua história e suas motivações", diz Caco Ciocler.

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O ator e diretor Caco Ciocler deixou se envolver com o documentário: "O filme fala sobre minha busca, enquanto artista e judeu, pela sua história e suas motivações" (foto: Cine Group/Divulgação)


Em 2015 o mundo lembra os 70 anos do fim da Segunda Guerra e da libertação do campo de concentração de Auschwitz. Questionado se a estreia do documentário no início deste ano foi proposital, para lembrar essa data, o ator e diretor explica que foi uma "feliz coincidência". "Obviamente não prevíamos isso, até porque ele demorou quase quatro anos para nascer. Mas, claro que ele revela e escancara a absoluta falta de reverência brasileira a seus heróis e traz o exemplo de alguém que simplesmente optou por se posicionar de acordo com seu julgamento moral num momento bastante propício. Não só pelos 70 anos de Auschwitz, mas pelo momento moralmente confuso que vivemos hoje no Brasil e no mundo", comenta.

Outro documentário

Em 2013, as diretoras Adriana Jacobsen e Soraia Vilela lançaram o documentário Outro Sertão, que relata a atuação do escritor João Guimarães Rosa e sua esposa Aracy Moebius na Segunda Guerra Mundial, especialimente as ações realizadas dentro do consulado em Hamburgo, para facilitar a emigração de judeus da Alemanha nazista. Porém, esse filme foi duramente combatido pelas herdeiras do escritor mineiro, e praticamente não foi exibido em nosso país.

Caco Ciocler chegou a conversar com as diretoras, que liberaram o uso de uma entrevista de Outro Sertão em Esse Viver Ninguém Me Tira, já que todas as pessoas que foram ajudadas por dona Aracy faleceram antes da produção do documentário dirigido pelo ator global. Além disso, ele decidiu não seguir o foco do filme de Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, ou seja, não tratar do romance entre João Guimarães Rosa e Aracy Moebius. "Essa impossibilidade de falar do amor dos dois foi bastante assustadora e triste no início, porque corríamos o risco de não ter material para sustentar o filme e, também, porque é uma pena que as pessoas não possam ter acesso a essa beleza. Mas, isso acabou nos obrigando a tirar Aracy do lugar de coadjuvante do marido famoso. Sem esse impedimento, corríamos o risco de, sem querer, tirarmos dona Aracy de seu merecido lugar de protagonista", explica.

Com isso, ele conseguiu fugir de possíveis retaliações das herdeiras de Guimarães Rosa, e produzir uma obra com um olhar diferenciado da atuação de dona Aracy na ajuda aos judeus – o que é pouco conhecido pelos brasileiros. "O filme foi sendo construído aos poucos. Cada novo depoimento jogava o filme em uma nova direção. Cada crise jogava o filme em uma nova direção. Nada foi premeditado. Meu esforço e trabalho foram a difícil tarefa de ser fiel àquilo que sinceramente me fazia sentido e me tocava como leme do trabalho", completa Caco Ciocler.

Confira abaixo o trailer do documentário Esse Viver Ninguém Me Tira:

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