A volta ao velho mundo

por Carolina Godoi 20/10/2011 13:12

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Eugênio Gurgel, Maíra Vieira, Paulo Márcio, Divulgação
Fábio Martinelli, sommelier do Super Nosso Gourmet (foto: Eugênio Gurgel, Maíra Vieira, Paulo Márcio, Divulgação)

É fato que o brasileiro começou a se interessar mais por vinhos experimentando os bons produtos chilenos e argentinos. Talvez pela proximidade entre os países, o preço acessível e a qualidade de produção dos vizinhos que, da década de 1990 até agora, só está melhorando. Apesar de ainda serem líderes em venda no Brasil, especialistas e consultores de casas especializadas em vinho na capital mineira estão percebendo uma mudança no comportamento de consumo: os vinhos europeus estão sendo mais procurados, principalmente os franceses, italianos, espanhóis e portugueses. “O mineiro está aprendendo mais sobre a bebida e se cansou de provar sabores parecidos. Além disso, passou a procurar bebidas mais gastronômicas, que se harmonizem melhor com o prato que vão oferecer”, opina Paulo Viana, diretor de degustação da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho (Sbav-MG).

 

Existem vinhos europeus modernos e mais fáceis de beber, prontos para consumo. Vinho europeu não é somente sinônimo de bebida estruturada e rústica, pode ser leve e aveludada, agradando a vários tipos de paladar. Alguns produtores da Europa, que não aceitavam fazer vinhos iguais aos que pedia o mercado no passado, e respeitaram o terroir, estão colhendo os frutos agora. “Resistindo às mudanças, eles conseguiram preservar sabores que só se encontram naquelas regiões, por isso o desejo de experimentar certo vinho, com personalidade única, encontra seu lugar”, diz Paulo Viana.

 

Márcio Oliveira, consultor do Mart Plus: “As vendas aumentaram de maneira geral e regiões produtoras estão trazendo novos vinhos”
 

 

Outros fatores que contribuem para a mudança são o treinamento especializado de sommeliers nas importadoras e supermercados, que passam a estimular o consumidor a sair da mesmice, e o fato de que muitas empresas passaram a fazer importação própria, simplificando os tributos. Além disso, a crise econômica europeia e a maior demanda fizeram com que os preços deixassem de ser um problema.

 

Mesmo consumindo vinhos do novo mundo no dia a dia, o servidor público federal Antônio Carellos, que adora estudar sobre o universo enogastronômico desde que elegeu a bebida como única, dá preferência aos vinhos portugueses e espanhóis. Pensa na qualidade e no bom custo benefício. “Além disso, os cortes das uvas europeias são muito mais interessantes”, afirma. O analista de sistemas Ricardo Botrel, que participa de uma confraria há dez anos com outros seis amigos, degusta todas as semanas de três a cinco vinhos de variadas regiões. “É inegável que aumentou muito nossa amplitude de escolha, gostamos de garimpar e tentar agradar a vários paladares”, conta. Segundo ele, agora é economicamente possível ter na adega um de seus preferidos, o francês Compet Canet, da região Paulliac.

 

Haendel Roberto, superintendente da Casa Rio Verde: vinhos de boas safras antigas ficaram 20% mais baratos
 
Carlos Arruda, do Verdemar, onde metade dos 700 rótulos vem da Europa: “Estamos descobrindo a ótima produção do sul da França”
 

 

O professor e consultor de vinhos do Verdemar, Carlos Arruda, destaca que entre a importação de 700 rótulos, metade é do velho mundo. “Estamos descobrindo principalmente a ótima produção do sul da França, que está se aprimorando e ganhando mais flexibilidade para trabalhar com o mercado internacional”, diz. O Super Nosso Gourmet também tem importação direta de 80% dos vinhos vendidos. “A procura está mudando porque nosso consumidor está viajando muito mais, conhecendo novos lugares e provando vinhos diferentes”, afirma o sommelier Fábio Martinelli, que começou a buscar vinhos dessas regiões que estão sendo pedidos pelos clientes da rede de supermercados.

 

O poder de compra dos brasileiros e o bom momento da economia fizeram com que organismos internacionais tivessem ações recentes no Brasil, como Viniportugal, Instituto do Cava (Espanha), SudFrance (Languedoc e Roussillon) e Vinhos de Provence. Segundo Márcio Oliveira, consultor de vinhos do Martplus, este é um sinal claro do potencial do mercado para os vinhos do velho mundo. “Percebemos que as vendas aumentaram de maneira geral. O enófilo está buscando novas possibilidades e o mercado possui volume muito grande de regiões produtoras com ações comerciais, que antes não tinham interesse no Brasil, com a chegada de novos vinhos”, afirma.

 

Ricardo Botrel, analista de sistemas, participa de confraria com seis amigos: há 10 anos eles degustam de três a cinco vinhos todas as semanas
 

 

Novas fronteiras no velho mundo estão sendo exploradas, como atesta Guilherme Corrêa, sommelier da Decanter, bicampeão brasileiro (ABS), que está trazendo a bola da vez em termos de potencial de mercado: os vinhos da Eslovênia e Croácia. O que muitos não sabem é que estes países têm tradição milenar na elaboração de vinhos, com influência do mar mediterrâneo e das montanhas alpinas, proporcionando grande amplitude térmica. “São vinhos fascinantes, profundos e longos, com enorme capacidade de guarda”, disse, em visita recente a Belo Horizonte, primeira cidade brasileira a conhecer a produção desses países.

 

Os números são atrativos para ambos os lados. A Trigopane, por exemplo, que oferece 760 rótulos de vinhos importados, tinha em 2009 uma cartela voltada em 70% para vinhos do novo mundo. “Agora está meio a meio”, informa o gerente comercial Jeferson Teixeira Almeida. Os vinhos europeus de consumo rápido são vendidos em média por R$ 25 a R$ 30, grupo que aumentou 40% em vendas. A média de preço do vinho de qualidade superior é também muito convidativa: R$ 80.

 

Guilherme Corrêa, sommelier da Decanter: novidades da Eslovênia e da Croácia, “com enorme capacidade de guarda”
 
O servidor público federal Antônio Carellos: preferência por vinhos portugueses e espanhóis, por causa da qualidade e do bom custo benefício
 

 

O superintendente da Casa Rio Verde, Haendel Roberto, destaca que seus vinhos de safras antigas (a partir de 1999) ficaram 20% mais baratos, e frisa que antes de comprá-los é preciso conhecer o produto e como é feita esta seleção, já que existem vinhos ruins de qualquer região: “O bom vinho expressa as características do seu terroir”, opina. O enólogo e gerente geral da Enoteca Decanter, Lizandro Neis, destaca outro lado da moeda: há pouco mais de um ano, houve mudança no perfil dos vinhos europeus. “Antigamente, quando pensávamos em tomar um vinho mais velho, de guarda, logo pensávamos na Europa. Hoje já não acontece somente isso, apesar de a Europa ainda ter o seu conservadorismo”, afirma.

 

 
 

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