Castas da terrinha

Vinhos produzidos com uvas típicas de Portugal chegam ao mercado de BH e conquistam pela variedade. Saiba quais são as diferenças entre algumas espécies que só se encontram lá e as características mais marcantes dos rótulos de cinco regiões vinícolas portuguesas

05/09/2013 15:10

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Por mais que pareça improvável, bastardo, carão-de-moça, esgana-cão, alvarelhão e rabo-de-ovelha são nomes de uvas tipicamente portuguesas. Ou melhor, apenas algumas, já que o número de "castas autóctones" (como dizem os lusos) beira  300. Para fazer seus achados entre esses tintos e brancos, o enófilo não tem de se preocupar em decorar tanto, mas precisa saber o que esperar das principais cepas estampadas nos rótulos que chegam do país europeu. E eles não param de ganhar espaço no mercado mineiro.

A touriga nacional ainda é a rainha das uvas portuguesas – é usada, inclusive, no vinho do Porto – e dá origem a tintos aveludados, elegantes e com aroma de violeta. Costuma ser combinada com uvas como touriga franca, tinta roriz (chamada de aragonês no Alentejo) e tinta amarela (também conhecida como trincadeira). Apesar de usada em todas as regiões portuguesas, é nos tintos do Douro e Dão que essa casta tão nobre brilha mais.

No Dão, a propósito, é cultivada uma das mais emblemáticas uvas brancas lusitanas, a encruzado, com a qual se faz um vinho que nada tem a ver com os “branquinhos” ligeiros: complexo, mineral e longevo. Por lá, as tintas alfrocheiro e jaen, ao lado da touriga nacional e da tinta roriz (é a mesma tempranillo espanhola), dão origem a vinhos de excelente qualidade, estruturados, elegantes e agradáveis. Hoje, o Dão se esforça para recuperar o prestígio que teve no passado.

João Carlos Martins
Sommelier do Hermengarda, Jean Carlo Medeiros diz que o público quer bebidas diferentes: casa triplicou o número de rótulos (foto: João Carlos Martins)

No Alentejo, região cujos vinhos talvez sejam os mais fáceis de encontrar em Belo Horizonte, destacam-se tintos de cortes elaborados com as nativas trincadeira e aragonês e as estrangeiras cabernet sauvignon, syrah e alicante bouschet – esta última se adaptou muito bem por lá e caiu em desuso na França, sendo considerada, praticamente, alentejana. Entre os brancos, sobressaem os feitos com antão-vaz, marcados por notas de frutas tropicais e um quê de mineral – as uvas arinto e roupeiro também rendem bons brancos.

Por falar nisso, é na região do Minho, extremo norte do país, que é feito o mais prestigiado branco lusitano, o vinho verde. Sua uva mais importante é a alvarinho, que confere intensidade de cor e aroma, bem como notas de frutas amarelas, flores e até mel e nozes. Outras castas empregadas nos refrescantes vinhos verdes brancos (há também os rosés, os espumantes e os difíceis tintos) são trajadura, loureiro e pedernã (nome que a casta arinto recebe por lá).

Geraldo Goulart
Para a enóloga Ana Luíza Borges, é preciso combater o preconceito do consumidor: "Um vinho português razoável pode ser comprado a partir de R$ 35" (foto: Geraldo Goulart)

Como se vê, a denominação de uvas em Portugal é um capítulo à parte. Não há como deixar de citar o clássico exemplo da uva branca, que "muda de sexo" ao ser plantada em locais diferentes: costuma ser chamada de fernão-pires, mas, se for na Bairrada, é maria-gomes. Os vinhos com ela costumam ser florais, frutados e encorpados. Pode ser usada para espumantes, o mesmo valendo para outra uva branca típica, a bical, também conhecida como borrado-das-moscas (no Dão).

O produtor Luís Pato é a referência maior da Bairrada e é ele o responsável por uma das mais saborosas "descobertas" portuguesas dos últimos anos, o tinto da uva baga. Por décadas considerada "maldita" – nas palavras do próprio Pato –, essa casta foi domada por ele e reapresentada sob a forma de vinhos poderosos (alguns bem tânicos). A outra "novidade" também é da Bairrada: a cepa tinta alvarelhão, à qual os lusos não davam muita atenção, foi transformada pelo produtor Carlos Campolargo num tinto expressivo, elogiado pela imprensa especializada do país e por ninguém menos que Julia Harding, braço direito da crítica inglesa Jancis Robinson.

