Portugueses redescobrem o Brasil

por Carolina Godoi 16/01/2012 13:24

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Carolina Godoi, Divulgação
O resultado dos vinhos nordestinos está surpreendendo até os críticos e enólogos mais pessimistas (foto: Carolina Godoi, Divulgação)

Imagine um lugar onde o sol brilha durante todo o ano, com pouca chuva e bastante calor. Assim é Lagoa Grande, município a 60 km de Petrolina, em Pernambuco. O clima semiárido e a proximidade da linha do Equador, ao invés de amedrontar, encantaram a Dão Sul, empresa portuguesa referência em qualidade de vinhos, que possui nove vinícolas e é a quarta maior do seu país. O agrônomo e consultor João Santos, que viveu toda sua vida na região da Guarda, interior de Portugal, foi o responsável por desbravar os dois mil hectares de terra da vitinícola Santa Maria, que produz a – hoje premiada nacional e internacionalmente – linha de vinhos brasileira, a Rio Sol.

 

“Há nove anos, aqui só havia ‘achismo’, nada de pesquisas”, diz Santos, ao explicar por que o resultado dos vinhos nordestinos está surpreendendo os críticos e enólogos mais pessimistas. “Aqui temos luz e o clima quente e seco é ideal para produção do vinho”, conta. Como os dias são muito quentes e as noites são bem frescas, o diferencial térmico de que as vinhas tanto precisam chega a ser bem maior do que na maioria das regiões viticultoras do mundo. “Não é o frio que importa para a uva, e sim a diferença entre a temperatura máxima e a mínima”, explica.

 

Bela paisagem: os 200 hectares de área plantada dividem espaço com uma sede, igreja, escola e trinta casas, numa vila onde moram os funcionários da Rio Sol
 

 

Quando os pesquisadores da Universidade de Lisboa avistaram o leito caudaloso do Rio São Francisco (que, por causa da Barragem de Sobradinho, tem nível constante) a poucos metros da propriedade, bateram o martelo num investimento inicial de R$ 2 milhões em pesquisa. Trouxeram 36 mudas diferentes de cada cepa que lhes interessava das melhores regiões da França e passaram a monitorá-las, até descobrir quais delas se dariam melhor no solo tropical.

 

Atualmente, os 200 hectares plantados (ainda com muito potencial de crescimento) dividem espaço com uma sede, igreja, escola e 30 casas, numa vila onde moram os 150 funcionários da Rio Sol. A adega, única do mundo com paredes naturais de videiras plantadas para amenizar o calor, tem 1,5 milhão de capacidade de armazenamento, equipada com 150 barricas de carvalho francês. O equipamento de engarrafamento é italiano, de alta tecnologia. Existem aproximadamente seis como este no Brasil. Hoje, a produção chega a 1,5 milhão de litros por ano.

 

A Rio Sol elabora seus vinhos com cerca de 20 variedades de cepas, entre elas a syrah, aragonez, cabernet sauvignon, alicante bouschet, touriga nacional, vioginier, chenin blanc, fernão pires e arinto.

 

A região de Lagoa Grande produz uva em ciclo contínuo: não existe o inverno dos climas temperados e não ocorre a fase de dormência da planta
 

 

O que há de ainda mais especial nesta região é o fato de que como não existe o inverno dos climas temperados, não ocorre a fase de dormência da planta. “Produzimos uva em ciclo contínuo, enquanto que em outras regiões a uva é comandada pelo clima. Aqui, o homem comanda: assim que fazemos a poda, ela entra em atividade novamente”, explica o enólogo Ricardo Henriques, responsável pela área de produção da Rio Sol. Ele frisa que a planta tem período de repouso, mas não hiberna. O resultado é visível no campo: em cada lote, é possível visualizar ao mesmo tempo estágios diferentes do ciclo das vinhas. “Isso permite fazer vinhos diferentes ao longo de todo o ano. Podemos planejar a época da colheita para determinada época, de acordo com o que pede o mercado”, conta. É por isso que corre entre eles um ditado, incansavelmente repetido: “Vinhos nordestinos são feitos com atitude, e não com latitude”.

