Pode viajar tranquilo

por Marcelo Fiuza 28/09/2011 14:50

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José Celso Lima, Mauro Marques, divulgação
Tatiane Lisboa, de Unaí: "Fazemos uma culinária internacional, mas com um toque de regionalismo" (foto: José Celso Lima, Mauro Marques, divulgação)

Pode comprar as passagens. Há culinária de alta qualidade esperando no interior de Minas Gerais. Não falamos aqui de releituras de frango com quiabo ou tutu à mineira, mas de pratos requintados, preparados por chefs experientes ou por jovens talentos em busca de reconhecimento. Cardápios que fariam felizes os comensais de qualquer metrópole do mundo são oferecidos nas mais diversas regiões do estado. E, para o leitor não se perder no caminho, preparamos uma seleção diferente dos tradicionais roteiros históricos, com destinos de dar água na boca.

 

André Borgo, de Barbacena: "O fato de estarmos à beira da rodovia faz com que tenhamos acesso a quase tudo. Temos frutos do mar frescos e minha carne vem do Uruguai"
 

 

Um bom lugar para começar esta saborosa busca é o sul de Minas, onde o clima frio da montanha e a proximidade com Rio de Janeiro e São Paulo estimularam o surgimento de restaurantes que atraem o turista mais exigente. Entretanto, no quesito sabor, cidades pouco prováveis de figurarem nos guias, como Gonçalves e Muzambinho, hoje se destacam.

 

E é na zona rural de Gonçalves, à beira de uma cachoeira, que se encontra o Le Gourmet Bistrot, sob comando do paulista Toninho Basile. Com 25 anos de experiência em restaurantes internacionais, o chef conta que, para manter o alto padrão gastronômico no interior do estado, é preciso saber usar o que o lugar oferece de melhor. “Você deve ter conhecimento de técnicas de vanguarda na culinária internacional e associá-las ao que recebe da região onde está situado”, diz o chef, que usa pequi, fruta do cerrado, para preparar lagostas ao molho aïoli – um clássico da cozinha provençal. “Produzimos nossas ervas”, ensina Basile. “A base técnica é a culinária francesa, à qual associamos novos aprendizados na área da culinária molecular, especialmente a espanhola”, explica o chef, que morava com a família em Itu (SP) quando conheceu Gonçalves a passeio e por ali ficou. “Nos encantamos com o lugar e vimos que havia público capaz de absorver esse turismo gastronômico”, diz o membro da Associação Brasileira de Alta Gastronomia.

 

Marco Soares, de Uberlândia: "Somos o único restaurante do Triângulo Mineiro indicado pelo Guia 4 Rodas"
 

 


Mesma opinião tem um veterano no ramo, Walter Pereira de Araújo, 70 anos. Há cinco décadas à frente da Cantina do Araújo, na cidade vizinha de Poços de Caldas, o empresário diz que o mercado da boa mesa nem sempre esteve tão receptivo assim, e lembra que foi preciso trabalhar muito para consolidar a cultura gastronômica regional. O segredo, diz ele, é manter o alto padrão para atrair o consumidor mais refinado: “Nossa sorte é que estamos em uma estância turística, próximos a São Paulo, e recebemos pessoas acostumadas a viajar e a comer em excelentes restaurantes”.

 

 

 

Paulista de nascimento, Araújo chegou a Poços de Caldas com a família ainda menino. Com a morte prematura do pai, abandonou a formação em medicina para assumir a cantina. Aprendeu o ofício em Florença, na Itália, onde se especializou em carnes, massas e peixes. Hoje, se orgulha da clientela ilustre e cativa, estampada em mais de 200 fotos pela parede da aconchegante casa. Na lista, figuram nomes como o do cantor Moacyr Franco e o do vice-governador de Minas, Alberto Pinto Coelho. Há fotos de quatro ex-presidentes da República na cantina. “Nosso mais antigo e assíduo cliente era o embaixador Walter Moreira Salles [banqueiro, fundador do Unibanco, mineiro de Pouso Alegre, que morreu em 2001]. Na semana passada, o ministro Guido Mantega jantou aqui”, comenta.

 

Foi a busca por esse reconhecimento que levou o jovem chef Gilmar de Paiva Reis, 22 anos, a Muzambinho. Ele chegou lá em 2007, recém-formado pelo hotel-escola Grogotó, em Barbacena, que o indicou para trabalhar também em restaurantes de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro, mas ele optou mesmo pelo interior mineiro. “A escola tem um balcão de empregos para alunos que se destacaram e fui selecionado. Escolhi Muzambinho porque a mão de obra no interior é mais difícil de achar e, por isso, há o reconhecimento da profissão. Há um público exigente muito bom que hoje sabe onde nos encontrar”, diz o chef. Reis conta que, a despeito da distância dos grandes centros, não tem dificuldade em encontrar ingredientes para pratos internacionais. “É possível fazer alta gastronomia no interior. Temos acesso a bons produtos e o que não encontramos aqui na cidade, buscamos nas capitais”, afirma.

