Enredo da Imperatriz Leopoldinense não é bem visto por agricultores e pecuaristas

Escola de samba do Rio de Janeiro levará à Sapucaí em 2017 um enredo sobre desmatamento e a história do povo indígena

por João Paulo Martins 10/01/2017 10:22

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Imperatrizleopoldinense.com.br/Reprodução
Samba-enredo da escola Imperatriz Leopoldinense, do Rio de Janeiro, fala sobre sofrimento dos índios e desmatamento, e está causando revolta do setor de agronegócios no Brasil (foto: Imperatrizleopoldinense.com.br/Reprodução)
"O belo monstro roubas as terras dos seus filhos, devora as matas e seca os rios. Tanta riqueza que a cobiça destruiu. Sou o filho esquecido do mundo, minha cor é vermelho de dor, o meu canto é bravo e forte, mas, é hino de paz e amor", diz a letra do samba da Imperatriz Leopoldinense, que traz como enredo para o Carnaval 2017 a luta dos povos indígenas contra o desmatamento e a perda de terras. Apesar de ser um tema importante e bem conhecido, ele está gerando revolta de agricultores e pecuaristas no Brasil.

"A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu [ABCZ] repudia, com indignação e veemência o samba-enredo e as demais peças publicitárias divulgados pela escola Imperatriz Leopoldinense para o desfile de Carnaval de 2017. Ao criticar duramente o agronegócio, o grupo mostra total despreparo e ignorância quanto à história brasileira e à realidade econômica e social do país", diz, em nota oficial publicada em seu site, a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu. Além dela, outras instituições ligadas ao agronegócio também estão reclamando do enredo escolhido pela escola de samba carioca.

Uma das entidades que está encabeçando a reação contra a Imperatriz Leopoldinense é a Sociedade Rural Brasileira (SRB). "O objetivo da entidade é proteger o setor perante o público em caso de um ataque à imagem à atividade rural e aos proprietários de terra. A iniciativa, encabeçada por Gustavo Diniz Junqueira, presidente da SRB, deve evitar que mensagens equivocadas sobre o setor ganhem as ruas motivadas pelo enredo de uma escola de samba do Rio de Janeiro, que faz duras críticas ao agronegócio ao defender a cultura indígena e a luta por terras", afirma a SRB em publicação feita no Facebook. Quem também não gostou nada do enredo da escola de samba carioca é a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando e a Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador.

Porém, apesar das reclamações provenientes das entidades que representam as diferentes áreas do agronegócio no Brasil, o carnavalesco da Imperatriz, Cahê Rodrigues, fez questão de justificar a escolha do tema e deixou claro que não se trata de uma agressão aos empresários ruralistas do país. "Quando a Imperatriz Leopoldinense decidiu levar para a avenida o enredo Xingu, o Clamor que Vem da Floresta, assumiu o desafio de apresentar muito mais que um desfile voltado à cultura e às tradições das etnias indígenas que ocupam o coração do Brasil. [...] Quando decidimos falar sobre o índio e, em especial, sobre a importância da reserva do Parque Indígena do Xingu, nosso objetivo não é outro senão fazer um alerta sobre os riscos que ainda ameaçam as 16 etnias que ali resistem e, indiretamente, muitas outras espalhadas pela Amazônia. [...] Nunca foi nossa intenção agredir o agronegócio, setor produtivo de nossa economia a quem respeitamos e valorizamos. Combatemos sim, em nosso enredo, o uso indevido do agrotóxico, que polui os rios, mata os peixes e coloca em risco a vida de seres humanos, sejam eles índios ou não, alem de trazer danos em alguns casos irreversíveis para nossa fauna e flora", esclarece Cahê por meio de publicação feita no Facebook.

O carnavalesco fez questão de usar como exemplo o enredo de 2016 que a Imperatriz levou para a avenida e que falava, justamente, sobre a vida rural brasileira – era uma homenagem à música sertaneja, em especial à dupla Zezé di Camargo e Luciano. "Para falar de sertanejos, também mostramos a lida do homem do campo e da importância da agropecuária do centro-oeste brasileiro no abastecimento de alimentos para a nossa população. A mão que revolve a terra é a mesma que ponteia a viola e traz à mesa os alimentos que garantem a nossa sobrevivência", diz Cahê Rodrigues no Facebook.

Ouça, abaixo, o samba-enredo do Carnaval 2017 da Imperatriz Leopoldinense:

Aqui, a polêmica letra de Xingu, o Clamor que Vem da Floresta, composto por Moisés Santiago, Adriano Ganso, Jorge do Finge e Aldir Senna:

Brilhou a coroa na luz do luar!
Nos troncos a eternidade a reza e a magia do pajé!
Na aldeia com flautas e maracás
Kuarup é festa, louvor em rituais
Na floresta, harmonia, a vida a brotar
Sinfonia de cores e cantos no ar
O paraíso fez aqui o seu lugar
Jardim sagrado, o caraíba descobriu
Sangra o coração do meu Brasil
O belo monstro rouba as terras dos seus filhos
Devora as matas e seca os rios
Tanta riqueza que a cobiça destruiu!

Sou o filho esquecido do mundo
Minha cor é vermelha de dor
O meu canto é bravo e forte
Mas é hino de paz e amor!

Sou guerreiro imortal derradeiro
Deste chão o senhor verdadeiro
Semente eu sou a primeira
Da pura alma brasileira!

Jamais se curvar, lutar e aprender
Escuta menino, Raoni ensinou
Liberdade é o nosso destino
Memória sagrada, razão de viver
Andar onde ninguém andou
Chegar aonde ninguém chegou
Lembrar a coragem e o amor dos irmãos
E outros heróis guardiões
Aventuras de fé e paixão
O sonho de integrar uma nação

Kararaô, Kararaô, o índio luta por sua terra
Da Imperatriz vem o seu grito de guerra!

Salve o verde do Xingu, a esperança
A semente do amanhã, herança
O clamor da natureza a nossa voz vai ecoar
Preservar!

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