Eugênio Gurgel
O consultor Júlio Anselmo acredita que os vinhos portugueses chegaram para ficar: "Eles oferecem gama muito grande de harmonização, a começar pelos vinhos verdes, que são muito refrescantes" (foto: Eugênio Gurgel)

Prova do crescente interesse do público por vinhos como esses, o restaurante Hermengarda triplicou o número de vinhos de Portugal em sua carta este ano: hoje, dos 170 rótulos, 35 são do país europeu. "O resultado tem sido extremamente positivo. É o país cujos vinhos mais vendo aqui e principalmente das regiões do Douro e Alentejo. Os clientes andam cansados de cabernet, malbec, carménère, chardonnay. Tudo isso vende sozinho. Se ficarmos na mesmice, deixaremos de conhecer uma série de vinhos interessantes", avalia Jean Carlo Medeiros, sommelier da casa, que trabalhou 10 anos em Portugal.

 
Samuel Gê, Eugênio Gurgel e divulgação
(foto: Samuel Gê, Eugênio Gurgel e divulgação)

Para o consultor e membro honorário da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho de Minas Gerais, Júlio Anselmo, a aceitação dos vinhos lusos pelo público vai aumentar, e esse é um caminho sem volta: "Eles têm qualidade muito boa e preço bom. Oferecem gama muito grande de harmonização, a começar pelos vinhos verdes, que são muito refrescantes. A pessoa fica surpresa ao tomá-los com um camarão ou uma lula. O Brasil deveria consumir mais vinhos verdes. Temos clima para isso", diz.

"Meus alunos falam que estão vendendo muito vinho português", conta a enóloga, consultora e professora da Associação Brasileira de Sommelier, Ana Luiza Borges. Ela ainda vê certo preconceito em relação a esses rótulos por parte do consumidor, que estaria, em sua opinião, mais habituado aos chilenos, franceses e italianos. O preço ajudará a reverter isso, segundo Ana Luíza. "Um vinho português razoável, para o dia a dia, pode ser comprado a partir de R$ 35 nas importadoras. É uma opção de preço próximo dos sul-americanos, mas com qualidade bacana. Fora a variedade de castas", diz.
 
Divulgação
(foto: Divulgação)
 
 
Nova região, novos rótulos

Outra palavra associada ao vinho português que o enófilo talvez veja com maior frequência, a partir de agora, é Tejo, novo nome da região vinícola do Ribatejo, situada entre o Alentejo e a cidade de Lisboa, e cortada pelo famoso rio Tejo. Recentemente, um grupo de produtores de lá esteve em BH e apresentou seus vinhos para profissionais do meio, num esforço para mostrar que a produção atual inverteu as metas e, nos últimos anos, vem priorizando qualidade no lugar de quantidade. Hoje, o Brasil compra 4% dessa produção, e os lusitanos querem dobrar esse número. Suécia, Angola e China são os maiores compradores.

"Há boa refrescância nos brancos e taninos macios nos tintos. De maneira geral, são vinhos de boa relação custo/benefício", resume o consultor Márcio Oliveira, que fez a palestra de apresentação do evento. Bairro, Charneca e Lezíria são as principais zonas produtoras do Tejo, que têm entre as uvas tintas mais cultivadas touriga nacional, trincadeira e cabernet sauvignon e, entre as brancas, arinto, verdelho e fernão-pires. Os 19 mil hectares de vinhas da região representam 8% do total nacional e de lá saem 500 mil hectolitros de vinho por ano.

Entre rótulos já disponíveis no mercado e outros que aguardam ser pinçados por importadores, destacaram-se no evento, entre outros, o branco Fiuza Ikon 2011, elaborado com a internacional chardonnay e a portuguesa trincadeira das pratas, e os tintos Badula 2010 (touriga nacional, syrah e alicante bouschet) e Casa Cadaval 2010, este último feito com casta que é típica da região, a trincadeira preta. Rótulos de bom custo/benefício não faltaram, como os tintos Casal da Coelheira 2010 (alicante bouschet, touriga franca e touriga nacional) e Vila Jardim 2012 (trincaderia, aragonês, merlot e syrah), e os brancos Terraços do Tejo 2012 (fernão-pires) e Casal da Coelheira 2012 (fernão-pires, arinto e verdelho).

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