 

Não tardou em vir o reconhecimento de tal atitude certeira da equipe da Vitivinícola Santa Maria. O tinto Rio Sol Assemblage ganhou medalha de ouro no II Concurso Internacional de Vinhos do Brasil em 2004. No mesmo ano, pela primeira vez um vinho brasileiro foi pontuado pela revista Wine Spectator, a melhor publicação do gênero no mundo. Em 2009, o Winemakers Selection Touriga Nacional e o Rio Sol Assemblage levaram medalha de prata no Concurso Internacional de Bruxelas, que em 2010 também deu a medalha Gran Ouro ao Espumante Rio Sol Rosé.

 

Mudas trazidas da Europa se adptaram bem à região: o Nordeste do Brasil produz vinhos com a qualidade do velho mundo e já começa a ganhar fama
 

 

Entretanto, nem só de prêmios se pontua um vinho, e sim de público. O exigente consumidor mineiro começa a descobrir que é possível se tomar espumantes de qualidade e grandes vinhos tintos feitos no Brasil. A empresária mineira Cláudia Bernardes representa a vinícola em Belo Horizonte há um ano e confirma: “Minas é o mercado da Rio Sol que mais cresceu no último ano, aproximadamente 400%”, diz. João Santos complementa que o momento vai além de vender vinhos e crescer em número de garrafas. Foi estabelecida uma marca no mercado, após criarem o conceito de um novo espumante para um novo público. “Revolucionou-se por completo o tradicionalismo, foi uma inovação”.

 

O agrônomo, consultor e desbravador João Santos: “Há nove anos, aqui só havia ‘achismo’, nada de pesquisas”, diz o português
 

 

Apaixonada pelos espumantes, Cláudia passou a fazer visitas frequentes à vinícola para se inteirar do processo de produção. O entusiasmo com o trabalho da equipe cresceu na mesma proporção das vendas e os produtos, em poucos meses, chegaram às redes de supermercado, bufês, casas noturnas e restaurantes mais importantes da capital mineira. “O espumante Brut Rosé é o preferido dos mineiros, o que nos coloca em primeiro lugar em vendas no Brasil este ano”, afirma.

 

A empresária Cláudia Bernardes representa a vinícola em BH: “Minas é o mercado da Rio Sol que mais cresceu no último ano, aproximadamente 400%”
 

 

Para 2012, ela aumenta a cartela de vinhos tintos mais conceituados da vinícola e outros rótulos portugueses exclusivos do Grupo Dão Sul.

 

Nas terras nordestinas, a promessa é de futuro ainda mais surpreendente se contarmos os investimentos em oliveiras e sobreiros. Em alguns anos, teremos azeite brasileiro de tecnologia portuguesa, e em outros 30 anos mais, as primeiras rolhas de cortiça produzidas em solo nacional? Só o tempo vai dizer. Mas prova de que o solo é mesmo único é a vista curiosa da entrada da Rio Sol: quilômetros de videiras ao lado de roseiras, como nas famosas regiões de vinhos do mundo? Nada disso. Ao invés das rosas, um corredor de coqueiros tropicais. Só no Brasil duas plantações tão antagônicas poderiam crescer em harmonia e ainda servir de um belo cartão postal.

 

Curiosidade

 

Uma pesquisa feita pela Universidade Federal de Pernambuco comprovou que os vinhos do Paralelo 8, produzidos a partir da uva syrah, tem seis vezes mais resveratrol do que os da mesma casta produzidos em outras partes do mundo. Por ser mais perto do Equador, a planta passa por maior estresse e, por isso, tem de desenvolver mais mecanismos de defesa contra os agentes agressivos. Essas defesas são os antioxidantes, que depois acabam naturalmente indo para o vinho.

 
 
 

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