Em bairro pobre de Luanda, dançar kuduro é esperança de uma vida melhor

A capital da Angola vive e respira esse estilo de dança alegre, que não discrimina ninguém, e ainda é uma ferramenta de sonho para os mais jovens, que conseguem se afastar da violência e das drogas

04/05/2015 13:34

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Osmose Filmes/Reprodução
A dança do kuduro é uma forma de jovens angolanos terem esperança de um futuro melhor (foto: Osmose Filmes/Reprodução)
Entre lixo amontoado em ruas de terra batida e água putrificada, no bairro de Sambizanga, que fica região metropolitana de Luanda, capital da Angola, dançar kuduro corre no sangue, mas é, agora, também para os meninos do bairro uma esperança para o estrelato e para uma vida melhor.

"Eu digo que nasci para ser uma estrela. Isso é que me cativa, é que me faz ser um músico, feito no Sambizanga", conta à Agência Lusa "Papai Kiala", menino de 17 anos, nascido e criado com a avó naquela região Luanda, onde brincar – algo que acaba cedo – é na rua, entre garrafas de plástico, latas e um cheiro nauseabundo de lixo por recolher, não se sabe bem desde quando.

Este é considerado um dos berços do kuduro, dança e música urbana angolana, envolvendo por vezes letras de intervenção social, que nasceu em Luanda durante a guerra civil que assolou o país até 2002. Já no Sambizanga, multiplicam-se dançarinos, cantores e grupos.

A projeção crescente do estilo, muito à imagem do hip-hop, mas que já é imagem de marca de Angola, cria oportunidades para alguns e a ilusão para muitos.

Na "rua do Mantorras", onde vivia o antigo jogador do Benfica, de Portugal, as casas são de construção frágil, assentadas em blocos simples, sem água potável e só às vezes com eletricidade, nem que seja 'puxada' do vizinho. É assim que vivem milhares de pessoas. Por ali, todos procuram o mesmo estrelato no futebol ou de outros conhecidos kuduristas: fuga para uma vida com dois ou três dólares por dia. "Papai Kiala" compõe as letras, inspiradas nas dificuldades do dia a dia ou nas mulheres de sua região; canta e dança o kuduro, enquanto insiste que será uma estrela, num dia não muito distante.

YouTube/Reprodução
(foto: YouTube/Reprodução)


"Tenho o dom e tenho força", afirma, sem mostrar qualquer dúvida num rosto coberto de suor, após horas de ensaios nas ruas do Sambizanga – ele é dançarino de kuduro desde os sete anos. "Inspiro-me nas minhas irmãs, nas zungueiras [mulheres que trabalham vendendo nas ruas], nos polícias, nos meninos de rua. E quero levar o meu kuduro a todo o mundo", garante, enquanto segura o telefone celular que reproduz a batida que lhe serve de base à dança.

No bairro Sambizanga, dança-se junto a uma improvisada parada de ônibus, no meio de uma poça de água parada que cobre toda a rua principal ou num armazém abandonado, transformado numa espécie de salão de festas de kuduro. Crianças, de cuecas e descalças, correm e brincam pelo bairro, com uma alegria natural, alheia à realidade, por entre os primeiros passos na dança.

Confira abaixo a música que levou o kuduro para o mundo (mais de 670 milhões de visualizações no YouTube:


"Herança"

No bairro, os jovens kuduristas dividem-se por grupos, orientados pelos mais velhos.

De certa forma nervosa, Olga Francisco, a "mãe grande" do "staff Pombinhas" (grupo de dança), explica à Agência Lusa que, hoje, mais do que uma dança, o kuduro é uma "cultura" do bairro. Mas também uma esperança de futuro. "Ao mesmo tempo, é uma forma de afastar a delinquência. E acho que tem resultado. A maior parte dos jovens já dança kuduro e não se mete noutros problemas", explica a mulher, em meio a um ensaio que reúne, como é hábito, jovens de todas as idades, entre coreografias quase psicodélicas que testam o olhar mais desprevenido.

"Sinto-me bem quando danço, é uma adrenalina muito grande", afirma Olga, que aos 36 anos lidera um grupo de dois kuduristas e doze dançarinos que se inspiram nos problemas da rua para as novas criações. É que pelo Sambizaga, bem ou mal, todos dançam, cantam e sonham até com o estrelato. Mas, sobretudo, divertem-se, freneticamente, como se não houvesse amanhã.

(com Portal EBC e Agência Lusa)

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