 

Antônio Abrahão, de Brumadinho: cuidado com todos os detalhes, desde a escolha dos ingredientes e especiarias
 

 

Chef e proprietário do restaurante La Scaciatta, em Monte Verde, Luiz Benedito César, de 55 anos, afirma que a proximidade com São Paulo garante tanto o fornecimento de ingredientes de primeira quanto uma clientela disposta a usufruir de uma boa mesa. “É perfeitamente possível manter o padrão de qualidade aqui no sul de Minas”, garante o empresário. “Estamos no sudeste, onde há muitas opções de fornecedores próximos, com todo tipo de condimentos e temperos, e nosso público é bastante seleto, degusta dos melhores prazeres e sabe apreciar pratos de alta gastronomia”, diz César.

 

 

 

Versado em culinária do Mediterrâneo, o chef Marco Soares, 41 anos, garante que também não tem dificuldades em encontrar ingredientes bem longe do mar – no caso, em Uberlândia, onde o Oliva Restaurant funciona dentro do imponente Hotel Presidente. “O que a gente precisa, vem de avião”, diz Soares. Após trabalhar por 20 anos em hotéis e restaurantes de Portugal, França, Finlândia e Canadá, ele trocou a Espanha pelo Triângulo Mineiro há menos de dois anos. Chegou para prestar uma consultoria e não foi mais embora. “O hotel passou por uma reforma e me chamaram para dar consultoria. O restaurante não existia. Eu estava no Michelin, em Barcelona, vim para o Brasil e acabei ficando. Está dando supercerto. Somos o único restaurante do Triângulo Mineiro indicado pelo Guia 4 Rodas”, celebra o chef, que nasceu no Rio de Janeiro, mas cresceu em Belo Horizonte.

 

Especializada em peixes, a chef Tatiane Lisboa confere atualidade a algumas iguarias tradicionais pelas bandas de Unaí, onde comanda a cozinha do restaurante do Hotel Regente. “Fazemos um pouco da culinária de todos os países, mas adequando as receitas ao regionalismo. Damos um ar mais contemporâneo aos pratos, deixando-os mais leves”, diz a chef formada pela universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, e que tem como diferencial as formas inovadoras de preparar o surubim típico do nordeste de Minas.

 

Duas gerações e a mesma paixão pela gastronomia: Gilmar Reis (à esquerda), de Muzambinho, e Walter Araújo, de Poços de Caldas, optaram pela qualidade de vida do interior
 

 

Bem ao lado da capital mineira, na região metropolitana, a rodovia BR-040 entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro é um verdadeiro corredor de delícias, no qual o amante da boa gastronomia encontra boas e curiosas pedidas. Uma delas fica bem perto da capital mineira, em Brumadinho: a Casa de Abrahão Bistrô Árabe. No chalé instalado nas encostas da serra da Moeda, o freguês assiste o preparo do pão markuk e de outras iguarias encontradas no norte da África e no Oriente Médio. O proprietário, Antônio Abrahão, cuida de tudo pessoalmente, misturando, com originalidade, culinárias tão diversas quanto a marroquina e a persa. “Nosso freguês busca aquele prato que comeu no Líbano, no Marrocos. Temos tanto o prato típico, tal qual é feito lá fora, como nossas próprias criações”, diz Abrahão. As dificuldades, às vezes, são em relação aos ingredientes e especiarias.

 

 

 

A 120 quilômetros dali, em Barbacena, o chef André Borgo concorda com o colega. “É difícil praticar alta gastronomia no interior de Minas, mas é possível. O fato de estarmos à beira da rodovia faz com que tenhamos acesso a quase tudo. Temos frutos do mar frescos e minha carne vem do Uruguai. A dificuldade está em buscar produtos mais diferenciados, como uma trufa, um funghi seco”, explica o responsável pela cozinha do Tulha du Chef. Barbacenense, Borgo conta que resolveu essa questão ao adotar ingredientes cultivados em sua terra natal. “O clima de Barbacena nos favorece, por ter produtos diferentes, como o champignon fresco e alguma coisa de shitake, além de blueberries e amoras”, explica, citando como exemplo seu bombom de filé ao molho de laranja. “Acrescentamos um toque local, que é o cogumelo Paris fresco no arroz”, comenta.

 

Mais adiante, ainda no caminho para o Rio de Janeiro, há uma última e obrigatória parada para o viajante que aprecia uma boa massa. É a Osteria da Silvano, em Juiz de Fora, onde o proprietário, o italiano Silvano Forte, 60 anos, faz questão de receber os convivas pessoalmente. Além de música ambiente, a casa oferece um pouco do sabor da Calábria à freguesia. “Espero ter contribuído para melhorar a realidade gastronômica da cidade”, diz o chef, que estudou na Escola Villa d'Este, na Itália, e já trabalhou na Alemanha e na França. Com tantas boas opções, só nos resta desejar boa viagem. Ou seria bom apetite?

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